Ementa: Colecionador, filho e neto de colecionadores, achei válido consignar aqui estas considerações e dicas para orientar aqueles que resolvam iniciar-se neste mister. Passatempo para uns, vício para outros, toda coleção é feita de alegrias e decepções, lucros e prejuízos, ou seja: de acertos e erros. O objetivo é maximizar os acertos e minimizar os erros.

 

Desde que o homem se entende por gente ele coleta. Muitas sociedades primitivas ainda se sustentam na condição básica de caçadores e coletores. Coletar é inerente à condição humana. Podemos coletar e acumular visando objetivos de ordem natural e prática, o que se dá, p. ex. e obviamente, com alimentos, ou coletar e acumular apenas para deleite. É para esta prática que se dirige verdadeiramente o termo colecionar. Digo isto porque há quem acumule para exibir seu poder aquisitivo, fazendo da acumulação um símbolo de status. Nada contra! Cada um cada um, mas um colecionador é um apaixonado, um dedicado, um conhecedor e um verdadeiro colecionador não se importa com o que os outros pensam. Neste sentido o colecionador é um solitário. Ele troca peças, troca informações com outros, troca ideias, as vezes até troca o “almoço” por uma peça, mas não quer saber se o outro gosta ou admira suas peças.

 

Há muito o que colecionar. Desde objetos baratos tais como bolas de gude, lápis e caixas de fósforo, passando por plantas e máquinas fotográficas, a objetos caríssimos como automóveis esportivos, o homem já colecionou de tudo.

 

Mas o que nos interessa discutir neste texto é colecionar antiguidades. Por isto cumpre logo perguntar; o que é uma antiguidade? Nem tudo que é antigo será ipso facto uma antiguidade na acepção do termo. Qualquer pedra, pedregulho ou montanha encontrada no meio ambiente tem milhões de anos e nem por isso será o que se considera uma antiguidade. Por convenção antiguidade é todo e qualquer artefato resultante da obra humana que tenha pelo menos cem anos e que por si só tenha alguma relevância artística e/ou histórica e valor econômico. Por convenção? Sim, porque não existe regra explícita e formal para isto, comportando o termo alguma flexibilidade. Ilustrando. O Pão de Açúcar tem milhões anos mas não é uma antiguidade. Pinturas rupestres no interior de uma caverna o são, apesar de não terem valor econômico. Muitos artigos militares da segunda guerra mundial são antiguidades, apesar de ainda não terem cem anos. Muitos seriam os exemplos possíveis, mas creio que o leitor já pegou a ideia.

 

O que colecionar? Resposta difícil e fácil ao mesmo tempo. Difícil porque é subjetiva. Fácil porque está dentro de nós. Cumpre vasculhar o eu interior e encontrá-la. No meu caso tenho uma inevitável atração por objetos brasileiros do séc. XVII ao XIX, notadamente móveis. Fui criando num ambiente onde predominavam estes objetos e por uma família de brasileiros apaixonados pelo Brasil e sua história. Foi inevitável, estava no DNA! Nem precisei vasculhar a resposta. Veio a tona sozinha. Isto se dá na maioria dos casos. Caso tenha interesse em antiguidades, mas ainda não saiba a resposta, dê tempo ao tempo. Vá visitando museus, frequentando leilões e antiquários, mostras e coleções, pesquisando nos livros e na NET e um dia, como quem encontra o amor de sua vida, encontrará sua vocação colecionista.

 

Como começar? A maioria das pessoas começa desinformada e timidamente. Vão comprando aqui e ali umas peças mais baratas e sem informações suficientes para afirmar com convicção saberem o que estão fazendo. Então cometem muitos equívocos; comprando muitas peças baratinhas acabam por gastar um dinheirão com objetos de pouquíssima relevância e quando finalmente aprendem o que necessário a respeito do assunto se decepcionam com o que compraram. É preciso ter em mente que quantidade não é qualidade. A grande quantidade é a principal característica do acumulador. A grande qualidade é a do colecionador. Então se não houver qualidade não será uma coleção e sim uma mera acumulação. Lembre-se, pouca coisa e coisa muito boa é muito melhor do que qualquer coisa em grande quantidade. É melhor porque coisa boa é a que desafia, a que dá prazer e é a que tende a manter seu valor. Pouca coisa dá menos trabalho ( de limpar, guardar, usar, vender… ). Muita coisa dá uma trabalheira danada, por vezes despesas injustificáveis, e não sendo boa frequentemente não retorna sequer o investimento inicial. Há também os que ainda desinformados, mas presunçosos e mais “valentes”, compram pouco e pagam caro por objetos que deveriam valer muito; se fossem mesmo os que descritos como tais, se não fossem falsos, mutilados, restaurados ou adulterados. Aí a desgraça é grande! Sobretudo porque sair honestamente de uma compra ruim só devolvendo a coisa e recuperando o valor pago e isso em geral é muito difícil por conta de circunstâncias várias.

