O leque, como o conhecemos, é um objeto de uso pessoal usado para abrandar o calor. Foi muito utilizado pelas elites europeias no período de 1670 a 1930, como um forte símbolo de luxo e elegância. Porém, importado da Ásia durante o Renascimento, o leque foi adotado na França durante o reinado de Luís XIV. É neste país que ele reinará como objeto de luxo e poder e Paris será a sua capital durante o século XVIII até a Revolução Francesa. Com o Primeiro Império, sua fama renasce em sua produção, em seu uso e em seu formato, aparecendo muito menor que seus antecessores e sendo decorado com temas de entretenimento ou curiosidade.

 

A segunda era de ouro

Após a Restauração, com o surgimento da indústria, o leque vai ter a sua segunda era de ouro. Grandes casas nascem, como a de Félix Alexandre, fornecedor oficial da Imperatriz Eugenie. Este acessório de moda será diversificado na confecção de materiais e técnicas e na variedade de temas. Como um “cetro feminino”, ele será um objeto de arte onde a delicadeza da pintura competirá com o trabalho em diversos materiais como seda, rendas, plumas, marfim, madrepérola, madeira, entre tantos outros materiais.

 

A chegada à Europa

Há muitas histórias sobre a chegada do leque na Europa. Para alguns, ele nasceu no Japão e, para outros, na Índia. No entanto, comprovadamente, ele é um objeto que, de origem asiática, chega à Europa com os portugueses e as Companhias das Índias Orientais e, gradualmente, se espalha pelo continente. Diz a história que o primeiro exemplar que apareceu na França parece ter chegado junto com a bagagem de Catarina de Médicis, esposa de Henrique II, em plena Renascença. Este leque era, então, uma espécie de bandeirola presa em uma alça que se desdobrava, sendo adornado com cenas bucólicas e assuntos delicados.

Uma corporação específica, a dos artífices de leques, é criada por Colbert em 1676 na França, garantindo rapidamente a dominação dos artesãos deste país na confecção de leques em toda a Europa.

 

Um símbolo da aristocracia e do seu tempo

Se em seus primórdios europeus o leque é um objeto aristocrático que testemunha a distinção de seu dono, ele também vai refletir ao longo dos anos as evoluções sociais, políticas e artísticas de seu tempo. Sua principal função, a de criar frescor, é rapidamente superada. Ele se torna um objeto de moda, de linguagem, de um código. Sua decoração não é apenas anedótica ou pueril, é política também em alguns momentos.

Dinastias de fabricantes de leques animarão uma arte florescente, associando-se a pintores, gravadores ou litógrafos, formando uma comunidade onde prevalecem a emulação e a inventividade. Belas peças serão produzidas durante séculos. Do Primeiro ao Segundo Império franceses, o leque mudará de tamanho. Ele seguirá a evolução dos vestuários femininos. Sob Napoleão I, por exemplo, será ornamental, com apliques e rendas. Sob o reinado de seu sobrinho, Napoleão III, décadas depois, ele se enfeitará com cenas inspiradas no século XVIII, desenhos e alegorias, marcando um novo tipo de decoração.

 

O leque e os códigos das damas dos séculos XVIII e XIX

Por fim, cabe ressaltar como curiosidade, que, diz a lenda, o leque era dotado de códigos nos séculos XVIII e XIX pelas damas que o utilizavam. A famosa casa francesa de Develleroy publicou no século XIX “A Linguagem do Leque”, um livreto explicando os gestos codificados com os quais as mulheres se comunicavam por códigos discretos. Alguns deles se tornaram famosos na história, real ou lendária, como por exemplo, o leque quando colocado perto do coração significando que o cavalheiro havia ganhado o amor da dama, ou o leque fechado tocando no olho direito significando a possibilidade de um encontro, o leque fechado com movimentos rápidos indicando para o cavalheiro não ser imprudente, o leque meio aberto nos lábios dando a entender que a dama queria um beijo, e tantos outros códigos mais.

Verdade, ou não, o que se pode dizer é que a partir do século XX os leques passaram a ser objetos de coleção, altamente procurados e disputados nos mercados de arte e antiguidades mundo afora.

 

 

 

Dica Literária

LE LANGAGE DE L’ÉVENTAIL
Jean-Pierre Duvelleroy
Ed. Maison Duvelleroy, circa 185

Esse livreto é uma raridade, sem dúvida.Fundada em Paris em 1827 por Jean-Pierre Duvelleroy, a casa de leques de Duvelleroy começou com um sonho: trazer os leques de volta para as mãos das mulheres, após um período de ostracismo. Quem ajudou a propiciar esta volta do leque na França do início do século XIX foi a Duquesa de Berry que organizou uma suntuosa festa com danças onde se usavam os leques. Este foi o começo para a Casa de Duvelleroy. Logo, esses objetos delicadamente trabalhados se tornaram um símbolo do estilo francês. A casa de Duvelleroy recebeu várias medalhas na Exposição Universal de Paris.

Durante o século XIX, Duvelleroy abriu seu estabelecimento em Paris no endereço prestigioso de 15, rue de la Paix e uma afiliada em Londres, na Bond Street.Esse livreto lançado por Duvelleroy mostra toda a beleza dos leques e os códigos de linguagem que os mesmos podiam ter nos salões franceses do século XIX. Foi lançado como um estímulo ao uso e à compra dos leques e, óbvio, à venda desses objetos.Esta é uma obra que faz a alegria de colecionadores e historiadores. Apesar de rara, há exemplares espalhados em museus e poucos que ainda circulam pelo mercado de livros antigos, para aqueles que tiverem a sorte de encontrá-la.

Edição em francês.

 

 

Antiguidades e obras de arte

José Márcio Viezzi Molfi é fundador da VM Escritório de Arte, antiquário clássico de São Paulo especializado na comercialização de obras de arte e antiguidades; pesquisa, catalogação, avaliação e gestão de acervos; consultoria em “art investment” para colecionadores e instituições públicas e privadas; realização de exposições e leilões de arte e antiguidades, e assessoria em serviços de restauração.

 

VM Escritório de Arte
José Márcio Viezzi Molfi
Rua Augusta nº 2.203, Loja 18, Galeria América, Cerqueira César, São Paulo-SP
Telefones: 55-11-3311-8578 ou 55-11-99134-4663
Atendimento de segunda-feira a sexta-feira das 9h às 18h
http://www.vmescritarteleiloes.com.br
https://www.facebook.com/marciomolfi/