O mês de junho de 1962 foi difícil para Geraldo Andrada, chefe do Cerimonial do Palácio da Liberdade, no governo de Magalhães Pinto, em Minas. Seu velho amigo, Alberto da Veiga Guignard, um dos maiores artistas brasileiros do século XX, teve novo surto diabético e estava internado no Hospital São Lucas, Em Belo Horizonte. Cabia a ele dar duplo amparo ao pintor, que estava aqui desde 1944 a convite de JK: pessoal, por dever de mútua amizade, e oficial por recomendação do governador. Guignard ter alterações diabéticas não era novidade entre seus amigos e seus médicos, Drs. Manoel Borrotchin e Santiago Americano Freire. Ele mantinha cuidados com sua saúde mas, às vezes, perdia o controle e comia uma quantidade exagerada de arroz doce, sua grande paixão culinária, que, adicionado à asteriosclerose e ao alcoolismo, o devoravam aos poucos. Pensava-se, então, que seria apenas uma crise e esta, por definição, passageira. Mas não foi assim e uma semana depois de sua internação, falecia por deficiência cardiorrespiratória o artista que se imortalizou nas telas de uma Ouro Preto que se confundia com sua pessoa, tão grande era a intimidade entre eles.

 

Passados os momentos difíceis da perda dolorosa, todo o Cerimonial se movimenta para receber na capela do Palácio da Liberdade o corpo do artista querido. Findas as exéquias, o mestre é levado para Ouro Preto, por sua própria escolha. Com sua morte, começa uma trajetória de valorização de sua obra que ele imaginava ocorrer apenas em 2062, cem anos após seu desaparecimento.

 

Alberto da Veiga Guignard não é somente o nome de um artista insubstituível. É o primeiro verso de uma saga pessoal ainda não escrita. Ela começa em 25 de fevereiro de 1896, em Nova Friburgo (RJ), onde nasce o menino com defeito congênito e termina com a morte do artista no dia 26 de junho de 1962, O lábio leporino dificulta a ingestão de alimentos e a respiração do infante, causando profunda angústia na jovem mãe. Ela, impotente, via a dificuldade do filho em aprender a se alimentar para sobreviver. Essa deformidade marca sua forma de se colocar no mundo para sempre.

 

Filhos com defeitos congênitos aprendem a ser ver e o horror que causam através do olhar materno, que funciona como um espelho para o infante. É provável que Dona Leonor tenha demorado algum tempo para elaborar no seu psiquismo o defeito do filho, a aceita-lo e a amá-lo. Seria desumano exigir dela uma atitude diferente porque, no imaginário de todos os pais, os filhos nascem saudáveis e perfeitos. Desumano, também, seria exigir do filho que não se sentisse no mundo como um convidado inadequado em função de sua diferença. O mundo pregou-lhe uma peça, fazendo-o sofredor de algo que o fez desigual para sempre. Ele sente a falta, o vazio na alma, que é sublimado para a pintura, tão logo ele pode executá-la e entendem-no como jovem talentoso. Se a natureza não lhe deu a capacidade de respirar e deglutir como os outros, compensou-o com a habilidade para olhar e ver, como artista, a natureza, a paisagem, as cidades e as pessoas. Essa habilidade é o tempero necessário para desenvolver a dádiva recebida dos deuses para desenhar e pintar.

 

