A coleção em questão foi reunida cuidadosamente privilegiando a qualidade, exclusividade e utilização das peças. Ela é uma aula sobre a história do Brasil. O texto aborda diversos temas como o Brasil do móvel colonial, os estilos, o móvel dito mineiro-goiano, as cópias e falsificações, as restaurações e as raríssimas miniaturas. Para viabilizar esse artigo, o Colecionador preparou um material contando um pouco da história do móvel colonial brasileiro, que de tão refinado, foi reproduzido na íntegra no decorrer do texto. Essas partes estão entre aspas e em itálico.

 

ENGLISH VERSION

 

Uma família de colecionadores

O Colecionador vem de uma família fascinada pelo colecionismo. Um dos seus avós tinha uma imensa coleção de peças brasileiras e europeias. No Brasil do início do século XX, dava-se pouca importância a produção de arte brasileira. Como exemplo, o Colecionador menciona uma passagem na qual o Barão do Rio Branco numa carta sua, durante um período em que trabalhou para o governo brasileiro na Inglaterra, ter ficado surpreso após uma equipe de pesquisadores ingleses, que estava organizando uma enciclopédia, lhe pedir ajuda para obter informações sobre a produção artística no Brasil. Até o começo do século XX, as elites intelectuais brasileiras achavam que a arte de qualidade era produzida somente no exterior.

 

O Colecionador esclarece que essa percepção mudou com a Semana da Arte Moderna de 1922, quando se despertou para o valor das expressões artísticas brasileiras como a arte sacra e o mobiliário colonial. Descobriu-se, por exemplo, o valor do Barroco Brasileiro, que por mais que tenha sido tardio, tinha personalidade própria.

 

Quando seu avô faleceu na década de 1950, este já possuía uma grande coleção de itens brasileiros. Seu pai herdou parte da coleção e lhe deu continuidade. Dono de um gosto ainda eclético, ele desenvolveu um fascínio especial por mobiliário. Seu pai passou a comprar tudo o que lhe chamava a atenção, desde que fosse de boa qualidade e bonito, como uma papeleira italiana, um armário holandês ou uma cadeira americana.

 

Outra influência incidente foi o seu tio mais velho, que sendo médico e colecionador, após um grave acidente, nos anos 60, que deixou profundas sequelas ficou impossibilitado de exercer a medicina e passou a ser antiquário, restaurador e colecionador. Com ele, o Colecionador pôde aprender ainda mais sobre antiguidades e preservação.

 

Com o falecimento de seu pai em 1988, coube a ele e a sua mãe dar continuidade a coleção. Com um acervo tão vasto, eles iniciaram a mudança de foco da coleção e se desfizeram de diversos itens, na sua maioria os europeus. Com morte de sua mãe em 2011, o Colecionador cuidou de finalizar a tarefa. Se desfez de praticamente tudo que era europeu, salvo alguns itens muito raros, e adquiriu algumas outras peças de notável raridade.

 

Surgia assim uma bela e exclusiva coleção brasiliana de mobiliário colonial e poucos objetos, onde se privilegiou a qualidade e a utilidade do mobiliário na própria casa, respeitando o espaço de conversação das peças.

 

 

O Brasil do móvel colonial

“O móvel colonial é basicamente aquele que foi produzido no lapso que compreende o início da colonização e a independência do Brasil, passando por diferentes fases evolutivas.

 

Também se faz necessário perceber que o móvel colonial, como objeto útil a guarnecer a casa, resulta fundamentalmente do núcleo urbano, sendo as peças ditas “de fazenda” manufaturadas no meio rural uma exceção e por isso mesmo, constata-se a existência de dois grupos básicos: o móvel urbano erudito e o móvel rústico.

 

