Desde sempre, tudo que tem valor tem sido falsificado ou adulterado com o objetivo de obter proveitos econômicos. Chineses costuravam a parte superior de macacos a partes inferiores de um tipo de peixe peludo e ofereciam aos primeiros ocidentais que à China chegaram como prova da existência de sereias. Cabecinhas de macacos curtidas por meios vários foram oferecidas a curiosos, que visitavam a América do Sul no séc. XX, como exemplos de cabeças humanas encolhidas pelos temíveis índios jivaros. Diários “humanitários” de Hitler foram falsificados por um pilantra chamado Konrad Kujau. Modernamente grandes marcas e seus produtos são alvo constantes dos falsificadores: Rolex, Hermès, Cartier, Burberry, Nike, Prada, Viagra(!)… Enfim, tudo! Tudo que tenha valor é potencial alvo de falsificadores, inclusive e óbvio a melhor e mais cobiçada de todas as mercadorias: dinheiro. Há até quem diga que Michelangelo fez fortuna falsificando esculturas da antiguidade. E também há quem diga que nos melhores museus do mundo há falsificações.

 

A falsificação sempre foi e segue sendo uma grande indústria. Ironia à parte, quem lida com marketing diz que se seu produto é falsificado, você tem um problema. Mas se ele não é falsificado você tem um problema muito maior. Pois significa que ninguém o quer!

 

Assim é no mundo do antiquariato. Tudo pode ser verdadeiro, ou falso. Obviamente não será possível realizar aqui neste pequeno espaço um tratado das falsificações, com todas as hipóteses factíveis e respectivas ilustrações. Mas podemos e faremos a seguir alguns apontamentos gerais para um alerta, dirigido aos interessados em iniciar seu passeio no mundo do antiquariato. Desde já indicamos a leitura de nossos textos neste blog ( Colecionar Antiguidades: Dois Dedos de Prosa… e Leilões e Leilões Virtuais… ). Neles irá encontrará algumas dicas que julgamos úteis.

 

Eis, por itens, problemas e questões básicas de incidência mais comuns que desafiarão qualquer iniciando interessado em antiguidades. Esteja atento a elas:

 

1) Arte Sacra ( imaginária ).

Segure a peça. As de madeira em geral são de cedro e após, digamos, dois séculos estão muito secas e leves. Imagem pesada, não é algo comum! Provavelmente não é antiga. A policromia original ( prefira sempre com ) não é solúvel em derivados de petróleo. Odores de tinta podem indicar uma repintura ou restauros recentes. Observe se detalhes tais como membros, mãos e pés, guardam proporção e identidade com o restante da peça. Se negativo podem se tratar de reposições. Há imagens falsas, muitas mesmo(!), feitas num pantógrafo a partir de exemplares originais e depois pintadas à moda antiga e envelhecidas. Algumas são identificáveis à primeira vista por quem tem o olhar treinado, outras suscitam dúvidas. Na dúvida já sabe… Corra!

 

2) Cristais

Diferentemente do cristal de rocha, o que denominamos apenas como cristal nada mais é do que vidro industrial de alta qualidade, transparência e densidade, obtido através da adição à massa vítrea (durante a fabricação) de variados sais metálicos e em especial, neste caso, o óxido de chumbo (Pb3O4) num teor que pode variar de 10% a 25%. Abaixo mas próximo de 10% se diz demi cristal. Muito abaixo disto é vidro comum.

É algo muito difícil de falsificar, e até existem falsificações mas os casos mais comuns serão: Antigas maçanetas quebradas na base lapidadas para parecerem pesos de papel ( principalmente as que têm flores no interior ), bicados em copos, garrafas, pratos e compoteiras são lapidados e polidos para desaparecerem, fraturas em gargalos e desbeiçados na boca de vasos e garrafas são ocultos com acabamentos em metal ou prata. Tudo isto sempre se nota se observarmos com atenção. Estas interferências nunca têm a mesma qualidade do restante da peça.

