“A arte é uma forma de comunicação emocional onde o criador comunica aos demais os sentimentos que ele próprio experimentou. Se não existe essa comunicação, não existe arte”

Tolstoi O Que é Arte?

 

É possível avaliar a conduta de um profissional do mercado por sua capacidade de reconhecer a importância de um artista, mesmo que este não faça parte do que habitualmente é o seu território de ação. Ao firmar com a Galeria Ricardo Camargo parceria para a realização da mostra de Ranchinho o ecletismo lúcido que tem caracterizado sua atuação acabou por ser decisivo.

 

Ranchinho é o codinome de Sebastião Teodoro Paulino da Silva, nascido em Oscar Bressane em 1923 e falecido em Assis em 2003, poucos meses antes de completar 80 anos. Oligofrênico e deficiente físico, analfabeto e além de tudo exibicionista sexual, Ranchinho teve uma vida penosa, uma saga tocante de superação. Grande parte dela decorreu em absoluta solidão e em condições de extrema pobreza. Sobrevivia de pequenos favores e do comércio de descartes achados pelas ruas, ou do auxílio de pessoas compadecidas de sua situação. Manquitola e afásico, costumava perambular empurrando uma carriola na qual acumulava materiais rejeitados e os armazenava num rancho abandonado — daí seu apelido – onde, desprovido de luz e de água, se abrigava. Órfão de pai logo ao nascer e depois, ainda na infância, de mãe, criou-se nas ruas, livre, em constante movimento e causando medo a muitas mocinhas da cidade, a quem exibia suas partes intimas. Acompanhava todos os enterros e quando não era escorraçado, comparecia a batizados e casamentos. Sofreu agressões, foi parar na cadeia e era o bufão, o bobinho da cidade. Mas Ranchinho sabia desenhar e o fazia com compulsão e constância. Há testemunhos de que à noite, quando se recolhia, trazia papéis, caixas e embalagens e à luz do lampião de querosene, em meio a uma indescritível desordem, desenhava. Presenteados às pessoas com quem tinha contato, esses desenhos chamaram a atenção do corretor de seguros Nazareno Mimessi, que passou a apoiá-lo fornecendo cadernos e convencendo pessoas sobre o talento desse potencial artista. Quando uma vez Nazareno teve ideia de lhe dar um estojo de guache, propiciando a única lição técnica que recebeu na vida, Ranchinho quase imediatamente se pôs a criar uma obra espantosa, de grande riqueza cromática e correção narrativa. Estava aberto o caminho para sua reintegração à família e logo granjear respeito, fazer exposições e em determinado momento passar a pintar em acrílico. Acabou por tornar-se a pessoa mais importante da cidade.

 

A meu ver Ranchinho é um caso tão extraordinário e profundo quanto o de Artur Bispo do Rosário. Ambos fizeram da invenção artística a maneira de se situar no mundo. Embora não conhecesse nenhum pintor, nunca ter pisado numa galeria ou num museu, nem ter tomado lições, Ranchinho se expressa porque tem necessidade de criar e se comunicar. Seu trabalho nos causa assombro pela força dramática e poética das imagens. Sentimo-nos de imediato invadidos pelo que George Steiner chama de “instantes milagrosos de iluminação e acuidade visionária”. Nenhum outro artista brasileiro, salvo José Antonio da Silva, fez uso de um repertório de imagens tão variado e exuberante como ele. Em cenas do cotidiano, corriqueiras, pelas quais passamos sem notar, Ranchinho percebe e nos revela a presença do sensível e do poético. A vida do campo, o trabalho, as crianças, são temas que seu olhar vê de maneira grandiosa. Sobretudo os animais. Ele os conhecia como ninguém, parecia ter uma convivência fraterna com eles. (Curioso notar que São Francisco é o padroeiro de Assis, onde Ranchinho viveu a vida inteira). Sua copiosa obra sobre o circo, outro assunto que o fascinava, não tem paralelo na arte brasileira.

