Houve época em que as ideologias políticas eram divididas entre direita e esquerda e esta procurava convencer a todos de que a causa da miséria humana era a injustiça social. O Muro de Berlin caiu e, com ele, as ideias totalitárias. A teoria marxista, que julgávamos capaz de modificar o mundo, virou história. O arrastão desumano chamado neoliberalismo chegou, levando as ilusões políticas de muitos e abriu caminho para os traficantes, as drogas e os seus usuários, que provocaram e explicam todas as violências e a falta de humanismo, hoje generalizados. Quando a esquerda acenava para a esperança da supressão daquela injustiça, muitos intelectuais se abrigavam no Partido Comunista no qual permaneceram até 1956. Neste ano, em célebre discurso, o então Primeiro Ministro da ex-União Soviética, Nikita Kruschev, denunciou os horrendos crimes de Stalin. A partir de então, não foram poucos os escritores, artistas, poetas, atores, pintores e jornalistas que deixaram o Partidão, perplexos com as denúncias. Historicamente, começa aí a derrocada do marxismo.

 

Enquanto esses intelectuais permaneceram no Partido, sempre se mantiveram também em posições privilegiadas nas editoras, editorias e em postos de governo, decidindo os rumos de publicações em livros ou artigos em jornais, exposições, encaminhamento de artistas e os prêmios nas artes plásticas, formando a opinião pública. Os integrantes do Partidão jamais apoiaram pessoas sem talento, mas, por interferência emocional e política, em ocasiões nas quais deveriam prevalecer o engenho do artista e a beleza das obras, deixaram e/ou não permitiram que se premiassem artistas talentosos e importantes. Aluisio Valle, pintor fluminense de Paraíba do Sul, era “de direita” e, por isso, até hoje suas belas marinhas continuam desvalorizadas no incompreensível mercado de arte.

 

Assim também aconteceu com o pernambucano Vicente do Rego Monteiro, vítima da maior injustiça artística nacional produzida pela esquerda, que nunca permitiu que ele brilhasse o tanto que merecia. Vicente pagou tão caro pela sua opção política que, em 1963, quando já era artista consagrado desde os anos 1920 na Europa, não conseguia vender seus quadros no Brasil. Apesar da vontade e do esforço de muitos a sua bagagem artística não foi enterrada consigo, quando faleceu há quarenta e oito anos, porque o seu talento e a sua originalidade venceram todas as injustas resistências contra ele opostas.

 

A grande tragédia biográfica de Rego Monteiro é que ele viveu na época em que o marxismo imperava nos meios culturais e ele insistia em ser de direita. Mais do que isso. Era monarquista. Jamais abriu mão de suas convicções anacrônicas e cometia o sacrilégio político de escrever manifestos a favor daquilo em que acreditava e, num pequeno prelo manual criado por ele mesmo e no qual imprimia também suas monotipias, tirava centenas de cópias dos panfletos e os distribuía nas ruas de Recife, irritando e provocando o ódio de todos. Foi o grande azar de Vicente. Foi a má sorte do Brasil. Este é o registro histórico lamentável para a esquerda que não teve a grandeza de separar o ideólogo do artista. Vale insistir: os esquerdistas não concordavam com as suas ideias políticas ultraconservadoras, detalhe que é tabu biográfico. Na maioria dos textos sobre a sua vida, esse assunto aparece como um diáfano pano de fundo. E é também tabu histórico a ojeriza que a esquerda lhe devotava.

 

É oportuno registrar que, passados os melhores anos de sua vida em Paris, no meio do mais efervescente vanguardismo – de 1922 a 1932 e de 1947 a 1957, além do período de 1960 a 1964 – teve a sua obra reconhecida e projetada na capital francesa, participando de importantes exposições. No Brasil, ocupou posição de realce no movimento modernista, tendo apresentando dez quadros na Semana de Arte Moderna. Na ocasião, Graça Aranha afirmou: “a remodelação da Estética no Brasil é iniciada na música de Villa Lobos, na escultura de Brecheret e na pintura de Di Cavalcanti, Anita Malfatti e Vicente do Rego Monteiro”.

 

Em 1930, Rego Monteiro trouxe a Escola de Paris com vários de seus integrantes para expor trabalhos em Recife, São Paulo e Rio. Picasso estava entre os expositores e os dois tinham convivência na Europa. A exposição foi um fracasso nas três cidades porque o modernismo só seria aceito no Brasil a partir de 1950, mas é possível que parte daquele malogro se deva ao nome Rego Monteiro envolvido na promoção. Seis anos depois, ele insistia na sua autodestrutividade e chamava os trabalhos do artista espanhol de “oportunista, especulativo, anárquico e de esquerda”, provocando novas inimizades e rompendo com parte dos cubistas parisienses.

 

Em 1963, Vicente foi recusado para expor na Bienal de São Paulo, aos 64 anos de idade, quando era artista mais do que consagrado, além de haver participado, desde os 14 anos, do célebre Salon des Indépendants, da Semana de Arte Moderna de 1922 e tinha curriculum tão importante que incluía quadros adquiridos pelo Museu Jeu de Paume de Paris, hoje expostos no Centro Georges Pompidou.