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Com dificuldades financeiras, o pai morre num “acidente” com arma de fogo, quando Alberto era ainda muito jovem. Angustiante é a vida de filhos de pai suicida. Este episódio abre um vácuo emocional na vida deles, impossível de ser coberto. E é com o peso da dupla carga emocional do problema congênito e da morte do pai em circunstâncias tão trágicas, que nosso mestre segue para a Europa com a mãe e o detestado padrasto. Lá, este liquida com o que restava do dinheiro da viúva, a mostrar como o mundo poderia ser irônico: Guignard passada da experiência de pai morto por dificuldades financeiras e, em seguida, a de ter padrasto perdulário. O dinheiro é, desde sempre, uma dificuldade a mais deste viajante da vida com bagagem cheia de falta, ausência e vácuo. O restante de sua permanência na Europa ainda precisa melhor descoberto e relatado, mas sabe-se por biografias dele, escritas por Frederico Morais, Lélia Coelho Frota, Ivone Luiza Vieira e por depoimentos de amigos, que o mestre viveu em Munique, onde, com disciplina germânica, aprendeu as técnicas do desenho e da pintura. Ali expôs pela primeira vez. Roma e Florença foram suas amantes de sempre. Paris foi outra presença amiga onde dividiu quarto com Fernand Léger de quem recebeu, com dedicatória, dois óleos lindos pertencentes ao acervo de conhecida coleção belo-horizontina. Tudo isso, antes de se mudar de vez para o Brasil.

 

Guignard vai sentir ao longo da vida outra falta: a de constituir sua família. A tentativa de existência dela começa com seu casamento de curta duração com Ana Döring e continua com amores mineiros como Amalita e Celina Ferreira. Conta a lenda que ele foi abandonado pela mulher meses depois do casamento com o casal ainda em lua de mel. Ela, musicista, não deve ter suportado a voz com pouca sonoridade do marido e a constante dificuldade ele para se alimentar. Mesmo abandonado, ele sente a fundo a morte dela, anos depois. É possível que os deuses tenham feito um acordo com ele: enquanto mortal terás uma vida difícil: depois de morto, serás imortal.

 

Pode-se levar um tempo enorme nas intermináveis pesquisas sobre sua biografia; o resultado delas será a descoberta do mesmo mistério que se repete em suas obras. Nestas, é o enigma interminável que procuramos decifrar cada vez que miramos seus quadros, na esperança de que, dessa vez, o solucionaremos. Inútil, esperamos uma resposta da tela, quando ela apenas faz a pergunta, a demonstrar que a resposta está na sensibilidade de cada um. É um jogo de espelho sedutor e de intrigante lirismo. Sua pintura contém a influência do pintor Dufy, a quem ele considerava seu mestre. Dele herdou a coragem do uso das cores e do pincel fino, privilégio de quem conhece a técnica do desenho. Desenvolveu a transparência, sua marca registrada, e a deixou como parte de seu legado intelectual a um grupo de alunos que se utilizam dela até hoje: Yara Tupynambá, Sará Ávila e Maria Helena Andrés. Tinha anda a singularidade do estilo inconfundível do desenho, feito com lápis de grafite duro.

 

Ouro Preto, uma constante em sua obra a partir de 1944, marca-o para sempre. Ambos têm a sorte de terem se encontrado várias vezes do seu alto, em frias manhãs cheias de névoas que vão, aos poucos e em frente a seus olhos, despindo-se pela diluição, expondo a beleza de suas montanhas, casas e igrejas que surgem como se flutuassem no espaço mágico. A cena é eletrizante e a paixão, fulminante. Guignard cai de amores pela cidade e pela sua suave luz, a qual, refletida pelas montanhas, reverencia o barroco puro. E ela, reconhecendo a grandeza dele, aceita, cheia de gratidão, aquele que estava a seus pés e que mostraria sua beleza ao mundo, acolhendo-o para sempre. Ela se entrega e ele torna-se seu dono.  Guignard pinta suas “imaginantes” ou “imaginárias’ paisagens de Ouro Preto, como as chamou Lélia Frota, hoje, uma consagrada referência poética. Mas não se imagine que essas paisagens surgiram de sua fantasia de artista. Elas estão lá nesse momento, concretas, objetivas e esperançosas como uma adolescente apaixonada, esperando pela volta do poeta que as imortalizou, no mesmo local onde, um dia, se conheceram e se amaram. Se o leitor tiver a paciência de um fantasma, poderá fica de tocaia no lugar onde ele pintava e presenciar, numa dessas arrefecidas madrugadas de inverno, o idílio entre o velho artista que volta, flutuando numa nuvem de sua paisagens sopradas por Zéfiro e emoldurado por guirlandas de querubins, para a repetição do encontro imortal entre o gênio e a natureza.

