Tarsila popular, a mais ampla exposição já feita da artista Tarsila do Amaral, chegou ao fim em 28 de julho de 2019, como a mostra mais visitada da história do MASP. Com 402.850 visitantes, superou outro fenômeno de público do museu, Monet, realizada entre maio e agosto de 1997. A exposição do impressionista, que mobilizou São Paulo à época, teve 401.201 espectadores.

 

“O recorde de visitação da exposição Tarsila popular no MASP reflete a consolidação da artista não apenas na história da arte, mas no imaginário do grande público. Ele aponta também para um interesse crescente pela arte e pelo museu, algo que que também pode ser atestado na venda do catálogo da exposição, um denso volume de 360 páginas que até agora já superou a marca de 7 mil exemplares”, diz Adriano Pedrosa, diretor artístico do museu, e curador da exposição ao lado de Fernando Oliva.

 

“Essa grande visitação reafirma o desejo do público por olhares renovados em relação aos artistas canônicos da história da arte brasileira, o interesse em abordagens novas e inéditas, caso desta mostra, que trouxe para o centro do debate não só o popular, mas as questões sociais, raciais e de classe na obra de Tarsila, aspectos que costumam ser negligenciados”, afirma Fernando Oliva.

 

Aberta ao público em 5 de abril de 2019, juntamente com Lina Bo Bardi: Habitat, a mostra Tarsila popular foi um sucesso de público desde o primeiro momento. No vernissage para convidados, na noite de 4 de abril, 1.800 pessoas formaram fila no vão livre para ver em primeira mão as 92 obras da exposição, entre pinturas e desenhos da modernista.

 

Com forte procura nos quatro meses em que esteve em cartaz, as terças, quando a entrada é gratuita, foram responsáveis por metade do público da exposição. Em julho de 2019, mês de férias escolares, a visitação deu um salto. A mostra bateu sucessivos recordes. No dia 16 de julho, o MASP registrou 8.454 visitantes, marca histórica para um único dia no museu. Na terça seguinte, 23, Tarsila popular superou o próprio recorde, com 8.818 espectadores.

 

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Vão livre do MASP durante a Exposição Tarsila popular.

 

 

O catálogo

O catálogo da exposição, de mesmo nome, teve milhares de exemplares vendidos. O livro é o mais amplo catálogo de mostra sobre Tarsila do Amaral, reunindo 113 de suas obras, bem como fotografias e documentos, em 360 páginas. Organizado pelos curadores da mostra, Pedrosa e Oliva, inclui textos inéditos de ambos, de Amanda Carneiro, Irene V. Small, Mari Rodríguez Binnie, Maria Bernardete Ramos Flores, Maria Castro, Michele Greet, Michele Bete Petry e Renata Bittencourt, além de textos históricos de Paulo Herkenhoff e Sergio Miceli, e comentários de obras feitos por Artur Santoro, Carlos Eduardo Riccioppo, Guilherme Giufrida e Matheus de Andrade. Tarsila popular, o livro, segue à venda no MASP Loja, ponto de vendas do museu com entrada gratuita, independente das exposições, por R$ 139 (brochura) e R$ 159 (capa dura), em edições separadas em português e inglês (Tarsila do Amaral: Cannibalizing Modernism).

 

 

Histórias das mulheres, histórias feministas

Tarsila popular faz parte de um ano dedicado às Histórias das mulheres, histórias feministas, eixo curatorial que pauta toda a programação do museu, de exposições e cursos a palestras e oficinas. Dentro deste ciclo, o MASP promove mostras individuais e coletivas de artistas e pensadoras mulheres. Além de Tarsila e Lina, já passaram pelas galerias do museu Djanira da Motta e Silva e as tecelãs anônimas do Comodato MASP Landmann, mostra iniciada em junho e encerrada com Tarsila popular e Lina Bo Bardi: Habitat.

 

No final de agosto, o MASP inaugura as coletivas Histórias das mulheres – artistas até 1900 e Histórias feministas – artistas depois de 2000, respectivamente com obras de artistas que foram esquecidas pela história da arte oficial e com artistas contemporâneas que trabalham com temas dos feminismos ou são por eles perpassadas. Ainda no segundo semestre, o MASP terá exposições da portuguesa Leonor Antunes, da alemã radicada na Venezuela Gego e da brasileira Anna Bella Geiger.

 

Tarsila popular também integra uma linha de mostras do museu que busca um novo olhar sobre artistas brasileiros consagrados, como Portinari, tema de uma mostra com o mesmo recorte, realizada pelo MASP em 2016.

 

 

A Mostra Tarsila popular

Tarsila do Amaral (1886-1973) foi figura central do modernismo brasileiro em sua primeira fase, a partir dos anos 1920. O “popular” do título referiu-se tanto ao recorte da obra de Tarsila, pelos curadores, como ao programa de revisão da produção de nomes centrais do modernismo brasileiro, empreendido pela atual direção artística do MASP. Assim como Candido Portinari (1903-1962), a obra de Tarsila está na base da construção de uma identidade nacional nas artes, ao lado de nomes como Lasar Segall (1891-1957) e Anita Malfatti (1889-1964).