Dos primórdios da colonização, por volta de 1560, até o fim do séc. XVII, as necessidades domésticas que envolviam o emprego de móveis raramente eram satisfeitas com uma peça que se possa dizer efetivamente de mobiliário. Razão pela qual adiante vamos nos concentrar no séc. XVIII e início do XIX. As casas eram paupérrimas no quesito. Isto porque não só a maioria da pequena população composta de homens livres era pobre, mas também porque muito da cultura indígena foi incorporada pelo colonizador. Foi assim o tempo em que o colono dormia nas redes ditas “carijó”, sentava-se em esteiras, servia-se de um girau, gamelas, potes de barro e o luxo, quando havia, resumia-se basicamente a uma mesa rústica que sustentava um oratório de igual fatura para abrigar a imagem do santo de devoção doméstica. Não podiam e nem se preocupavam com mais do que isto. Não existiam recursos para isto, nem necessidade estabelecida, pois a vida social era exterior, vinculada às festas religiosas e populares. Vale dizer, quase tudo era da porta para fora e ninguém recebia ninguém em casa. Exceções eram raras e restritas a um pequeno círculo de fazendeiros muito bem sucedidos, funcionários do governo colonial de alto escalão, civis e militares, e ao clero e ordens religiosas, que dispondo de maiores recursos tinham eventual acesso a produtos requintados que viessem de fora, basicamente de Portugal. Neste tempo o mobiliário importado era basicamente do estilo nacional português ( dito equivocadamente manuelino ), cujo inconfundível estilo se identifica pelas estruturas de grossos torneados em “bolachas” e bulbos.

 

Do final do séc. XVII até a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em 1808, o Brasil colonial passou por uma explosão demográfica. Em pouco mais de cem anos a população aumentou cerca de dez vezes e a razão para isto foi a descoberta de ouro e diamantes. Estima-se que só de Portugal vieram de 500 a 800 mil novos colonos entre 1700 e 1800. Quase 2 milhões de novos escravos foram trazidos para trabalhas nas minas e lavouras, e como resultado disto, o numero de pessoas que estimava-se de 300.000 habitantes no fim da centúria dos 700 saltou para mais de 3 milhões na virada para o séc. XIX! O Brasil ainda era um imenso território virgem e este número representa hoje menos de 2% da população atual. Os núcleos urbanos eram no mais das vezes litorâneos, com alguns situados no interior, tais como São Paulo, Minas, Mato Grosso e Goiás. Com o acúmulo de riquezas deste ciclo de ouro e diamantes e com o aumento da densidade demográfica, surgiu um poder aquisitivo que possibilitou a satisfação das necessidades domésticas noutro patamar de requinte, não só na colônia, mas também em Portugal. E tanto aqui ( por artífices que vieram ) como lá passaram a ser manufaturados em maior profusão, aproveitando as nobres madeiras que abundavam em nossas florestas, destacando-se entre elas o divino jacarandá em todas as suas sub espécies e também o cedro, o óleo vermelho e outras.”

 

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Meia cômoda D. José I em jacarandá, dois gavetões com puxadores em bronze. Rio de Janeiro, terceiro quartel do séc. XVIII

 

Os estilos do móvel colonial brasileiro

“Este período a que nos referimos corresponde aos seguintes reinados: D. João V, de 1706 a 1750; D. José I, de 1750 a 1777; D. Maria I, de 1777 a 1815, e D. João VI, de 1815 a 1822 ( termo final de seu reinado no Brasil ).

 

A cada um destes períodos corresponde um estilo que entrou em voga no reinado destes soberanos. E será pela análise do móvel e identificação de sua autenticidade e estilo que o observador concluirá a qual pertence.

 

O móvel D. João V tem forte influência inglesa. Apresenta características inconfundíveis tais como: pernas em cabriola, ditas em curva e contra curva, estrutura mais robusta, pesados puxadores em metal ou prata nas gavetas e cômodas, pés em garra e bola, conchas e volutas simétricas entalhadas, espaldar alto nas cadeiras, mesas de dois lados ( ditas de apresentação ) e algumas soluções torneadas, como nas pernas das mesas de cancela e mochos e nos vazados das camas de galeria.

 

O móvel D. José I, considerado o mais emblemático representante da marcenaria luso-brasileira tem forte influência rococó francesa. Sua estrutura em geral é menos robusta, também tem pernas em cabriola ( em geral mais elegantes ), seus pés variam dos mais simples ditos “pés de burro” aos mais elaborados com folhagens de acanto curtas ou longas ou enrolados como “papiros”. Seus puxadores são mais delicados e também em metal ou prata. A talha josefina é por vezes assimétrica. Abandona as conchas e concentra-se nos motivos vegetalistas, flores ( miosótis e margaridas ) e sobretudo folhagens  que ora se inclinam para um lado, ora para outro, alcançando um resultado plástico e movimentos algo sensuais.