 

3) Marfim

Marfim é o de elefante e de mamute. Também se diz marfim de morsa, de foca, de narval e de cachalote para as presas destes animais. Mas quando se diz apenas marfim, entende-se que seja de um paquiderme. Ao exame visual o marfim apresenta uma estrutura geométrica em losangos, sempre na mesma direção. É inconfundível. Não se observando isto, pode ser qualquer outra coisa: osso, presa de outro animal. Ou então: resina, baquelite, marfinite e o que mais de sintético inventarem. As matérias sintéticas, ditas inorgânicas, resinosas ou plásticas não resistem ao teste do alfinete quente. Aquecendo-se um alfinete e forçando-o ele penetra e marca a peça. Isto não ocorre com material orgânico.

 

Atenção. Em muitos países, objetos de marfim são proibidos e tê-los pode implicar em seríssimos problemas jurídicos e até privação de liberdade em terras estrangeiras. Então se você pretende numa viagem comprar em trânsito alguma peça de marfim, antes verifique se por onde você vai passar após a compra não será um destes casos.

 

4) Mármore

Seja de que origem e cor for, uniforme ou rajado, com ou sem inclusões fósseis ou de outros minerais, tenha sempre em mente que mármore é uma rocha ( metamórfica ) e como tal é fria ao toque, como toda rocha, todo mineral! Existem materiais de aspecto marmóreo e feitos para iludir o observador, dentre eles o mais comum é o marmorite. São compostos de uma pasta uniforme a partir do pó de mármore aglutinada através da adição de uma substância adesiva e após a secagem apresentam aspecto muito similar. Mas não têm como característica serem frias ao toque como o verdadeiro mármore. Toque a peça!

 

5) Moedas

Há moedas desde a antiguidade e as possibilidades temáticas são muitas. Inclusive colecionar moedas falsas de época. Sim, acredite, há quem se dedique a colecionar antigas falsificações!

Como se sabe as moedas são cunhadas. Batidas ou prensadas na origem. Mas o método de falsificação mais comum é o de fundição. O falsificador servindo-se de um modelo original faz um molde e nele insere a liga de metal fundido ( cobre, prata ouro, etc… ), mas isto deixa rastros. Se for uma cópia fundida com uma lupa pode-se ver na sua superfície pequenas bolhas. Também haverá uma diferença de peso, pois a tendência na moldagem é a cópia ser menor do que a original. A checagem se faz com uma balança de ourives. Há modernamente máquinas de injeção sob pressão que tendem a não deixar bolhas na superfície das cópias, mas ao observar a serrilha em toda sua volta encontrará dois pontos de interrupção diametralmente opostos; o ponto de entrada e o de saída do metal em fusão. Até tentam dar uns “retoques”, mas se percebe a imperfeição com a mesma lupa.

Também há habilidosos que conseguem elaborar “bons” cunhos dos quais saem cópias muito próximas de uma peça original, mas se você tiver uma moeda original em mãos para comparar, ou pelo menos uma boa ilustração, identificará a vigarice.

 

6) Mobiliário

Das coisas mais difíceis é identificar móveis falsos. É preciso conhecer os estilos, a linguagem de cada um destes, as madeiras empregues, as soluções da marcenaria de cada época, treinar o olhar para identificar as pátinas do tempo e tudo isto considerando as diferentes origens e épocas. Como estamos no Brasil e sem dúvida é o nosso mobiliário colonial o de maior interesse, remeto o leitor para um texto constante deste blog intitulado “Uma coleção do mobiliário brasileiro do Séc. XVIII”. Ali encontrará as primeiras linhas que o orientarão.

 

7) Porcelana

Aqui é virtualmente impossível falar de falsificações em se tratando de porcelana. Entre porcelana ocidental e oriental, o universo é vastíssimo!

O que me parece mais factível e útil é lançar um alerta sobre restauros. Desde já quero consignar que a ideia de restauro em porcelana é algo eufemística. Restaurar porcelana na verdade se resume a colar as partes fragmentadas e ocultar este defeito ( e também rachaduras ) através de uma pintura. Ou seja, porcelana restaurada é porcelana quebrada e colada! Isto tanto pode afetar ( até tremendamente ) o valor da peça, quanto fazer com que já não valha nada. Tudo a depender da raridade da peça e das dimensões do dano que tenha sofrido.

