A primeira vez que deparei com uma obra da artista Sil foi por meio de uma das fotos enviadas por Jerônimo Miranda, que na época fornecia trabalhos para a nossa galeria em São Paulo, e que volta e meia me apresentava alguma descoberta, fruto de seus constantes deslocamentos pelo interior de Alagoas. Era uma obra de bom porte, um casamento com convidados e o casal já no adro, recebendo os cumprimentos. Havia uma penca de outros artistas nas fotos enviadas, mas o que me impressionou mesmo foi a obra dessa moça, descrita pelo autor das imagens como “uma mulher jovem, da cidade de Capela, que havia surgido de repente no atelier coletivo sob a orientação de um conhecido ceramista local, João das Alagoas”. Fiquei fascinado. Ela era uma realista popular, umas das vertentes mais ricas da arte do povo. Não imitava ninguém, tinha uma figuração própria, captava a expressão de cada personagem, seus gestos e movimentos. Liguei imediatamente para saber o valor da obra e coincidentemente pouco depois, ao aceitar o convite para uma palestra em Recife, fui a Maceió e acabamos viajando para visitar a jovem autora.

 

Nunca tive dificuldade em reconhecer talentos examinando uma única obra. Lembro-me de uma crônica de Wilhelm Uhde, autor de um texto célebre sobre a obra dos naifs, que ele chamou de “os pintores do sagrado coração”. Uhde foi o primeiro comprador de um quadro do jovem e desconhecido Picasso, cuja genialidade ele percebeu no ato — e descobriu também, entre outros, a pintora Séraphine, uma simples faxineira, quando viu na casa de um amigo uma pequena natureza morta pintada por aquela solitária, humilde e inventiva senhora. Mas talento não é garantia de bons resultados na evolução de alguém que se ponha a trabalhar. É preciso também juntar ao talento uma personalidade artística forte. Ao visitar o atelier e apreciar outras obras de Sil, em andamento, conheci as condições precárias em que ela e seus companheiros trabalhavam, conversei com o mestre e por fim não me recordo por qual razão, acabamos passando pela casa onde a moça morava com a família, constituída por marido e filhos. A residência era minúscula, mas muito bem arranjada. E pude sentir como aquela figura de mulher, magrinha, analfabeta, segura de si, tinha uma vontade enorme de trabalhar, uma imaginação desenvolvida no decurso de uma vida tão difícil (parte dela carpindo cana, como tantas pessoas sem muita chance de subir na escala social). Era uma criatura desembaraçada, que não vacilava em aceitar encomendas e prazos e manifestava tal firmeza que logo ficou patente estar eu diante de alguém que podia ir longe.

 

Hoje, mais de uma década decorrida desse encontro, posso afirmar que meu vaticínio não foi em vão. Sil é, ao lado de Zezinha, de Buritis, no Jequitinhonha e Miguel dos Santos, em João Pessoa, no meu entender, o ponto culminante da cerâmica atual no Brasil. Recentemente a revi e pude constatar como, a despeito do reconhecimento de seu valor, ela estava imune ao vedetismo, plena de  confiança no próprio trabalho e orgulhosa do conforto que pode proporcionar à família, com seu grandioso fazer. Ela é o mais brilhante surgimento no cenário nacional no setor da cerâmica, em décadas, não tenho a menor dúvida. Havia chamado a atenção da curadora mexicana Candida Fernandez Aragón, do Banamex, quando foi escolhida como a obra que abria o catálogo da mostra “Grandes Maestros Populares de América Latina” que percorreu várias capitais, entre elas São Paulo.  Continua surpreendendo, como numa mostra recente de centenas de obras eruditas e populares, ocorrida no Museu Afrobrasil, com curadoria de Fabio Magalhães. A obra exponencial dessa mostra — saltava aos olhos — era uma cerâmica de Sil. Era tão flagrantemente acima de todas as outras que figurou na capa do catálogo.

 

 

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