Houve um tempo no qual os leilões de arte eram um evento especial. As pessoas recebiam pelo correio convites impressos e elegantes, endereçados aos destinatários com tratamentos de maiores formalidades tais como: Ilmo. Sr., Exmo Dr. O comparecimento às exposições era maciço. Mesmo chegando cedo, não raro tínhamos que estacionar a dois ou três quarteirões de distância porque nas proximidades já não havia uma única vaga para o carro. O público comparecia em peso e bem- vestido, havia um serviço de recepção com drinks de qualidade e salgadinhos ótimos. Lá encontrávamos os galeristas, os antiquários, os amigos colecionadores e estes encontros eram uma quase festa na qual confraternizando examinávamos o que nos era apresentado, trocávamos ideias a respeito, aprendíamos uns com os outros e em geral saíamos de lá com a certeza de que pertencíamos a uma comunidade. Nos dias de pregão para lá voltávamos e no que pese eventuais concorrências geralmente tudo se passava em patamares civilizados muito amistosos. O organizador e o leiloeiro conheciam e reconheciam a maioria dos licitantes, chamando-os por seus nomes. Tudo isto contribuía para a existência de um ambiente de confiança onde a má-fé praticamente não tinha “lugar seguro”. Ocorriam problemas? Sim. Problemas com peças falsas, restauros não mencionados, adulterações não anunciadas e etc. Mas num percentual baixíssimo! Era, como dito, uma comunidade e a ninguém interessava perder a fidúcia do público e ou nela ficar mal- visto. Os principais envolvidos eram não só pessoas muito conhecidas mas também pessoas que se conheciam, no mais das vezes há anos. Um mau procedimento poderia ser fatal para os negócios. Então, tanto quanto possível, os organizadores e leiloeiros procuravam na sua maioria manter a máxima; ser como a mulher de César, não só ser honesta. Mas também parecer honesta. Em suma, o meio era bastante confiável. E nos dava suporte.

 

Tudo isto mudou muito! Constata-se com algum saudosismo. O “formato” é outro e o meio também! Convites quando chegam vêm por e-mail. Despersonalizados. Aliás, mais um comunicado travestido de convite do que um convite propriamente dito. Estacionar o carro ficou fácil. Nas exposições pouca gente comparece. Não há muito com quem falar e raramente uma taça de vinho ou um salgadinho é servido e não raro o visitante terá que se contentar com um refrigerante. O mesmo se repete nos pregões, quando há gente por lá! Já estive em leilões nos quais não havia ninguém no dia do pregão, além do leiloeiro e de uma secretária diante de um computador e uma tela! Uma cena melancólica.

 

E por que disso? Porque hoje os leilões são majoritariamente virtuais! Que mal há nisso? Do ponto de vista da estratégia comercial nenhum! Antes pelo contrário, com os leilões virtuais, hoje, os organizadores podem alcançar todas as praças do território nacional e até mesmo do exterior e bem assim qualquer pessoa em qualquer ponto do território nacional e mesmo estando no estrangeiro poderá participar, lançar, comprar, pagar e receber o lote. Uma vantagem que sem dúvida maximiza as vendas e dá oportunidade a quem está longe de adquirir obras que não adquiriria não fosse este sistema. Mas há um custo enorme para este novo sistema. Qual? Deixando de lado o saudosismo, a fidúcia!

 

Os leilões virtuais levaram à absoluta despersonalização. Com exceção das antigas e renomadas casas de leilões – daqueles organizadores e leiloeiros que já o eram antes da proliferação do novo sistema, e que por isso mesmo são pessoas conhecidas no mercado, gozando da confiança do público – abrindo-se um imenso “espaço” virtual, por ele entraram muitos desconhecidos que se aventuram no negócio dos leilões. Há dias que na mais pujante das plataformas, onde se hospedam novos organizadores, pode-se constatar mais de 150 leilões em andamento. Um número absolutamente extraordinário! Chega a ser impossível para o público acompanhar todos os leilões em andamento. E não há só uma, mas várias plataformas ofertando este serviço.

 

E como isto funciona? É muito simples. Trata-se de um serviço de divulgação. Não requer nenhum grande investimento ou estrutura complexa. O hóspede se cadastra, contrata um leiloeiro para bater o martelo, dá ao proprietário da plataforma um percentual sobre as vendas realizadas e, obviamente, esta não se responsabiliza pela conduta deste hóspede, que pode estar fisicamente em qualquer ponto do território nacional. E por que não se responsabiliza? Porque pura e simplesmente não tem como controlar o que vai a leilão! Supondo 150 leilões por dia, cada um com um volume médio de 200 peças, temos um total de 30.000 peças/dia que estando em qualquer lugar deste imenso Brasil serão apregoadas.