Contudo o problema antecede o quantum afetado pelo defeito. O problema é identificar o restauro, pois nem sempre ele será mencionado. Seja por desconhecimento, seja por má-fé. Restauros antigos costumam mudar de cor. Um exame visual preliminar basta. Mas um restauro mais recente que não se veja desde logo se identifica com uma lanterna forte. Vá a um canto pouco iluminado e posicione a lanterna no lado oposto ao visualizado. Passeie com ela por toda a peça, Se houver rachaduras ( ditas “fios de cabelo” ) ou partes coladas você vai enxergá-las. Na falta de uma lanterna passe uma chave ( ou qualquer objeto metálico ) pela peça. Na superfície original a chave desliza suave e continuamente. Onde houver restauro sente-se uma ligeira retenção. E se forçar a mão o restauro começará a descascar! Dê também uns petelecos de leve. A peça íntegra “canta”. A restaurada tem um som meio “choco”.

Também convém verificar se as partes “casam” bem. Por vezes, como por exemplo numa sopeira, as partes vieram de outros conjuntos. Nestes casos e outros como tais, o encaixe não é perfeito e ou a decoração apresenta divergência nas cores, na execução de pinturas ou nos temas. Será uma peça para rejeitar.

 

8) Pratas

Também constitui universo vastíssimo! Existem as pratas estrangeiras e as nacionais.

O problema com a prataria brasileira começa com as não marcadas. Só com muita experiência o interessado saberá distinguir as peças não marcadas ( muito comuns nos períodos colonial e imperial ) das cópias. Mesmo as pratas marcadas podem ter contrastes falsos. Comumente chamados “pseudos”. A falta de marcas e marcas falsas tanto podem indicar uma peça de época, elaborada e não marcada com vistas a evasão fiscal, como efetivamente uma falsificação de prata cujo teor é muito baixo, ou, ainda pior, uma peça que nem seja de prata ( muito frequente nas ditas pencas baianas ).

Por partes. Se a peça não tem marcas você pode pelo menos verificar se é de prata. Para isto basta adquirir nas casas do ramo a chamada pedra de toque e um vidrinho de ácido reagente. Friccione a peça na pedra ( escolha uma parte não visível, como por exemplo a de baixo ) e sobre o resultado da fricção pingue o ácido: se ferver e o resultado for branco é boa prata ( 800 a 925 ), se ficar escuro é prata baixa, se ficar verde não é prata.

A antiga prataria brasileira e portuguesa marcada apresenta a marca do prateiro (  suas iniciais dentro de uma reserva geométrica ), um escavado em ziguezague que os nossos irmãos de além-mar chamam de “bicha” e a marca do ensaiador que atestou a qualidade da prata ( um símbolo que varia conforme a localidade ). Para uma identificação destas marcas indicamos de Fernando Moitinho de Almeida “Marcas de Pratas Portuguesas e Brasileiras”, ( Séc. XV a 1887 ), Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Obra infelizmente esgotada, mas que pode ser encontrada em sebos, leilões ou simplesmente fotocopiada de um original.

Pratas de outras procedências, tais como inglesas, francesas, Russas e etc, seguem a mesma sistemática e há obras que permitem identificá-las.

 

Atenção. Alpaca não é prata e sequer leva prata em sua liga. Também conhecida como “prata alemã” ou metal branco, a alpaca é uma liga de cobre, níquel e zinco. Foi muito popular e usada na Região do Prata pelos gaúchos para confeccionar bridões, esporas, estribos, guiacas, enfeites de selas e de arreios, cabos de rebenque, cabos e bainhas de facas.

 

As falsificações mais frequentes de peças brasileiras em prata são:

 

1- Pencas de Baiana. São tantas falsas que logo se percebem pela constância dos mesmos modelos dos berloques e grosseira fundição da chave ou galeria.

 

2- Cocos ( ou cuités ). Também são muitos os falsos. Os mais gritantes tem superfícies exageradamente decoradas com batidos e repuxados grosseiros.

 

3- Guampas. Os copos de prata foram muito comuns ao longo do período colonial e se prestam muito bem à montagem de guampas. Em geral as guampas tem um fundo reforçado para assegurar que não se rompam ao bater no fundo do poço. Nas montagens o copo não apresenta este reforço, o aro, por vezes, recobre uma decoração anterior e original na borda do copo, o ajuste é ruim e sendo cópia as decorações e alças repetem-se muito.

