Até então consideradas redutos de seriedade extrema e boa formação e informação cultural, as casas leiloeiras parecem que vêm perdendo e se distanciando de uma de suas funções básicas, que não apenas a de comercialização de bens patrimoniais, mas também culturais. Se pensarmos que hoje se fazem presentes basicamente por pregões on line, o resultado pode ser ainda mais perverso.

 

Talvez no afã da comercialização e do conseqüente lucro rápido, algumas casas leiloeiras vêm se esquecendo de uma de suas funções primordiais de salvaguarda e propagação de objetos artísticos imbuídos de valor cultural. Senão vejamos o que sistematicamente vêm ocorrendo nos últimos anos em vários pregões realizados, sejam presencialmente, sejam virtualmente. Erros acontecem, mas com tamanha freqüência e monta, acabam sendo anormais e um sinal de alerta para o mercado leiloeiro.

 

Catálogos mal elaborados são, apenas, a ponta desse iceberg. Atrás dos mesmos, estão os recursos humanos que deveriam ter conhecimento das informações básicas para elaborá-los, mas não é o que acontece. Exemplos, infelizmente, não são raros. Erros gramaticais, por falta de revisão ou desconhecimento do léxico, são até admissíveis, desde que não crassos e corroborados pelo leiloeiro oficial em pregão.

 

Mas imperdoáveis, realmente, são os erros de informação que, ao invés de educarem, deseducam. Pior do que não informar é informar errado. Em um determinado leilão, um dos itens apregoados foi verbalmente apresentado pelo leiloeiro oficial, corroborado pelo catálogo, como “Bandeira Republicana” sendo que a mesma apresentava a esfera armilar encimada por coroa real, emblemas legítimos do lábaro do período imperial brasileiro. Apenas um erro de cunho histórico? Pode ser… Outra pérola? Um mobiliário com todas as características básicas do estilo Luís XV, descrito em leilão on line como autêntico Luís XVI. Para os leigos, seria uma falha perdoável de conhecimento, pois ninguém nasce sabendo. Para o profissional da área, dever de ofício…

 

No âmbito da “seriedade”, os exemplos são ainda mais preocupantes porque a ação influi diretamente na dinâmica do mercado, atingindo compradores, apreciadores e colecionadores, subestimando suas capacidades. Se não, como aceitar que uma obra plástica, assinada pelo artista, seja apregoada como atribuição? Ou é, ou não é. Está assinada! Se há dúvidas, há, ou deveriam haver também, os experts e suas expertises, que poderiam dirimi-las.

 

Outro caso, em outro pregão, é o de como entender que obras de renomados artistas, com valor de mercado, sejam leiloadas sempre em lance livre, ou seja, teoricamente pela melhor oferta, e que, a bem da verdade, nunca acaba sendo a lance livre. Não seria mais correto já apresentarem o valor base e, assim, encurtar o enfadonho “circo” de confirmações e disputas virtuais – e também os fatídicos telefonemas – que geralmente tais pregões acabam tendo?

 

Para ilustrar com outro exemplo recente, como “vender” aproximadamente 90% dos lotes apregoados com valores abaixo dos preços-base constantes em catálogo? Lances condicionais existem e fazem parte dos pregões, mas com tamanha freqüência e ainda dados em sala a todo o momento? Ora, contra-senso puro, pois se espera que os preços subam e não diminuam. Ou era alguma modalidade de leilão mexicano em que os incautos participantes não foram informados ou os preços não eram condizentes com os praticados em mercado? O que pensa o expectador nessa hora?

 

Quanto aos quesitos autenticidade, integridade e entrega dos lotes comprados, pela via exclusiva de pregões virtuais, são vários os casos narrados por compradores incautos enfrentando problemas e tendo decepções.

 

Não é possível ficar impassível a esses e tantos outros acontecimentos que vêm solapando a credibilidade da modalidade pregão país afora, em detrimento a outros, e afugentando das salas, reais e virtuais, aqueles que entendem a dinâmica de um verdadeiro pregão e são contumazes apreciadores e compradores de informações culturais, além de arte, antiguidades e objetos artísticos. Urge o momento dessas instituições, tão importantes para o mercado de arte e antiguidades, reverem os conceitos e posturas mercadológicas. Questão de sobrevivência… E, principalmente, de respeito.

 

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Antiguidades e obras de arte

José Márcio Viezzi Molfi é fundador da VM Escritório de Arte, antiquário clássico de São Paulo especializado na comercialização de obras de arte e antiguidades; pesquisa, catalogação, avaliação e gestão de acervos; consultoria em “art investment” para colecionadores e instituições públicas e privadas; realização de exposições e leilões de arte e antiguidades, e assessoria em serviços de restauração.

 

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