 

Então entenda; antes de começar aprenda sobre o assunto. Mas aprenda de verdade! Afinal você irá gastar seu precioso tempo e não menos precioso dinheiro com isto!

 

Como aprender? Infelizmente não existe nenhum curso de colecionismo ou de antiquariato. Colecionadores de antiguidades e antiquários são auto didatas. Lembra do que falei linhas atrás sobre visitar museus, frequentar leilões e antiquários, mostras, coleções e pesquisar nos livros e na NET? Este é o caminho. Acrescente a isto inserir-se no círculo de colecionadores e fazer boas amizades, desinteressadas e confiáveis. Acredite, os bons amigos vão te dar dicas e informações preciosas, te ajudar a progredir e muitas vezes te impedir de entrar numa “fria”.

 

Disciplina. É possível gostar de muitas coisas, mas é impossível ter tudo e, convenhamos, é mais interessante ser coerente e mais fácil se você for um especialista. Então em lugar de ter uma miscelânea de coisas que “não se comunicam”, e que vão consumir seus recursos numa dimensão maior, talvez até comprometedora, é mais lógico ter uma ou poucas coleções. Se você gosta de antigos móveis brasileiros mais do que tudo ( como no meu caso ) dê prioridade a isto e secundariamente a coisas que do seu agrado possam estar associadas. Talvez algumas peças em prata, imagens ou porcelana que “casem” bem com eles.

 

Eis um decálogo básico para o colecionador de antiguidades:

 

1. Só compre se você tiver absoluta certeza de que a coisa é o que é. Na dúvida deixe ir. Pouquíssimas coisas são únicas e outras aparecerão.

 

2. Compre de pessoas presumivelmente idôneas, contra recibo identificando o vendedor.

 

3. Mesmo que você tenha certeza sobre as qualidades da coisa, se for de valor elevado pague com cheque nominal, cruzado e escreva nas costas “Não endossável” e peça uns dias para que deposite o cheque. Neste ínterim faça novas verificações na coisa. Você poderá estar enganado! Se descobrir algum defeito oculto terá tempo de ligar para o banco e sustar o cheque por desacerto comercial. E não se preocupe. Você terá razão se o defeito de fato existir.

 

4. Não compre por impulso. Examine bem a peça, pergunte e pesquise tudo o que achar pertinente e pense o tempo que for necessário. Volto a dizer, na dúvida deixe ir. Melhor perder uma boa compra de que realizar uma compra ruim.

 

5. Nos leilões não confie no que diz o catálogo. Se você sabe o que a peça é, ótimo! Confiar nas descrições é um salto no escuro. Tanto porque podem haver erros, quanto porque pode haver má-fé. Veja o que todos os leiloeiros dizem nas cláusulas gerais sobre autenticidade, estado e etc. É um absurdo tratado de isenção de responsabilidade. Se possível examine bem a peça antes de lançar e de novo quando for buscar, antes de pagar. Defeitos não mencionados na descrição desobrigam o licitante de comprar.

 

Hoje os leilões virtuais são uma prática corrente. Nem sempre é possível ver a peça em mãos. Neste caso por e-mail faça todos os questionamentos e eventualmente peça mais fotos. Assim você fica documentado. E só compre se tiver certeza, sabendo que nisto há riscos.