 

É um artista muito identificado com o cinema e a fotografia. Cada quadro é como o fotograma de uma cena, em stop motion, na qual estamos inseridos, cientes do instante que a antecede e de sua sequência. A riqueza cromática e estilística revela um parentesco natural e espontâneo com os impressionistas e os nabis. Por vezes suas cenas oníricas têm certo viés expressionista. Mesmo quando aborda um tema sem personagens, há ali a uma humanidade intensa, tangível e subjacente.

 

Muitas pessoas ligam a obra de Ranchinho à de Van Gogh. Um professor de sua cidade chegou a chamá-lo de “o Van Gogh feliz”, referindo-se ao deslumbramento pelo mundo e pela vida, comum aos dois artistas, em que pese as diferenças de contexto e a dimensão de um e de outro. Ranchinho era um homem constantemente divertido. Quem o conheceu não esquece seu admirável humor, a teatralidade infantil com que se fingia de bêbado, imitava animais ou sacava um revólver imaginário e atirava primeiro.

 

Sonho ver o dia em que um grande Museu faça uma mostra abrangente de Ranchinho com um número expressivo de obras. Seria uma justa homenagem e uma constatação do que existe de mais refinado na arte figurativa brasileira de caráter espontâneo. Quem sabe este seja o prenuncio.

 

 

Cronologia:

1923 – nasce em Oscar Bressane, próximo da cidade de Assis, SP
1924 – morte do pai e mudança para Assis
1948 – tem seu primeiro emprego, como acionador de manivela de Seu João Garapeiro
1974 – realiza sua primeira exposição, sob a proteção de José Nazareno Mimessi, seu incentivador
1975/76 – realiza várias individuais no Clube Recreativo de Assis. Participa da 13ª Bienal de São Paulo
1978 – o músico A.C. Belotto produz um filme (desaparecido) sobre o artista em super-8
1978 – vende seus primeiros trabalhos em São Paulo ao antiquários Paulo Vasconcellos, José Claudino da Nóbrega e ao artista e marchand Antonio Maluf. Nesse mesmo ano a Galeria do Shopping News mostra pela primeira vez seus trabalhos ao público
1978 – Museo Nacional de Bellas Artes e Museo Carrillo Gil, Cidade do México, “Pintores Populares de Brasil”
1980 – Escolhido por Mario Schenberg, participa das mostras “Gente da Terra” e “10 Anos do Paço”, no Paço das Artes, Capital
1981 – “40 Artistas Primitivos”, Museu Guido Viaro, Curitiba, PR
1982 – “O Trabalho”, mostra temática no Museu da Casa Brasileira, e” O Desenho na Linguagem Primitiva”, no mesmo local
1986 – matéria na Revista Veja, de 30/7, “Rústico e Refinado”, de Rui Moreira Leite
1987 – individual no Museu do Sol, na cidade de Penápolis
1988 – “O Homem e a Terra”, Pinacoteca do Estado; “Mês da Pintura Ingênua”, Masp; individual na Galeria Paulo Vasconcellos, Capital
2000 – “Almeida Junior Revisitado”, Pinacoteca do Estado
2001 – “Forma e Cor”, Museu do Sol, Penápolis, SP; “Cultura Brasileira”, Casa das Rosas, SP; “Opera Aberta”, Casa das Rosas; “Mostra do Redescobrimento”, Módulo de Arte Popular
2003 – falecimento de Ranchinho
2005 – “O Prazer é Nosso”, Galeria Brasiliana, SP
2006 – “Viva Cultura Viva” Museu Afrobrasil, SP
2008 – lançamento do livro “O Van Gogh Feliz” de Oscar Dambrosio
2010 – lançamento do catálogo “A Arte Visionária de Ranchinho”
2011 – individual no Museu de Arte Primitiva de Assis
2016 – “Viva o Povo Brasileiro”, Centro Cultural Correios, Rio

 

 

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