 

A recusa comprova que o pernambucano não aprendia com o passado, insistia numa escola ideológica ultrapassada e, por isso, não mudava o seu futuro no Brasil. São esses os motivos de sua ausência na lista dos artistas escolhidos para o Prêmio de Viagem ao Exterior, garantido pelo Salão Nacional. Qualidade nunca lhe faltou para recebê-lo. Vicente ganhou, ao longo de sua vida, apenas dois prêmios estaduais de pintura em concursos secundários. Morto em 1970, é hora de esquecermos a sua ideologia e louvá-lo naquilo que teve de melhor: pintor e poeta.

 

Como pintor Vicente começa cedo, incentivado pela mãe e trilhando o caminho natural dos talentosos: o aprendizado da técnica do desenho aprimorado, a simplicidade do traço até chegar à segurança de, com três ou quatro linhas, sugerir uma figura humana; pintura de retratos, paisagens, naturezas-mortas e abstratos. É possível que Rego Monteiro seja o mais original dos pintores brasileiros, cujo ingresso definitivo na pintura ocorre em 1922, aos vinte e três anos de idade. Nessa ocasião, assimila o cubismo e o adiciona ao barroco colonial, representado pela quase permanente simetria de suas composições, resultando numa extraordinária forma, surgida através dos matizes inspirados na arte indígena e na cerâmica marajoara. Todo este conjunto de detalhes formou o belo, estranho e misterioso escorço nas composições equilibradas, provocador de imediata paixão pictórica, um presente para as retinas. Sua técnica apuradíssima resultava também em trabalhos imaculados, tão marcante era a sua limpeza. Mas não é somente a forma que encanta o espectador. Com frequência seus quadros representam temas religiosos, e apenas Raimundo de Oliveira ganha dele neste conteúdo: são cenas bíblicas, crucificações, via sacra, santa céia, animais e muitas figuras humanas. Surpreendentemente para um monarquista, há uma preocupação social quando pinta operários, vaqueiros e pessoas em trabalhos duros e humildes, calceteiros, cambiteiros, carroceiros ou aguardenteiros.

 

Em lúcida síntese, Flávio de Aquino escreveu que “Vicente do Rego Monteiro criou um estilo inconfundível e coerente, partindo de três influências principais: a arte indígena de Marajó, a art déco e o cubismo estilizado, com certa semelhança ao de Léger”.

 

Vale dizer, sua arte soube conciliar a plasticidade, a harmonia e o lirismo da forma, adquiridos pela experiência francesa com o ritmo inspirado na primitiva decoração indígena, que ele tão profundamente estudou.

 

Na década de 1960, seu atelier foi invadido por extremistas em Brasília e, com dificuldades financeiras pinta e expõe a sua confissão autobiográfica na tela “Solidão”, sentimento ou estado de quem havia percorrido um caminho brilhante e se sentia isolado frente a um país cujos compatriotas ainda o desvalorizavam.

 

Suas poesias foram escritas na maturidade da vida e lhe serviram como um temporário descanso da pintura, tornando-se um refúgio intelectual do artista. Ganhou os prêmios de poesia Mandat des Poètes, em 1955 e o “Guillaume Apollinaire”, em 1960, ambos na França, país que nunca lhe perguntou pelas suas preferências políticas. A análise delas pode ser comprovada no belo livro Vicente do Rego Monteiro, um brasileiro da França (Editora Mackenzie, 2004) no qual a escritora paulista Maria Luiza Guarnieri Atik expõe com delicadeza e sensibilidade a beleza de seus versos.

 

Mas não foram essas suas únicas atividades. Vicente foi figurinista, jornalista, diagramador, costureiro, mecânico e piloto de corridas automobilísticas, dançarino, editor, tipógrafo, fazendeiro e tradutor. Foi casado com francesa e teve mansão em Montparnasse, mas quando morou em Recife, durante a Segunda Guerra Mundial, negligenciou as leis do país que o adotara e não pagou os impostos da bela residência, obrigação cumprida pelo inquilino parisiense. Terminada a guerra, este reivindicou e conseguiu na justiça a posse da propriedade, pagando uma ninharia como indenização para o casal.

 

Artistas, poetas, escritores ou intelectuais talentosos de direita sempre foram incômodos porque sabemos que o que é bom fica e, respaldo pelo radicalismo político que um dia termina, chega o momento em que a inevitável pergunta, contida no título do livro de Affonso Romano de Sant´Anna sobre o poeta e também direitista, é feita: O que fazer com Erza Pound? Parafraseando o poeta brasileiro, nascido em Minas Gerais, o que fazer com Rego Monteiro? No caso do pernambucano é a hora em que ante tanta misteriosa beleza e originalidade de suas obras a resposta é: garantir-lhe a imortalidade.

 

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Carlos Perktold é psicanalista. Reside em Belo Horizonte. Integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA). Integra ainda o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG).

E-mail: perktold@terra.com.br