Ao preencher um formulário on line, surpreendeu-me as opções de impressão citadas neste título. O formulário deveria ter mencionado apenas se o papel seria impresso na posição horizontal ou vertical. Simples assim. Mas se podemos complicar, pra que simplificar? As pessoas não familiarizadas com pintura podem não se lembrar que vertical é sinônimo de retrato e horizontal de paisagem. São as duas posições mais comuns dos suportes quando os pintores os pintam.

 

Por causa de uma cadeia associativa dessas duas palavras, lembrei-me de que sempre comento com amigos pintores e colecionadores que uma paisagem é relativamente simples de ser pintada para pessoas talentosas. Qualquer bom pintor sabe fazê-la. Grandes artistas as transformam em obras de arte imortais. A lista deles é longa. Difícil mesmo é pintar retratos de pessoas, conhecidas ou não, e transformar a tela e o retratado em um objeto artístico ou em uma obra prima, reconhecidos de longe por parentes e amigos, mesmo os retratos cubistas e os pós-modernos. Com certeza, por isso, os museus americanos e europeus mantêm em seus acervos abertos ao público uma quantidade enorme deles. As diretorias e os curadores desses museus sabem o quanto é difícil pintá-los e, vendo um deles com qualidade, compra-o ou o aceita para seus acervos. Guignard afirmava que “era a arte mais difícil”.

 

Apesar disso, há uma resistência enorme entre colecionadores e alguns curadores de museus brasileiros em adquiri-los e os expor. Nada mais incompreensível aos olhos deste articulista. Os primeiros alegam que não querem retratos de alguém desconhecido da família pendurados na parede da sala. Nem mesmo autorretratos de pintores brilhantes ou de pessoas intelectualmente importantes pintados com amor entre amigos. A alegação não procede e indica apenas que o colecionador observou apenas o conteúdo e não percebeu a forma, a beleza dos traços, a força das pincelas e a certeza de que foi executado por artista talentoso.

 

Os segundos, os curadores, reconhecem o seu valor e sabem da dificuldade de executá-los, mas têm limitações de verbas e quando estas são suficientes, preferem adquirir uma paisagem. Retratos são sempre comprados com parcimônia. Os museus com politica operacional aceitam doações, mas é difícil explicar tantas ausências deles nos acervos oficiais. Não são somente as suas faltas por intermédio de compras, mas até mesmo de doações não aceitas, com frequência, por falta de critérios oficiais de seus recebimentos. É mais que provável que os familiares que os doam não se interessam em imortalizar seus parentes dentro dos museus. Eles já estão imortalizados nas telas, por que ninguém joga fora um belo quadro, retrato ou não. Esses familiares querem apenas deixar em museus um quadro que, se vendido, se perderá em acervos particulares. Como nesses casos não precisam do dinheiro, fazem a doação. O grande público prefere as paisagens e alguns curadores seguem também nesse caminho.

 

Sabe-se que os preços de retratos no mercado de arte brasileiro são menores que uma tela de uma paisagem, contrariando o que descrevi no segundo paragrafo e o próprio mercado internacional. Neste, os quadros mais caros do mundo são retratos: Da Vinci, Vermeer, Van Gogh, Picasso, Klimt, De Kooming são os artistas cujos quadros, sempre retratos, são os mais caros da história A própria Mona Lisa é o quadro mais visto e reproduzido no mundo e que, estando no Louvre há muito, perdeu a referência de seu preço em dinheiro. Já vi diminutos retratos em óleos sobre madeira de nobres europeus e que, quase certo, não teriam compradores no Brasil. Mas eles estão em lugares privilegiados nas paredes de museus europeus e americanos, expostos e iluminados como obras-primas que são. A identificação do retratado é citada em fichas ao lado de cada um, mas há casos de pessoas desconhecidas. Se algum deles for colocado em leilão no Brasil, dificilmente alcançariam os preços europeus, apenas por que são retratos e não paisagens.

 

Salvio de Oliveira, marchand durante anos na Galeria Guignard em Belo Horizonte,  foi retratado por Inimá de Paula há décadas. Surpreendentemente, o retrato está na horizontal, na posição de paisagem, e é uma obra prima executada com admirações mútuas, gratidão e amor. Quando de minha curta gestão como presidente da Associação dos Amigos do Museu da Pampulha tentei compra-lo para o seu acervo. A família do saudoso marchand concordou em reduzir o seu preço, desde que o comprador fosse o museu. Foi inútil. A burocracia é tamanha que ninguém suporta esperar o andamento do processo de compra e ainda receber um valor menor que o preço de mercado. Além da burocracia há a eterna falta de verba nos museus, dificultando ainda mais a vida de diretores e curadores. O resultado é que hoje ele está em alguma residência em Curitiba, onde valorizam as coisas que desprezamos. Se o leitor acompanha leilões de arte, sabe o tanto que eles são vendidos com preços menores e com poucos interessados. Reafirmo: uma dificuldade a mais para aumentarmos o acervo de nossos museus com “a arte mais difícil”.

 

Claro que tudo isso não é generalizado em demasia. Alguns colecionadores concordam com este articulista e os compram, aguardando o amanhecer de um futuro que esperam não estar longe. Enquanto isso há no mercado uma escala de valores na lista dos compradores: a preferência descarada é por retratos de crianças. Qualquer uma delas retratada no último ano de vida de Guignard, por exemplo, tem hoje pelo menos 60 anos de idade, uma vez que o artista morreu em junho de 1962. Se a peça é vendida, significa que o próprio personagem ou os seus herdeiros se desinteressaram pelo seu jovem antepassado e, nos leilões, os compradores, entre uma menina e um menino, ficam com a primeira. Entre uma jovem e um jovem, idem. Um idoso ou uma idosa, cujos descendentes não querem mais saber de seus ascendentes por perto, mesmo com traços elaborados de um grande artista, o preço cai.

