“Silva é um artista tão importante quanto Volpi”. Esta afirmação de Theon Spanudis, respeitado crítico de arte ativo dos anos 60 à metade dos 85, causou espanto a muita gente, quando proferida. Ao mesmo tempo soou como indicação premonitória a um grupo de colecionadores, que se dispôs a mergulhar na obra do artista, seguir seu desenvolvimento e ter assim a ventura de formar um excelente acervo. Theon, psicanalista de profissão, de grande cultura filosófica e erudição, foi um dos responsáveis pela solidificação da carreira de Alfredo Volpi e acabou, ele próprio, por amealhar um bom número de Silvas, depois doados ao MAC.

 

Não foi a única vez que Silva caiu nas graças da crítica de arte. Antes das ponderações de Theon, já havia participado da Primeira Bienal e vendido 10 obras ao MASP. Quando apareceu, em 1946, sobraçando duas pinturas feitas de maneira precária para inscrever-se na mostra que inaugurava a Casa de Cultura de São José do Rio Preto, chamou a atenção da comitiva encarregada da premiação, onde pontificavam Lourival Gomes Machado e Paulo Mendes de Almeida, seguidores de Mario de Andrade, e, como ele, atentos às manifestações genuínas da identidade nacional. Silva levou o primeiro premio.

 

Nascido em  1909 em Sales de Oliveira, São Paulo, depois de trabalhar duramente nas lides do campo, ajudando a família, Silva mudou-se para Rio Preto, casou-se e exercia o oficio de garçom. Desde cedo, naquelas rudes frentes desbravadoras que se instalavam no remoto interior paulista, terra de bugre, manifestou gosto por desenhar. Interrogo-me sobre os rumos que guiariam sua vida se não recebesse logo de cara o reconhecimento e o incentivo de figuras maiúsculas do cenário cultural. Penso muitas vezes em quanta gente talentosa, como ele, procedente do estamento mais humilde da sociedade, surgida do nada, não teria abortado no nascedouro uma trajetória promissora, se um feliz acaso deixasse de colocar em seu caminho as pessoas certas no momento certo.

 

Dionisíaco, solar, panteísta, fauve, naif, são tantos os adjetivos que já foram usados, na tentativa de capturar a essência de sua obra, sobretudo a força vital que emana de seu conjunto, que me ocorre ser quase impossível situá-lo em alguma corrente específica da pintura, tal a riqueza, a densidade e o repertório de imagens que escapam a todas as classificações. Expressionista e popular, sua obra todavia transcende essas definições ao mostrar soluções e temas marcadamente pessoais, que o tornam também em certos momentos próximo do minimalismo, do construtivismo e por vezes até mesmo do abstracionismo, como suas queimadas. É um dos mais destemidos coloristas de nossa arte, com uma paleta variável, de flamantes tonalidades, sem contudo escapar minimamente a seu natural e apurado senso de medida. Se considerarmos que a predominância dos temas rurais e a fluidez como os maneja constituem o leitmotiv de seu percurso como pintor — e por essa razão o fazem ser visto como um artista popular — uma característica o distingue de praticamente todos os que se situam nessa categoria: a variabilidade de seu estilo. Diferentemente dos artistas autodidatas, JAS não produziu uma obra linear em sua carreira. No geral esses artistas desde o começo até o final de sua atividade conservam um estilo constante, com poucas variações, tirante as que o exercício e o tempo lapidam. Já o que comanda Silva é a ousadia, a inspiração extremada, a invenção, o arrebatamento.

 

Há um mito, para não dizer um preconceito, que equaciona a obra de muitos artistas espontâneos: o de que seus primeiros trabalhos são mais puros e autênticos. É preciso levar em consideração que um artista iniciante nem sempre pode dedicar-se por inteiro à atividade que irrompe em sua vida, às vezes de forma inesperada. Não é raro que ele tenha outra profissão e vai se firmando de maneira gradativa, dominando a técnica e a linguagem. Seu desempenho artístico, por isso, tem um ritmo de elaboração diferente, mais vagaroso e cheio de pormenores e cuidados. Com Silva não foi diferente. Seus primeiros trabalhos têm um caráter soturno, um pouco contido e não guardam muita referência com a explosão cromática e formal posterior. Em meados dos anos 50 sua paleta começou a transformar-se. Não fica claro se a mudança, que em seu caso veio com celeridade, está relacionada com acontecimentos auspiciosos na vida pessoal ou se fazem parte da evolução natural da atividade, que vai incorporando soluções, maturidade de composição, destreza e fruição. Esse crescimento é muito nítido na obra de Silva. E ele começa a trilhar caminhos novos que o colocam na trajetória de artistas de extração moderna. Ele inventou, por exemplo, uma forma de pontilhismo de pinceladas graudas, que é, para Theon, o ponto máximo de sua arte. Em determinado momento Silva passou a simbolizar as plantações de uma maneira tão simplificada, que elas viraram uma sucessão de retas radiais, partindo de suas indefectíveis montanhas em direção ao primeiro plano. Não sei se propriamente se possa falar em fases na pintura de Silva. Talvez seja mais correto falar em recorrências, seja em matéria de temas, em estilos ou mesmo em certas soluções, como as apresentadas em alguns trabalhos em que ele optou por determinada paleta, de forma arbitrária, corajosa e triunfante.

 

Seus retratos, e mais do que tudo os autorretratos, muitas vezes incluem palavras de ordem ou pensamentos. Boa parte deles são jactanciosos — assim como o Douanier Rousseau, que achava haver em seu tempo 2 grandes artistas, ele próprio e Picasso,  Silva pintou-se em pé de igualdade com o mestre catalão e incluíu na tela ninguém menos do que Van Gogh. Com frequência seus autorretratos são panfletários e derrisórios, feitos para exorcisar ofensas e omissões em episódios que o marcaram, como os que pintou para protestar contra o júri da quarta bienal, em que foi recusado, e onde o mesmo Lourival Gomes Machado, que o descobriu e chancelou, foi, a seu ver, o algoz. São abundantes igualmente os nus femininos, que ilustram sua fabulação pessoal, sua legendária e priápica vida amorosa.

 

Esse fecundo criador, desconcertante em muitas de suas abordagens, pelos temas e as soluções plásticas, não se limitou apenas à pintura, embora esta seja sua contribuição mais decisiva e ininterrupta. Silva possuía um talento multifacetado que o levou a escrever uma autobiografia, e narrativas pessoais numa linguagem meio caipira, saborosa e evocativa. Do pequeno tesouro de suas experiências tirou temas inesgotáveis que alimentaram e amplificaram sua arte.

 

Hoje seria classificado como um superdotado. Uma força da natureza. Recordo-me de um episódio ocorrido no inicio dos anos 80, quando realizei uma mostra de um artista espontâneo mineiro chamado José Coimbra, que 3 décadas antes havia morado por uns tempos em São José do Rio Preto e conheceu Silva, de quem inclusive recebeu algumas instruções técnicas sobre a arte de pintar. Silva, trazido pelo Jornalista Luiz Ernesto Kawall, entrou na sala de exposições e começou a recitar de improviso versos perfeitamente encadeados, abundantes e certeiros, sobre o pintor e sua obra. Os presentes ficaram perplexos e encantados com sua demonstração. Só depois de vários minutos em que durou o recital é que cumprimentou o amigo e abraçado a ele, olhou os quadros.

 

Em São José do Rio Preto há um museu que leva seu nome, onde os numerosos trabalhos ilustram enfaticamente as razões que induziram Theon a fazer aquela afirmação. E nos levam a pensar se ele, por ser grego, não tinha alguma coisa de oráculo.

 

 

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