Nas últimas décadas estamos vivendo e observando um fenômeno atípico no mercado de arte, nunca antes observado: a desvalorização do antigo, a perda de pujança do moderno, a hiper valorização do contemporâneo e muita mitificação.

 

Antiguidades de indiscutível valor artístico, estético e histórico, raras, antes disputadas a tapa entre experientes colecionadores ávidos e adquiridas a dez ou vinte anos por significativas importâncias calculadas em dólar, estão sendo vendidas hoje por frações de 1/3 a 1/4, idem na mesma moeda.

 

Nos leilões bate-se o martelo não raro por um baixíssimo valor base e muitas vezes nem por isto! Declarações tais como: não gosto de pintura acadêmica, este tipo de mobiliário é visualmente muito pesado, limpar prataria dá muito trabalho, tapetes antigos dão alergia, não há como repor peças de um antigo aparelho de jantar, cristal não admite restauros, antiguidades estão fora de moda, “santinho” é coisa de igreja e sacristia e outras já são clichê. Ouve-se disto por aí numa frequência tal que por vezes me parece um mantra!

 

Os antiquários estão fechando as portas. Coleções fantásticas estão sendo dispersadas por ninharias e o que se diz numa sentença irrecorrível é: o gosto mudou.

 

Em ocasiões diferentes nas quais foram a leilão coleções importantes ( escandalizado ) ouvi de herdeiros: – Não entendo porque papai comprava estas coisas; Estou louco para me livrar destes trecos que mamãe comprava; Não quero nada voltando lá pra casa; Lá em casa quero tudo contemporâneo…

 

Obviamente se esta é a mentalidade vigente, antiguidades, arte antiga, não têm vez. Sabemos que o valor de qualquer coisa posta em comércio está condicionado à irrevogável lei da oferta e procura. Quanto vale alguma coisa que ninguém ou pouca gente quer? Nada ou quase nada!

 

Este fenômeno está flertando com a arte moderna. Obras importantes de expoentes da arte moderna também caíram de preço nos últimos anos. Trabalhos de Di Cavalcanti, Guignard, Portinari, só para citar alguns dos mais emblemáticos, já não alcançam os preços que alcançavam. E a míngua de argumentos “melhores”, o que é que se diz para “explicar” a desvalorização? -Obras de artistas mortos podem ser falsas e o autor já não está entre nós para as certificar. -O risco é enorme.

 

Isto não é apenas absurdo, é ridículo. A morte de um artista importante, por mais lamentável que fosse, era tida como um fator de valorização de sua obra porque pura e simplesmente representava o fim de sua produção. É sabido, o mercado cresce, a demanda cresce e se a produção cessa a lógica é; cada vez mais haverá maior procura por algo que só existe em número limitado, o que implica na valorização da obra. Mas esta lógica irretorquível vem sendo esquecida e o efeito tem sido contrário!

 

Por outro lado a arte contemporânea, aquela que foi produzida ontem, assim como a que está sendo produzida no momento em que escrevo este texto, e no que você o lê, está super valorizada. Nunca a arte ( contemporânea ) foi tão bem vendida.

 

Não tenho nada contra a arte contemporânea, é bom que se diga desde logo para que não me tomem como parcial, mas não me parece razoável, por exemplo, que um quadro de Beatriz Milhazes ( artista excelente, porém viva e produzindo ) valha tanto ou mais do que um quadro de Di Cavalcanti, Guignard ou Portinari. Não assimilo que uma cadeira dos irmãos Campana possa valer muito mais do que uma cadeira D. José do séc. XVIII. Não concebo que uma obra qualquer de um artista vivo contemporâneo, por melhor que sejam ambos, possa valer mais do que uma obra de arte antiga ou moderna. Contrariar esta ideia é ir na contra-mão da lógica e sucumbir à mitificação.

 

Agora leitor a pergunta inevitável: você já se perguntou por que isto vêm ocorrendo?

 

Bem primeiro é preciso entender que consumir arte é um luxo para poucos, algo que vem depois de atendidas todas as necessidades básicas e bem assim aquelas que, não sendo básicas, são “plantadas” em nossa cabeça como indispensáveis. Tais como carro novo, férias em Miami, roupas de marca e etc. Significa então dizer que depende de dinheiro disponível. O mercado de arte sabe disto e vive disto. Basicamente é um mercado que está voltado para quem tem elevado poder aquisitivo. Este mercado tem crescido e muito nas últimas décadas, aliás no mundo inteiro. Então a ideia básica de quem está neste mercado é oferecer frequentemente a quem tem dinheiro algo que possa representar um valor significativo. Não importa o que! Desde que possa frequentemente ser comprado por “X” e frequentemente vendido por “X” + lucro, entendendo-se “X” como um valor elevado, e lucro o máximo que possa ser agregado ao preço. Por outro lado não há como ter bons resultados se o quesito frequência não se concretizar. Frequência é giro rápido e giro rápido é ganho.