 

O móvel D. Maria I representa uma guinada radical na concepção da trastaria luso-brasileira. De linguagem néo-clássica. Abandona as vergadas e inaugura as linhas retas sóbrias, sobretudo com pernas de seção quadrada que afinam em direção a extremidade. Abandona a talha e inaugura os embutidos, ditos marchetados. Sobretudo no Brasil assume uma concepção alegre e leve. Há dois tipos básicos. O dito D. Maria pobre, marcado pela simplicidade, e o D. Maria rica, que apresenta seus marchetados em filetes, folhas, flores e por vezes mais raramente pássaros. Seus puxadores são predominantemente de madeira torneada ( ditos em carrapeta ) com um ponto central em osso simulando marfim.

 

O móvel D. João VI é um desdobramento do móvel D. Maria I. Do ponto de vista estrutural tem as mesmas características retilíneas e no Brasil colonial desenvolveu uma linguagem própria ornamental que não encontra paralelo no mobiliário português. Lavrado geralmente em jacarandá escuro, raramente apresenta marchetados e quando os tem são em geral concebidos em faixas largas. Seus atributos decorativos mais frequentes são entalhes em forma de leques, de rosáceas, em “ponta de diamantes” e em colunetas torcidas como fumos de rolo. Seus puxadores, similares aos do período anterior são mais largos.

 

Um alerta importante. Estas características não são estanques. É possível encontrar móveis que do ponto de vista estrutural sejam de um período, com elementos decorativos do imediatamente anterior ou posterior. São os chamados móveis de transição, mais raros, que correspondem ao lapso intermediário entre abandonar uma linguagem e assimilar a que está entrando em voga. Assim, podemos nos deparar com uma mesa D. João V com típicos pés D. José ou uma mesa D. José I com machetados!”

 

 

Um capítulo à parte: o móvel dito mineiro-goiano

“Capítulo à parte na história do mobiliário colonial brasileiro é o móvel dito mineiro-goiano que não guarda nenhuma relação de estilo com os até aqui mencionados. Boa parte dos emigrados durante o século XVII vieram do norte de Portugal que era, como se sabe muito pobre e essencialmente rural. Basicamente mineradores, meteram-se no agreste da região em busca de ouro de aluvião e gemas preciosas. Não careciam de requinte e sim do básico para atender suas necessidades. Reproduziram com os meios existentes aquilo que conheciam, que era o móvel rural português de fatura retilínea, simples e prática. Assim e em suma, conceberam caixas, mesas cavalete de diferentes tamanhos, bancos longos e banquetas com assento de sola, catres, cadeiras tipo tesoura, armários, oratórios e estantes. De início mais rústicos e de grossa fatura, foram aos poucos alcançando alguma erudição. Como a talha era coisa muito complexa e as madeiras, principalmente o jacarandá, eram mais escassas neles a pintura surgiu como recurso decorativo, resultando daí alguns exemplares dignos de nota.”

 

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Mesa cavalete mineira em jacarandá e cedro, provavelmente de refeitório ou de irmandade, biface, com duas gavetas de um lado e simuladas no oposto com puxadores em carrapeta bulbóide. Minas Gerais, terceiro quartel do séc. XVIII

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Arca mineira em cedro e jacarandá, única que se conhece com pés de sino, tampo de abrir, ferragens em ferro forjado e batido. Consta do livro Arte Colonial, Mobiliário, Luiz Seraphico, Ed. das Américas, S.P., 1977, pág. 96, figura 117. Minas Gerais, terceiro quartel do séc. XVIII

 

A importância do móvel D. Maria I para a “popularização” do mobiliário

O móvel D. Maria I foi o móvel que popularizou ( onde o termo caiba ) a peça de mobiliário. Até então, encomendar um móvel, uma cadeira por exemplo, era extremamente caro. Curvas, contra curvas, talha, faziam o preço alcançar valores inacessíveis para os que não fossem ricos. Com suas linhas simples, retas, o processo de produção foi barateado. A classe média começou a adquirir com facilidade móveis para mobiliar suas casas, indo ao encontro dos novos padrões sociais burgueses, inaugurando um ambiente doméstico mais próximo do que conhecemos atualmente. O que antes não era possível com os móveis D. João V e D. José I, passou a sê-lo com o estilo D. Maria I.