 

Sem abdicar por completo da matriz modernista europeia e formal da qual fez parte, Tarsila voltou-se para personagens, temas e narrativas ligados ao popular no Brasil. Esse aspecto se manifestou em diversos trabalhos, como é possível observar em suas cenas de Carnaval, favelas e feiras ao ar livre, além da relação de sua obra com a religiosidade e, ainda, com as lendas populares e indígenas — caso das obras “A cuca” (1924), “Abaporu” (1928) e “Batizado de Macunaíma” (1956).

 

“A exposição e o catálogo que a acompanha pretendem promover reflexões mais abrangentes sobre Tarsila, articulando sua vida e obra no contexto de uma visão política, social e racial da cultura brasileira e do modernismo — um movimento que, no Brasil, raramente é abordado sob esses prismas”, diz Fernando Oliva, curador da exposição.

 

Nascida em uma fazenda no interior paulista, em 1886, Tarsila fez parte da aristocracia brasileira. Estudou as técnicas acadêmicas tradicionais na Europa, onde conviveu com pintores como André Lhote (1885-1962) e Fernand Léger (1881-1955). Desse período, chamam atenção retratos que já apontavam para uma ideia de modernidade — na pincelada, na representação não-realista e na tentativa de captar o emocional dos modelos –, como em “Autorretrato com vestido laranja” (1921).

 

Apesar disso, foi ao voltar ao Brasil, em 1922, que Tarsila aderiu às ideias vanguardistas europeias, incorporando-as à sua maneira de representar o Brasil. Foi apresentada por Anita Malfatti ao escritor Mário de Andrade (1893-1945), ao futuro marido Oswald de Andrade (1890-1954) e ao poeta e pintor Menotti del Picchia (1892-1988), formando com eles o Grupo dos Cinco.

 

Guiados pela ideia de encontrar e definir uma arte “verdadeiramente nacional”, os cinco fizeram uma viagem de redescoberta do país pelas cidades coloniais mineiras, acompanhados pelo poeta franco-suíço Blaise Cendrars (1887-1961). Dessa expedição, resultaram desenhos de observação de Tarsila que estavam na mostra.

 

É nesse momento que se inicia o período conhecido como “Pau-Brasil”, uma das três principais fases da carreira de Tarsila, ao lado dos períodos “Antropofágico” e “Social”, todos presentes na mostra. A fase “Pau-Brasil” é marcada por telas de cores e temas acentuadamente tropicais, como a exuberância da fauna e da flora locais, pintadas ao lado de máquinas e trilhos, símbolos, por sua vez, da modernidade urbana do país. Desse momento, são singulares obras como “Estrada de Ferro Central do Brasil” (1924), “Vendedor de frutas” (1925) e “Um pescador” (1925), pintura que faz parte do acervo do museu Hermitage, na Rússia, e será exposta pela primeira vez no Brasil.

 

Foi ainda nos anos 1920 que Tarsila deu início à fase “Antropofágica”, em que conseguiu criar algo de único e particular. Em 1926, Tarsila casou-se com Oswald e apresentou sua primeira individual, em Paris. Dois anos depois, pintou “Abaporu”, cujo nome de origem indígena significa “homem que come carne humana — tipo de ritual praticado por algumas tribos brasileiras, especialmente os tupinambás. A obra inspirou o Manifesto Antropófago, de Oswald, que propunha a apropriação e deglutição, pela cultura nacional, do legado cultural europeu, para devolvê-lo ao mundo sob a forma de uma produção cultural própria, brasileira. Trabalhos como “Urutu” (1928) e “Antropofagia” (1929) estavam na mostra.

 

A chamada fase “Social”, que se segue a “Pau-Brasil”, e “Antropofágica”, deixa clara a aproximação de Tarsila com as questões políticas e sociais. No início da década de 1930, a artista, empobrecida pela perda da fortuna da família na crise de 1929, teve de se desfazer de obras de sua coleção particular. Assim, reuniu recursos para viajar à União Soviética, acompanhada pelo então marido, o psiquiatra Osório César. Juntos, foram para Moscou, Leningrado e Berlim, entre outras cidades. De volta ao Brasil, foi presa, considerada suspeita de “atividades subversivas” por ter visitado países comunistas. Esses eventos marcaram sua fase de temática social, representada por obras como “Segunda classe” (1933) e “Operários” (1933).

 

Quadros mencionados no artigo.

 

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A Lua, 1928, Fase Antropofágica, não esteve na exposição. Contudo, vale o comentário de que em Fev/2019, o quadro foi comprado pelo MoMA de Nova York por cerca de US$ 20 milhões, tornando-se a pintura brasileira mais cara da história. Essa negociação superou a venda do quadro Vaso de Flores de Alberto da Veiga Guignard, leiloado em 2015 por R$ 5,7 milhões, até então o quadro brasileiro mais caro da história.

 

 

Fonte do artigo: MASP;

As fotos das obras foram tiradas do ótimo e recomendado site oficial de Tarsila do Amaral (link).