 

Então e em resumo, temos que na esmagadora maioria dos casos estas peças são vendidas com base em fotos e descrições realizadas por muitos desconhecidos, através de uma plataforma que do ponto de vista prático não tem como fiscalizar coisa alguma ( nem se obriga a isto ), e que do ponto de vista jurídico não se responsabiliza porque apenas está vendendo um serviço, que é basicamente de divulgação. Isto constituiu um terreno perigoso e fértil para o engodo e para a má-fé.

 

Obviamente nem todos os organizadores e leiloeiros vão agir dolosamente; é preciso reconhecer que a maioria das pessoas, mesmo as desconhecidas do mercado, são honestas e só querem fazer um trabalho honrado que lhes permita dele subsistir. Mas temos observado uma quantidade significativa de trapaças que carecem ser divulgadas, não só para preservar as pessoas, os licitantes, mas também o próprio mercado e este sistema que, como dito linhas atrás, tem a grande vantagem de acessar outras praças e também dar acesso a quem noutras praças se encontram.

 

Mas antes de levarmos à consideração as questões ligadas à cautela, é pertinente recordar que a grande maioria dos golpes ( em qualquer área negocial ) só logra sucesso porque a vítima concorre com sua ambição desmedida. E na sua ilusão de auferir vantagens, num contexto que o homem médio percebe não ser possível, superestima sua esperteza e subestima o tirocínio do outro caindo na armadilha! Há um ditado antigo que diz: Todo dia nasce um otário, só é preciso encontrá-lo!

 

Vamos ao exemplo que, embora extremo é o mais comum.

 

Creio que você leitor concorda que até mesmo nos grandes leilões de arte realizados em São Paulo, hoje a maior e melhor praça comercial para este tipo de atividade, é muito difícil ver reunidos num único evento licitatório trabalhos de artistas tais como Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Milton da Costa e outros de tal importância. Isto porque as obras destes artistas são cotadas em valores de centenas de milhares de reais, por vezes milhões, a depender do período em que realizada, dos materiais empregues, da qualidade e beleza da obra em si e das dimensões. Quando acontece de estarem reunidas para venda este fenômeno está ligado a uma grande, importante e muito conhecida coleção feita ao longo de anos, que se dispersa. Quase sempre para partilha entre herdeiros. Fora desta hipótese, aliás muitíssimo eventual, mesmo nas mais renomadas casas leiloeiras os trabalhos destes artistas importantíssimos só aparecem de modo esporádico e por preços reais. Um aqui, dois ali, três acolá… São obras raras no mercado, de elevadíssimo valor venal, monitoradas pelos grandes galeristas e cobiçadas pelos grandes colecionadores. Nada que se possa encontrar em quantidade e em qualquer esquina e comprar facilmente só porque alguém acordou um dia de manhã cheio de desejo! Mesmo pagando muito bem!

 

Pois bem, vasculhe o leitor as plataformas de leilões ( que volto a dizer, não são responsáveis ), aplicando os nomes mencionados e outros também muito cotados, e verá surpreso a absurda quantidade de quadros que aparecem como atribuídos e estes artistas. Leilões há em que se verificam entre os lotes dezenas de quadros, as vezes uma centena, cuja atribuição é dada como de autoria destes pintores mencionados e, mais, a muitos outros que compõem a “galeria” dos modernistas do Brasil, para não falar também dos acadêmicos de maior valor e expressão. Estão “todos” lá! Rsss… E com maior surpresa ainda constatará que no geral estes leilões estão em zonas degradadas ou na periferia dos grandes centros ou, ainda, em municípios interioranos. Lugares nos quais se sabe não há base de subsistência para este tipo de comércio! Mas não acaba aí! Os valores dados como base são uma fração risível do valor que seria atribuível a estes quadros! Agora a pergunta fatal: Em sã consciência, é possível que um Di Cavalcanti autêntico esteja “perdido”, junto com toda a arte moderna brasileira, num leilão de desconhecidos organizado no Município de Patuleia, e sendo ofertado por quaisquer 50 mil reais? Não! É evidente que isto não é possível! Mas há quem organize leilões assim, onde tudo que teria importância é falso, oferecido por preços irrisórios, e por incrível que pareça existem pessoas dispostas a arrematar estes quadros! Quase chego a pensar que merecem ser enganadas!