 

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Seus retratos, um tema que merece teses de doutorado, são um capítulo à parte de sua carreira. A força e a comovente simplicidade deles podem ser comprovadas no retrato do garoto Rodrigo Assunção Gontijo. Conhecedor das dificuldades técnicas do desenho, da qual era um mestre absoluto, tinha consciência de que o retrato “era a arte mais difícil”. É nele que o artista se projeta e convence o público do seu talento. É o Midas moderno que , tocando, vira esplendor, ternura, arte e brilhava até mesmo nas encomendas dos retratos objetivos.  Naqueles subjetivos, como o retrato de Geraldo Andrada (O Príncipe Orsini), demonstrou toda sua feição de amigo e o talento de artista definitivo, fazendo dele uma iconografia de sua pintura. Naquelas de meninas ou de mulheres adultas, mostra como era galante associando-as às flores colocadas nos cabelos ou na roupa, como se elas, sendo mensageiras de sua posteridade, devessem se lembrar de que, para ele, elas seriam sempre “minhas flores”. Fazia algumas exceções. No retrato de Celina Ferreira pintou o Parque Municipal de Belo Horizonte no fundo da tela, como se dissesse que dela, ele esperava mais que ser uma flor na vida dele. Deixava em cada tela apenas uma leve camada de tinta, suficiente para mostrar a grande do artista e tudo que ele queria dizer do modelo. Nos retratos de crianças, fazia questão de retratá-las com a simplicidade do infante que sabe pouco do mundo. Pinta-as com olhos ingênuos, de quem imagina ser o mundo apenas o o que é visto objetivamente, projetando num jogo de espelho entre modelo e artista.

 

Sara Ávila se lembra da recomendação fundamental do professor Guignard a seus alunos nas aulas de desenho: “Aprendam a ver, procurem tatear o objeto e a paisagem com os olhos, usem todos os seus sentidos, muita tenção nas linhas.”. Chama a atenção de todos para os detalhes de cada coisa, demonstrando como o somatório deles faz o conjunto brilhar, marcando, em si mesmos, a presença de Deus. Lições simples são difíceis de ser elaboradas, porque há uma condensação de ensinamentos que requer experiência, pertinácia e muito trabalho para ser compreendida e aproveitada. Apenas com a lenta elaboração do conteúdo de cada lição, adicionada à maturidade pessoal, entende-se a dimensão das palavras de lentes inesquecíveis. O ensino maior do professor Guignard foi a liberdade de deixar criar. Ele acreditava que,  se os alunos são talentosos e aprendem as técnicas do desenho, da pintura e da aquarela, serão reconhecidos e valorizados.

 

Guignard foi um mestre altruísta, privilégio de professor sem medo de concorrência futura, por isso nunca escondeu conhecimento. Os alunos de mestres com esse perfil ganham ainda mais quando se colocam em lugares de humildade, reconhecendo que, sem ela, não há aprendizagem. Ser aluno deles é estar preparado para recebê-los como mensageiros dos deuses. Se o aluno percebe a dimensão do que é ensinado e da importância do lente, aprende a desenvolver o olhar e a ver com seus olhos aquilo que o mestre vê com os dele. Assim, ganha anos de experiência em pouquíssimo tempo. É um raro privilégio encontrar juntos os dois elementos desse processo, porque, na nossa cultura, o conhecimento é adquirido ainda pelo método mais difícil: a dura experiência pessoal. Jovens e tolos, despreparados e ingênuos, acreditamos poucos nos mestres definitivos de nossas vidas.

 

Guignard nasceu diferente, diferença que contribuiu para criar um estilo único de desenhar e pintar. Suas criações constituem-se numa das mais brilhantes da pintura brasileira. Ao morrer deixou, para seus amigos, saudade eterna: para o Brasill, um acervo que faz dele um artista definitivo e imortal.

 

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Carlos Perktold é psicanalista. Reside em Belo Horizonte. Integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA). Integra ainda o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG).

E-mail: perktold@terra.com.br