 

Ora, o mercado de arte cresceu e muito, os possíveis compradores antes às centenas hoje são aos milhares, mas antiguidades e objetos de arte moderna continuam a existir em número limitado! Como dar frequência a um negócio que se quer bem sucedido se a mercadoria objeto do negócio não corresponde à demanda e não surge com frequência? É simples! Desacreditando a mercadoria de existência limitada ( no caso o que não pode ser mais produzido ) e promovendo a mercadoria que possa vir de um manancial inesgotável! Foi e é exatamente o que vem ocorrendo. Todas estas bobagens pejorativas que vêm sendo ditas sobre antiguidades e arte moderna são parte de uma campanha comercial para promover a arte contemporânea de produção infinita. É um processo de desconstrução de valores aliado à mitificação.

 

Como mitificar? Como construir um mito? Através da constante afirmação do que se queira ver circulando como verdade. Ainda que não seja. Neste caso pondo defeitos no que se quer rejeitar e inventando qualidades no que se quer sendo aceito.

 

Acho que concordamos, eu e você leitor, que produzir algo novo e belo não é nada fácil. Fazer de modo novo, com novas técnicas, concretamente algo complexo com novas ideias. Mas ficará mais fácil se você admitir os seguintes princípios:

 

  1. A arte não precisa ser bela;
  2. A arte não carece de habilidades técnicas;
  3. A arte é antes de tudo uma ideia nova; e
  4. A arte agora é metáfora!

 

Ressalvando que a metáfora também está presente na arte antiga, estes são os quatro pilares da arte contemporânea. São eles que permitem afirmar que são arte as seguintes hipóteses exemplificativas concretas: um tubarão num aquário de formol ou um cocô de papier-mâché sobre uma almofada de veludo vermelho!

 

Volto a repetir, há arte contemporânea de real valor, mas sob estes princípios vêm sendo super valorizada e, pior, vem sendo produzida uma imensa quantidade de lixo banal que, em detrimento da arte antiga é posto a venda no mercado. Por vezes objetos horríveis, chocantes e até repugnantes. E se você disser qualquer coisa contra o objeto, imediata e automaticamente será emitido em seu desfavor um “certificado de burrice” acompanhado da seguinte consideração: -Você não entende nada disso! E suspeito que é exatamente por isto que nas mostras de arte contemporânea muitas pessoas se postam diante de objetos patéticos com grandes ares de admiração e numa encenada epifania exclamam: -Oh!

 

Mas porque disto? O mercado está reagindo favoravelmente a estes princípios porque foi orquestrada uma ação conjunta na qual se lança um “artista” e sua “obra”. Exposições, palestras e acontecimentos são maciçamente promovidas. Catálogos bem realizados são editados, textos mitificadores e herméticos são escritos, elogios da crítica venal e associada são às mancheias e a unanimidade, promessas de valorização são confirmadas por uma verdadeira bolha. Museus são construídos com dinheiro público facilitando em certos casos o enriquecimento ilícito de alguns. Mostras de decoração excluem tudo que não seja contemporâneo. Ou seja, o passado foi e está sendo todo negado para afirmar mentiras do presente, mentiras que na busca do lucro fácil estão impondo prejuízos a todos os que nelas acreditam.

 

Ainda que afetados pela crise econômica na qual nos meteram os maus gestores da coisa pública, o mercado do contemporâneo nem de longe sofre o que se abateu sobre a arte antiga e parcialmente sobre a arte moderna.

 

Num dado momento as pessoas, que incautas puseram muito dinheiro no que hoje está sendo produzido, vão despertar para a realidade. Será uma corrida para “desovar” as banalidades e quanto maior for a desova maior será a queda, numa descendente alimentando a causa por seu efeito. O que tem valor vai despencar ( e muito ) e o que na realidade nada vale nada valerá. Também lamentarão terem vendido por dez réis de mel aguado as “coisas e trecos” que papai e mamãe compravam. Mas aí terá sido tarde, os valores sólidos terão ido embora junto com o mais sensível de todos os senhores, o Sr. Dinheiro, aquele que não aceita desaforo.

 

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Luiz Felipe Bruno Lobo

 

Fotos: “The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living” (A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo), 1991, Damien Hirst. A negociação desta obra de arte contemporânea, ocorrida em 2004, deu origem ao livro “The $12 Million Stuffed Shark: The Curious Economics of Contemporary Art” (O Tubarão de 12 milhões de dólares, a curiosa economia da arte contemporânea) escrito por Don Thompson.