Foram várias as melhorias advindas com a transferência da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, e uma delas está relacionada com a rara moeda de 960 réis, a famosa “Patacão”, que circulou pelo país naquela época.

 

Na chegada ao Brasil, um sério problema

Ao chegar ao Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, depois de uma breve estada na Bahia por cerca de um mês, D. João VI se deparou com um problema muito sério: como manter toda a corte no novo país? A solução só poderia ser uma: a cunhagem de moedas.

 

O meio circulante da época era baseado no valor do metal ou de reservas em ouro e para criar dinheiro, com lastro, precisava-se de um adicional de metal precioso para a cunhagem de moedas ou para a estocagem, como reserva do Reino.

 

A questão era que este acréscimo de metal precioso não estava mais disponível, já que o período do auge da mineração havia passado há tempos. Assim, a prata espanhola circulava ilegalmente, e com frequência, pelo país na forma de moedas de 8 reales, cunhadas em diversas colônias espanholas e até na metrópole. O que D. João VI fez, foi, então, legalizar esta circulação, cobrando um ágio para tal.

 

A solução

Assim, o Alvará de 01 de setembro de 1808 autorizava a contramarca, ou carimbo, aplicada em moedas hispano-americanas de 8 reales para circularem livremente pela província de Minas Gerais.

 

No entanto, estas moedas eram negociadas a um valor de 750 réis aproximadamente e passaram a receber um carimbo com o novo valor de 960 réis, não existente no sistema financeiro da época que era limitado a 640 réis, transformando esta diferença em valor para o sustento de sua Corte. Esta contramarca é conhecida comumente como “carimbo de Minas”, já que se destinava à circulação de moedas hispano-americanas exclusivamente na província de Minas Gerais.

 

Muitos navios saíam do Rio de Janeiro com destinos às colônias espanholas, com as quais se mantinham boas relações, carregando ouro e retornando repletos de moedas de 8 reales. Estas, compradas ao câmbio corrente, eram remarcadas nas Casas da Moeda do Rio de Janeiro, Bahia e nas Casas de Fundição de Vila Rica, Sabará e Serro Frio. Esse procedimento aumentou o meio circulante à época.

 

O sucesso dessa nova moeda foi tão grande que se instituiu o novo valor de 960 réis, ou 3 patacas, com o Alvará de 20 de novembro de 1809.

 

Surge o Patacão

Preparou-se, a partir daí, a recunhagem total das moedas hispano-americanas para circularem em todas as províncias da colônia, surgindo, desta maneira, uma das moedas mais cobiçadas por colecionadores no Brasil e no mundo: o Patacão.

 

Entre 1810 e 1821, quando D. João VI retornou a Portugal, foram cunhadas cerca de 20 milhões de moedas de 960 réis.

 

O processo de recunhagem era um tanto arcaico e, muitas vezes, acarretava na quebra do próprio cunho. Por isso, diversos cunhos de anverso e reverso podiam ser usados para a cunhagem de uma mesma data, o que deu origem a variantes de uma mesma moeda.

 

A riqueza de sua história

De 1810 a 1834, não foram cunhadas moedas de 960 réis apenas nos anos de 1828, 1829, 1830 e 1831 Atualmente já foram catalogadas mais de 2.200 variantes dessa moeda.

 

Numismatas aficionados em 960 réis procuram catalogar, além das variantes de cunho, também as moedas-bases, pois provinham de diversas colônias espanholas. E, dentro de uma mesma colônia, podiam originar-se de diferentes Casas da Moeda. E, ainda, como eram aproveitadas todas as moedas que cumprissem os padrões de exigência das Casas da Moeda do Brasil, poderiam ser utilizadas moedas de várias épocas.

 

Utilizaram-se como moedas-bases as cunhagens dos reis espanhóis desde Felipe V (reinado de 1700 a 1746) até Fernando VII (reinado de 1808 a 1833) e, também, algumas de repúblicas que se tornaram independentes no período, como Peru, México e Chile. Isto multiplica, mais ainda, o número de variantes.

 

Esta identificação é feita pelos vestígios visíveis na moeda, que o novo cunho não conseguiu apagar, demandando extremo conhecimento das moedas hispano-americanas e espanholas.

 

Por fim, em se tratando de meio circulante, a sua estruturação inicial se deveu, sem dúvida, à vinda da Família Real para o Brasil com a implementação daquela que pode, até certo ponto, ser considerada a primeira moeda circulante em nível nacional: a 960 réis.

 

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Moeda de 8 reales 1806 com Carimbo de Minas: No anverso, busto de Carlos IV ao centro e a legenda “CAROLUS · IIII · DEI · GRATIA ·”. No Reverso, brasão de armas da Espanha e a legenda “· HISPAN · ET IND · REX · ME · 8R · J · P ·”

 

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Moeda de 8 reales 1806: No anverso, busto de Carlos IV ao centro e a legenda “CAROLUS · IIII · DEI · GRATIA ·”. No Reverso, brasão de armas da Espanha e a legenda “· HISPAN · ET IND · REX · ME · 8R · J · P ·”

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Moeda de 960 réis de 1815 cunhada pela Casa da Moeda da Bahia

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Moeda de 960 réis de 1832 com anverso contendo brasão com as Armas do Império do Brasil.

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Moeda de 1809 contendo no reverso a efígie do rei espanhol Fernando VII e anverso com o escudo de Armas da Espanha

 

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Moeda de 1809 contendo no reverso a efígie do rei espanhol Fernando VII e anverso com o escudo de Armas da Espanha. Sobrecunhagem com o escudo de armas e a esfera armilar do Império português

 

Dica Literária

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Carmelino de Souza Gomes
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Obras Referenciais:
PROBER, Kurt. Catálogo das moedas Brasileiras. 20Ed. Gráfica Canton LTDA. São Paulo. 1966.
FERREIRA, Lupércio Gonçalves. Catálogo Descritivo dos Patacões da Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Vol 1 e 2. Recife, 1978 e 1981.

 

 

Antiguidades e obras de arte

José Márcio Viezzi Molfi é fundador da VM Escritório de Arte, antiquário clássico de São Paulo especializado na comercialização de obras de arte e antiguidades; pesquisa, catalogação, avaliação e gestão de acervos; consultoria em “art investment” para colecionadores e instituições públicas e privadas; realização de exposições e leilões de arte e antiguidades, e assessoria em serviços de restauração.

 

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