 

5.1. Lançando nos leilões. Primeiro, antes do leilão fixe em sua cabeça qual é o seu valor limite e não faça concessões. Não é hora de exibir seu poder aquisitivo, nem para se afirmar diante dos outros. Tenha juízo, não se empolgue e cuide de seu dinheiro. Será hora de fazer boas compras. Em geral nos leilões compra-se pela metade do valor que se paga num antiquário.

 

Alguns leiloeiros oferecem bebidas alcoólicas durante os pregões. Afaste-se disto. Principalmente se você tiver problemas com álcool.

 

Nos presenciais procure um ângulo que lhe permita ver a sala como um todo. Fique de pé e não se distraia. Procure ver se o leiloeiro não está lançando para a “parede”. Resista ao impulso de lançar de início. Se ninguém lançar, lance antes de passar o lote ( ao depois o leiloeiro não se obriga a vender pelo preço base ). Se outro lançar, lance num compasso normal. Não hesite, nem se agite. Se outros concorrerem entre si deixe que se engalfinhem e espere a disputa acabar, daí lance se ainda estiver dentro de seu patamar. Do contrário, deixe ir. Lembre-se: salvo raríssimas exceções, tudo volta a aparecer.

 

6. Entre duas ou mais pecinhas médias de preço médio e uma peça incrível e de maior valor ( no preço certo é claro ) prefira a última. Te dará maior prazer de conquista e terá maior liquidez numa eventual venda.

 

7. Molezas e compras rápidas. Peças incríveis a baixo custo surgem. Raramente é verdade. Mas aparecem. São as chamadas “molezas” que ocorrem por falta de conhecimento profundo do vendedor. Elas exigem uma compra rápida antes que outro o faça. Mas… Isto não é para principiantes. Na maioria esmagadora dos casos o que é bom demais para ser verdade de fato não o é! Então se você não for expert no assunto, não se iluda. Muito provavelmente estão iludindo você! Então caia fora.

 

8. Modismos. Até no antiquariato há disto. Por uma série de circunstâncias variadas, que seriam exaustivas e desnecessárias explicar aqui, volta e meia determinados tipos de objetos entram e saem de moda. Isto faz com que os preços oscilem e é salutar apenas para os comerciantes. Vá na contra mão. Saiu de moda, está barato e você gosta? Compre. Entrou em moda e está caro? Não compre e se tiver algo do gênero de que já não goste, aproveite a onda. Venda.

 

9. Quanto pagar? Esta é intimamente a mais repetida de todas as perguntas. Cada caso é um caso e cada praça é uma praça. A menos que você possa acessar outras praças, só interessa a praça na qual você vive. Esqueça estas bobagens de: cotação internacional, quanto deu num leilão em Londres ou Nova Iorque. Você não vai lá vender vai? Então fixe-se na sua realidade. Eu tenho como parâmetro as casas de leilão que eu posso acessar. No meu caso só Brasil. Então faço uma estimativa média de por quanto venderia e subtraio 20%, percentual médio que no futuro me cobrarão para uma eventual venda. Os 80% restantes correspondem ao preço final que estarei disposto a pagar e ponto. Só uma “Mona Lisa” me fará sair deste limite.

 

10. Finalizando. Organize um ficheiro de folhas grandes. Nele anote tudo sobre a peça ( inclusive o valor de custo ) e na página correspondente grampeie o recibo. Uma ideia interessante é digitar o texto numa folha A4, nela “printar” uma foto do objeto e arquivar neste ficheiro. No futuro estas informações serão úteis a você e talvez a seus herdeiros.

 

Uma advertência importante. É mais ou menos frequente ouvir nos antiquários que esta ou aquela peça é muito boa, tanto que teria vindo da coleção de Fulano de Tal. Não dê bola para isto! Não é um argumento válido. Primeiro porque pode não ser verdade. Segundo porque por melhor e maior que seja, um colecionador também comete erros, ainda que eventualmente. Só porque passou pelo crivo de um grande colecionador e integrou uma importante coleção isso não quer dizer que não possa ter havido um engano. Conheço grandes coleções nas quais há peças com problemas e algumas de originalidade bem duvidosa. Até os experts do Louvre se enganam! Então não compre estórias e tenha em mente que a peça é o que é, examine-a bem e tire suas próprias conclusões.

 

Boa sorte e boas compras!

 

Luiz Felipe Bruno Lobo.