 

Autorretratos de Guignard e Pancetti são exceções sempre lembradas. O autorretrato que primeiro ilustra essa matéria é de Guignard. Nele há um reconhecimento do envelhecimento do pintor e a sua paixão por Ouro Preto numa bela paisagem ao fundo do quadro. Note o leitor que, com frequência e em vários artistas de renome, retrato e paisagem estão juntos. Dona Helena da Silva Azevedo, viúva de Santiago Americano Freire, casal com quem o pintor fluminense-mineiro conviveu durante os últimos sete anos de sua vida, quando o viu, fez questão de registrar no verso do quadro: “este deslumbrante auto retrato (sic) é de autoria de Alberto da Veiga Guignard”. Ele não é apenas um maravilhoso retrato de um grande pintor, mas um texto literário, uma autobiografia com a demonstração de sua trajetória de alegrias e sofrimentos, de marcas da vida que somente a angústia de ter nascido com defeito leporino, mas escolhido dos deuses pelo talento de poeta pictórico, pode deixar registrado no corpo e na alma, ambos estampados no pequeno óleo sobre cartão.

 

Como a pintura deve ser lida como se fosse um texto literário, há pintores que “escrevem” um texto ficcional com a figura humana, como se fosse um personagem de um conto ou de um romance, sem se preocuparem se ela é de alguém que pousou para ele e que de fato existe ou existiu. São apenas isso, repito: figuras humanas. Outros “escrevem” a biografia do retratado. No primeiro caso, há Reynaldo Fonseca. Seus quadros têm o humanismo que se espera de artistas e suas obras equivalem a textos ficcionais e muito raramente uma biografia. No segundo, há Portinari, Guignard, Pancetti, Inimá, Herculano, Carlos Bracher, Malagoli, Miguel Gontijo, Milton da Costa no início de sua carreira. Bustamante Sá e muitos outros que deixo de citar. Os retratos devem ser imortais textos biográficos até o momento em que são pintados, por isso, podem expressar ingenuidade com figuras jovens e humanismo lírico com adultos intelectual e afetivamente resolvidos. São todos aqueles que representam o oposto do “Retrato de Dorian Gray”, romance e personagem de Oscar Wilde, cujo retrato ia envelhecendo na tela enquanto Dorian permanecia jovem.

 

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Retrato de Monsieur Diebiesse – Créditos: Nélio Aun

 

A segunda ilustração desta matéria é uma obra de Maurice Montet (1905-1997), pintor francês que gostava de pintar crianças, mas abriu exceção para pintar o seu amigo e vizinho. Assim que este retrato me viu em um catálogo de leilão em Paris, sabia que eu seria seu dono. Pinturas são assim: procuram seu dono, reconhecendo de longe quem as amará. Foi uma luta burocrática enviar o valor para pagamento no exterior e trazê-lo para o Brasil. Envolvi amigo italiano para cumprir minha obrigação. Depois de algum tempo, descobri os familiares do artista e entrei em contato com eles para obter mais informações sobre o bravo pintor. Para minha surpresa, recebi um livro contendo várias reproduções de seus quadros e o retrato que tanto amei desde o início está reproduzido nele, como se estivesse esperado alguém que se certificasse da sua beleza. Além de belo, ele traz a velhice do amigo para o suporte, ratificando a amizade de infância a perdurar na maturidade. Montet, tão desconhecido no Brasil, é um artista brilhante, que demonstrou todo seu humanismo também nas paisagens nas quais as figuras humanas são parte do cenário de um conjunto que brilha ao primeiro olhar.

 

O leitor atento percebeu o quanto este articulista é apaixonado pela pintura e, particularmente, pelos retratos. Dessa forma, eu poderia estender este texto por mais páginas e páginas comentando pinturas de outros pintores que conheço ou que fazem parte da pinacoteca brasileira. Menciono mais um dos retratos mais lindos que já vi, ainda pertencente ao acervo da família de João Guaglia. Ele foi retratado por Ado Malagoli quando ambos eram jovens pintores. Quem conheceu Guaglia, como eu, já na maturidade, teve uma ideia de sua beleza física quando jovem. Guaglia era alto para os padrões brasileiros, forte, tinha o rosto bem marcado por linhas retas que os pintores retratistas adoram e era moreno com olhos verdes. Malagoli pintou apenas o seu rosto num óleo sobre tela, mas que rosto e que pintura! É uma peça invejável e deveria estar em algum museu brasileiro, tamanha é sua beleza e a grandiosidade do talento do pintor depositado no pequeno suporte. Além desses detalhes encantadores que fazem até mesmo as pessoas de rosto assimétrico lindos modelos, há a certeza do recado da grandiosidade do talento artístico quando os olhos são pintados. Nada chama mais a atenção do espectador que os olhos humanos, cheios de calor e afetividade. Afinal eles são a janela da alma, assegurou-nos Poe e um compositor brasileiro, e ela deve ser tão pura quanto o talento do artista.

 

 

Carlos Perktold é psicanalista. Reside em Belo Horizonte. Integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA). Integra ainda o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG).

E-mail: perktold@terra.com.br