O Nien Hao é a designação que, no idioma chinês, se dá às marcas apócrifas da porcelana, gravadas na base das peças produzidas para consumo interno. Aquelas feitas para exportação raramente eram identificadas com marcas dos reinados, nos séculos XV e XVI. Estas marcas tinham habitualmente seis ou quatro caracteres, também conhecidos como pictogramas.

 

As marcas Nien Hao e seus pictogramas

As marcas conhecidas por Nien Hao são normalmente gravadas a azul na base oculta das peças e sob o vidrado, dentro de um anel simples ou duplo, ou de um quadrado em que os caracteres são colocados em duas colunas, quando não se trata de selo estampado. O primeiro pictograma significa invariavelmente “grande”, seguido pelo que representa a coroa reinante e por mais dois que representam os nomes do reino e o do monarca. Os dois últimos correspondem ao ano de produção e do local onde foi feita a peça. A leitura, ou seja, a sua interpretação, efetua-se de cima para baixo e da direita para a esquerda.

 

O hábito da impressão

O hábito da impressão foi introduzido no reinado do imperador Hongwu (1368 – 1389), aplicando-se em exclusivo às peças destinadas à corte do monarca, mas admite-se, também, que as primeiras peças marcadas datem do início do século XI. O fato de se observarem marcas em algumas peças, não significa que elas correspondam com rigor à data ou período em que tenham sido produzidas, porquanto era comum a inserção de pictogramas relativos a períodos anteriores. Assim, um conjunto relativo ao reinado de K’ang Hsi (1661 – 1722) pode ver-se em peças produzidas durante o reinado de Ch’ien Lung (1736 – 1795), por exemplo. Acresce o fato de se fabricarem atualmente em Shangai cópias de peças antigas que levam marcas dos reinados destes dois monarcas citados.

 

Os pictogramas, o tempo e os reinados

As peças do século XVIII e anteriores aparecem eventualmente com pictogramas, e as que se produziram em épocas posteriores são já marcadas também com pictogramas ou com selo. Este aparece em muitas peças como um agregado compacto dos seis ou dos quatro pictogramas e, por vezes, apenas com quatro caracteres de forma geométrica e estilizada, sobretudo no reinado de Yong Cheng (1723 – 1735). A existência de marcas ditas apócrifas num reinado, por corresponderem a reinados anteriores, embora não seja muito vulgar, não significa que se pretenda enganar ou provocar alguma contrafação, porquanto frequentemente estes casos têm apenas um significado de apreço e reverência pela beleza da porcelana, ou cerâmica, produzida durante o reinado anterior a que se refere. Os casos mais comuns sucederam durante o período K’ang Hsi, quando se produziram peças com as marcas dos imperadores Ch’eng Hua (1465 – 1487) e Hsuan Te (1426 – 1435). Um exemplo interessante e curioso, entre outros, é o que se refere à escudela encomendada pelo administrador colonial português e capitão-mor de Malaca de 1528 a 1529, Pero de Faria, datada de 1541, cujo Nien Hao identifica o período de Hsuan Te, que reinou de 1426 a 1435, como o de sua produção. O ano de 1541 que aparece na escudela corresponde ao período do reinado de Kia Ts’ing (1522 – 1566).

 

Um sobrenome ou um lema

Por fim, cabe ressaltar que as marcas correspondem a um sobrenome ou a um lema adotado pelo soberano no ato em que é entronizado e não, ao contrário do que poderia supor-se, ao nome próprio do imperador. O sobrenome ou lema, geralmente constituído por dois curtos vocábulos, têm relação com um acontecimento ou algum projeto, por vezes de cunho pessoal, que lhe diga respeito.

 

 

 

Dica Literária

LA CÉRAMIQUE CHINOISE – LE GUIDE DU CONNAISSEUR
Michel Beurdeley
Ed. Office du Livre, 1974

Um clássico com 318 páginas. Ricamente ilustrado com pranchas em cores e algumas ilustrações monocromáticas e texto em francês, cada capítulo começa com cronologia e termina com um catálogo. Neolítico; Shang-Yin; Zhou (Chou); Qin (Ch’in) e Han; Seis dinastias; Sui; Tang (T; ang) e cinco dinastias; Song (Sung) e Jin (Chin); Liao; Yuan mongol; Ming; Qing (Ch’ing); Export Ware; e porcelana do século XIX e início do século XX, todos os períodos estão compreendidos neste livro, com apêndices, bibliografia e índice. Inclui também desenhos, mapas e marcas. Um trabalho de referência raro com excelentes descrições de cada período. Muitos objetos das seções do catálogo foram reproduzidos neste trabalho pela primeira, e muitas vezes, pela última vez, principalmente os pertencentes a renomadas coleções francesas. Uma referência para profissionais da área, colecionadores e amantes da arte da cerâmica e porcelana

Edição em francês.

 

 

Antiguidades e obras de arte

José Márcio Viezzi Molfi é fundador da VM Escritório de Arte, antiquário clássico de São Paulo especializado na comercialização de obras de arte e antiguidades; pesquisa, catalogação, avaliação e gestão de acervos; consultoria em “art investment” para colecionadores e instituições públicas e privadas; realização de exposições e leilões de arte e antiguidades, e assessoria em serviços de restauração.

 

 

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