 

Você deve estar se perguntado se isto não traria problemas ao responsável pela venda. Depende. Se o comprador for a máxima expressão da ingenuidade combinada com uma ambição desmedida, fará a compra, pendurará a “obra” na parede e se ninguém mais informado nada disser ficará ali por muito tempo até que alguém o diga, se alguém o disser. E caso um dia a verdade venha à tona a solução será provavelmente impossível. Se o incauto comprador despertar para o engodo a tempo hábil enfrentará uma verdadeira via crucis para recobrar seu dinheiro e devolver a “obra”. Primeiro enfrentará todas as resistências opostas pelos responsáveis ( se os encontrar ) que exigirão expertizes de três especialistas. Oporão a cláusula comum a quase todas as casas de leilão que dizem que o prazo para reclamações é de cinco dias (!). E também dirão que já pagaram o comitente e que não têm mais como localizá-lo. Se for ao Judiciário enfrentará uma batalha que consumirá tempo, paciência, recursos financeiros e ao final, mesmo vencedor, pode não achar quem ou oquê executar para se ver ressarcido. Eventualmente o responsável pode retroceder. Mas não será uma solução rápida, nem fácil. Após indas e vindas, com muitos aborrecimentos, o percentual pago ao leiloeiro certamente não será devolvido, idem eventual gasto com embalagem e frete, e neste ínterim o responsável terá trabalhado com o dinheiro da vítima a custo zero.

 

Dito isto, querendo comprar quadros em leilões virtuais não se iluda e observe o seguinte:

 

  1. Em não se tratando de uma grande e renomada casa de leilões, suspeite de grande concentração de quadros de maior importância.

 

  1. A chance de alguém ter entregue uma grande e preciosa coleção a um obscuro leiloeiro num lugar de somenos importância para o mercado de arte é próxima de zero.

 

  1. Não acredite que você achou um autêntico Di Cavalcanti ( ou Portinari, ou Guignard ou… ) por dez tostões num leilão desconhecido repleto de quinquilharias. Isto não existe!

 

  1. Caso encontre um quadro de maior importância e valor numa casa de leilões menos renomada, ou até nova, procure saber quem são os organizadores e quem é o leiloeiro. Veja se há coerência entre a importância do quadro e o restante do acervo. E cuidado com leilões residenciais. Há muitos “enxertos”.

 

  1. A menos que se trate de uma casa de leilões de grande renome, se é obra de maior expressão e valor desaconselho totalmente a compra sem exame pessoal do quadro. Vá vê-lo pessoalmente.

 

  1. Não dê bola para laudos de autenticidade. Nada garante o certificado. Falsificam-se quadros, relógios, esculturas, roupas, adereços de grife, dinheiro… Por que não laudos?

 

  1. Muitas vezes dão ênfase à assinatura. Cuidado! A assinatura é coisa mais fácil de falsificar do que a obra. Portanto importa menos que o quadro. Tenho visto na tela do meu lap-top péssimas falsificações, cujas assinaturas até que estão bem próximas do que seria a real.

 

  1. Tratando-se de obras dos pintores de maior relevância, quando indagadas as melhores casas de leilões em geral costumam responder perguntas quanto a origem do quadro. Muito “mistério” é um ponto negativo.

 

  1. Alguns outros aspectos gerais podem dizer muito da autenticidade ou não do quadro:

 

a) A tela e o chassis, visíveis pelas costas, têm que apresentar um envelhecimento condizente com os anos que se suponha ter o quadro. As vezes ali consta uma etiqueta ou cachê antigo de galerias conhecidas, de mostras em museus, e isto é um ponto à favor.

 

b) Em geral, estes quadros que desde a origem foram valorizados, receberam excelentes molduras que ainda se encontram presentes e preservadas, identificáveis com os padrões da época. Colecionadores advertidos relutam em trocar estas molduras porque sabem que ajudam a autenticar a obra. E grandes obras não recebem molduras ordinárias.

 

c) Em geral as falsificações passam por um processo de envelhecimento. Afinal um quadro que se quer como pintado, p. ex., nos anos 30 não pode parecer pintado ontem! Mas há uma coisa que por vezes se constata. Não sendo uma falsificação muito antiga, quem tiver um olfato apurado pode perceber que a tela ainda cheira a tinta, se tratar-se de um óleo é claro.

 

d) Há falsificações de diferentes níveis, quanto à similaridade. E basicamente três métodos: cópias de quadros existentes ( as vezes constantes de livros ); composições reproduzindo partes de quadros existentes; e composições concebidas no estilo do pintor. As duas primeiras, quando bem realizadas, são mais difíceis de identificar se você não conhece bem as obras do artista. A terceira o será se você não conhece bem, nas diferentes fases, a temática o estilo, a pincelada, a palheta de cores e a “proposta” do pintor.

 

  1. Por fim, se você gosta e pretende ter uma obra deste ou daquele grande pintor, compre todos os livros que puder, estude as imagens, vá onde a obra deste artista estiver. Aprenda tudo o que puder a respeito de sua obra e inclusive sobre ele. A vida de um pintor diz muito de seu trabalho. Exercite seu olhar.

 

 

Mesmo assim não se espera que um comprador seja sempre um grande conhecedor. Isto seria o ideal, mas o mundo ideal não existe e se este não é seu caso o melhor é se fazer assessorar por quem conheça ao pensar em dispor de valores elevados adquirindo um quadro importante e não sair por aí clicando inadvertidamente em “lançar” pela internet.

 

 

Luiz Felipe Bruno Lobo