Em 1814, saía de cena, na cidade de Ouro Preto, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Pobre e debilitado pela doença degenerativa que lhe rendeu o apelido inusitado, esse mulato ouro-pretano, considerado o maior representante das artes plásticas no período colonial, teve sua vida inteiramente dedicada à escultura e ao entalhe da madeira e da pedra-sabão. No bicentenário de seu falecimento, ele recebeu, com merecimento, inúmeras homenagens efetivadas por intermédio da publicação de novos textos sobre a sua vida e seu trabalho, e também com a organização de congressos e seminários em cidades mineiras contempladas com obras da sua lavra.

 

Sua trajetória, digamos assim, predestinada, chama nossa atenção para um fato significante: parece inevitável que nas Minas setecentista surgisse alguém nativo desse território que assimilasse, com toda a vitalidade, o ofício da escultura e da talha. O ambiente propiciava o surgimento de talentos. Havia constantes trocas de informações entre os personagens envolvidos na produção artística das decorações internas dos templos, em um cenário de variadas aptidões estéticas executadas por oficiais das mais diversas localidades, cujos canteiros de obras funcionavam como verdadeiras escolas profissionalizantes. Ainda mais inevitável se esse alguém, além de ter desde criança o dom para o desenho e para o trabalho na madeira, fosse nada mais nada menos que o filho do construtor e mestre de obras Manoel Francisco Lisboa, homem da confiança da Coroa portuguesa, responsável pela construção de vários monumentos religiosos e civis na Capitania das Minas do Ouro, e que contava com uma estrutura sem parâmetro no que concerne aos equipamentos e materiais necessários ao ofício da marcenaria e da carpintaria. E assim, em meio a esse fenômeno histórico da arte produzida em uma determinada época e em um determinado local de extrema fertilidade econômica e artística, nasce esse gênio, e sua história se desenha à maneira de outros mestres surgidos em tempos passados na Europa, como Michelangelo Buonarroti e Leonardo da Vinci.

 

O trabalho de Aleijadinho ultrapassa os limites convencionais decorrentes apenas da competência ou mesmo da habilidade de um escultor ou entalhador, cuja produção tenha simplesmente como objetivo o enriquecimento das ornamentações dos templos religiosos da época. Sua obra, além de adentrar os meandros da arquitetura, prima pelas mais puras inspirações da alma humana, revelando uma concepção estética e poética, transpondo de forma admirável aquela linha que diferencia o oficial comum do artista dotado de uma percepção rara para expressar seus sentimentos diante da vida. Sua produção se amplia no decorrer do tempo, sua dor se torna parte integrante de seu ofício e sua genialidade acaba por demarcar de forma inconfundível o traçado do seu desenho e o perfil extremamente autêntico das suas criações antropomorfas.

 

Referências

O seu expressionismo se destaca entre uma imensidão de notáveis artistas que atuaram nas Minas e em outras capitanias da colônia. E apesar de toda essa aura de peculiaridade, o artista Aleijadinho está em sintonia com seu tempo, aproveitando-se de modelos retirados das estampas de época, que acompanhavam as Bíblias e os missais religiosos, ou aplicando os ensinamentos incluídos nos livros de arquitetura de grandes mestres europeus, tão comuns no convívio dos artistas que atuavam na colônia no período em questão. Há referências à utilização de gravuras dos alemães Cristoph Adam Negelein (1656-1701), Elias Porzelius (1662-1722) e Johann Jacob von Sandrart (1630-1708) para a criação dos profetas e das imagens dos Passos, de Congonhas, bem como de outros desenhos inseridos nas Bíblias publicadas por Christoph Weigel (1654-1725) e Johann Andreas Endter (1653-1690), em Nuremberg.

 

Lourival Gomes Machado – em artigo publicado no final da década de 1960 para o livro Barroco Mineiro – detecta a influência de Lorenzo Ghiberti nos púlpitos da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, inclusive citando Cônego Raimundo Trindade, que, em seu livro sobre o mencionado templo, publicado em 1951 pelo MEC, observa que “nesses dois quadros [os relevos dos púlpitos] o de Jonas e do Senhor da barca revela-se inspiração da arte gótica. Sente-se que, ao projetá-los, tinha Antônio Francisco Lisboa, diante dos olhos, gravuras e composição do período ogival.” Sobre essa afirmativa ocorreu famosa polêmica com Sylvio de Vasconcellos, que discordava de tal alusão, mas que fica aqui registrada para possíveis análises e deduções.

 

A fortuna crítica em torno da vida e da obra de Antônio Francisco Lisboa é, fora de dúvida, a mais completa e significativa se comparada aos demais artistas, ou mesmo aos outros personagens da historiografia mineira que se destacaram na capitania de Minas Gerais nos séculos 18 e 19. Sua trajetória é registrada praticamente desde a data do seu nascimento (Vila Rica, 1738) até a sua morte, ocorrida em 1814, na atual cidade de Ouro Preto.

 

Seu talento e genialidade para o ofício da arte escultórica são reconhecidos mundialmente e levaram o crítico francês Germain Bazin, em seu livro O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil, a tecer comentário de extrema contundência: “Nos últimos anos do século ‘galante’, no momento em que a Revolução Francesa toma a Europa de assalto, num país perdido do outro lado do Atlântico, um mestiço, paralítico das mãos, produz esta obra sublime, a última aparição de Deus evocada pela mão do homem”.

 

 

Adriano Ramos é conservador-restaurador do Grupo Oficina de Restauro e pesquisador de obras de arte, autor do livro Francisco Vieira Servas e o Ofício da Escultura na Capitania das Minas do Ouro.

http://www.grupooficinaderestauro.com.br/

 

Crédito da foto: Welerson Athaydes