 

4- Farinheiras. As farinheiras são muito difíceis de falsificar, mas nem por isso são poucas as falsas. Valem muito, quando boas! As originais tem uma espessura bem reduzida de modo a fazê-las flexíveis. Destarte uma farinheira de paredes espessas e dura já apresenta um indício de que a peça é falsa. Além disso as cópias em geral são feitas em metades ( superior e inferior ) e depois unidas com solda ao longo da linha de cintura. Examinando-se com atenção é possível visualizar a  emenda.

 

5- Paliteiros. Estes são os campeões da falsificação! Nem tanto pelo valor, mas pela facilidade com que são copiáveis. Os originais em geral são fundidos e as cópias também são o resultado de fusões feitas em moldes tirados dos originais. Ocorre que como houve uma verdadeira indústria de falsificação de paliteiros, a partir de dado momento fizeram-se moldes de cópias que já derivavam de outras cópias e os resultados finais vão se degradando, resultando cada vez mais em objetos grotescos, nos quais as figuras centrais são absolutamente disformes e por vezes até risíveis. Quanto maiores as deformidades maiores as chances de serem falsos.

 

9) Quadros

Vá ao nosso já mencionado texto sobre leilões virtuais. No corpo do texto está o básico sobre o tema (Leilões e Leilões Virtuais: lançar pela Internet, quadros e cuidados na hora da compra).

 

10) Tapetes

Tapetes antigos sofreram muito. Tecidos em tear de mão com fibras animais, tingidos com pigmentos naturais e pisados por cem ou duzentos anos, temos que reconhecer; são raros os verdadeiros heróis que sobreviveram íntegros a isto e aos maus-tratos em geral.

Primeiro observe se não está podre. Tapetes que nunca ou poucas vezes foram lavados, ou que estiveram em ambientes muito úmidos ou sujeitos a  xixi de cachorros e gatos tendem a apodrecer. Dobre e aperte entre os dedos. Se estalar está podre. Depois verifique se não está careca. O tapete tem uma estrutura básica em trama e nesta estão os nós com os quais o desenho é composto. Tapetes que fora muito varridos e aspirados ficam raspados, carecas, e expõem a trama. Cuidado porque há espertinhos que onde existem falhas pintam a trama para parecer que está tudo íntegro. Na sequência veja se não tem manchas e se está completo. As barras estão presentes nas laterais e extremidades? Como em geral eles se desfazem pelas bordas é comum nas laterais serem aparados e receberem um novo cordão e nas extremidades serem desfiados para parecerem uniformes. As franjas tem de ser uma extensão da trama e não um aplique. Também acontece de apresentarem remendos e costuras que os fazem enrugarem, e até mesmo encurtamentos através de recortes e emendas. Qualquer tapete que tenha tais defeitos deve ser rejeitado.

 

 

Um recado final: Transitando no labirinto.

Para você que está realmente interessado em mergulhar neste universo das antiguidades, provavelmente falei pouco. Se assim o é significa que você pegou o “vírus” e lamento informar; não tem cura! Uma vez entrando no mágico e infinito universo das antiguidades não há porta de saída e o que se quer é sempre saber mais e mais, ver mais e mais e em alguns casos ter mais e mais. Aliás… Cuidado com as finanças, não se prejudique nem prive sua família. Se você for casado(a) entre em entendimentos com a “cara metade”. Não vale a pena meter-se nisto e ter por isto uma vida de conflitos.

 

É uma viagem sem volta. Comecei ainda garoto e chegando perto dos meus sessenta anos ainda não conheci ninguém que tenha saído deste labirinto. É um meio que vai abrir janelas na sua mente, mudar a sua maneira de ver as coisas e o mundo, desenvolver a sua percepção e compreensão, sua razão, sua sensibilidade e te levará prazerosamente a estudar.

 

Você irá, e será necessário, buscar livros, consultar a internet, conhecer coleções, frequentar leilões, antiquários, museus e ainda ter a oportunidade de fazer novos e bons amigos com quem terá algo em comum e que vão te ajudar nesta “viagem”.

 

Só não se engane. Sim. Não se engane. Ninguém nos engana. Somos nós que nos enganamos quando deixamos que nos enganem.

 

 

Luiz Felipe Bruno Lobo