 

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Marquesa D. Maria I, em jacarandá, dois gavetões na metade inferior com puxadores em carrapeta. Rio de Janeiro, primeiro quartel do séc. XIX

 

Os monarcas estabeleciam os estilos

Cada monarca português foi afetado por fatores econômicos e sociais que o levaram a criação de modismos, entre eles, o mobiliário. Os móveis desse período são associados aos monarcas pois estes iniciavam e incitavam a moda que era acompanhada pelo restante da nobreza. Com o nascimento de um novo padrão, ele passava a ser adotado por aqueles que podiam se dar a este luxo, demais nobres e burguesia.

 

 

O exercício do olhar

“Todo o dito até aqui é apenas uma ideia geral, sendo essencial a uma melhor compreensão que o interessado passe a exercitar o olhar. Museus, coleções e livros serão essenciais a formação do conhecimento. Dois livros, ainda que esgotados, são relativamente fáceis de encontrar em sebos e leilões e devem ser consultados: O Móvel no Brasil, Origens, Evolução e Características, de Tilde Canti e Arte Colonial, Mobiliário, de Luiz Seraphico.”

 

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Oratório policromado e mesa dita “doce de leite”, uma gaveta com puxadores torneados em bulbos. Minas Gerais, terceiro quartel do séc. XVIII em ambos os casos

 

Móvel feito no Brasil por portugueses ou por pessoas treinadas por portugueses

O Colecionador ressalta que nessa época, tanto Portugal quanto o Brasil eram focos de produção de mobiliário. Por mais que a maior parte do mobiliário brasileiro da época tenha sido produzido no Brasil, muitos móveis foram trazidos do exterior.

 

O porto do Rio de Janeiro era a encruzilhada do mundo, pois tudo passava por ele. Seu equivalente contemporâneo seria o Aeroporto de Frankfurt, na Alemanha. Esse movimento aumentou ainda mais após o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas assinado pelo regente D. João em 1808.

 

Com o dinheiro circulando, aumentou o fluxo de pessoas entre a metrópole e a colônia. Muitos profissionais portugueses como mestres santeiros, técnicos em construção civil, ebanistas e marceneiros, vieram para a colônia atrás de novas oportunidades. O móvel colonial brasileiro era feito por portugueses ou por pessoas treinadas por portugueses como aprendizes, filhos, sobrinhos, agregados e escravos.

 

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Grande cômoda D. Maria I, em jacarandá, três gavetas acima lado a lado e três gavetões sotopostos com puxadores torneados em carrapeta

 

O período pós móvel colonial brasileiro

A partir da independência surge o móvel imperial. Entre os reinados, no período regencial, o móvel brasileiro começa a se aproximar do móvel americano Duncan Phyfe. Era o tempo do móvel estilo regência, muito gracioso e por vezes de grande qualidade. A partir da segunda metade do segundo reinado, o móvel brasileiro passa por um período de decadência. A produção foi marcada por um resgate dos estilos anteriores, tendo como resultado um mobiliário de estilo eclético, pesado, muitas vezes feio, envernizado de preto, em geral de baixa qualidade de mão-de-obra e muita interferência da ferramenta mecânica.

 

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Escrivaninha D. Maria I em jacarandá, única que se conhece em formato de meia lua, três gavetas sotopostas sobre vão e duas portinholas de armarinho com puxadores torneados em carrapeta. Rio de Janeiro, final do séc. XVIII ao primeiro quartel do séc. XIX

 

A produção do móvel colonial brasileiro

O Colecionador destaca que não houve uma grande produção de mobiliário colonial brasileiro. Como já explicado, os escassos recursos de produção atendiam a demanda dos poucos que podiam pagar. O Colecionador cita, para ilustrar, os desenhos de Debret que retratavam as casas da época praticamente vazias.

 

Além da pouca quantidade produzida, na virada do século XVIII para o XIX, o gosto brasileiro se voltou para os móveis europeus, o que fez com o móvel colonial brasileiro passasse por um processo de forte desvalorização. Muitos desses requintados móveis passaram para as cozinhas ou para os fundos das casas e tiveram um destino fatídico. Abandonados às intempéries do tempo, viraram lenha, foram queimados ou simplesmente jogados no lixo. A quantidade, que já era pequena devido a limitada produção do século XVIII, diminuiu ainda mais.

 

 

O resgate e o início de um problema que perdura até hoje

“Uma advertência. Como no mundo das antiguidades e das artes tudo o que tem valor tem sido falsificado, no universo dos móveis não poderia ser diferente. A partir da Semana de Arte Moderna, de 1922, resgatamos a nossa identidade cultural e com este resgate também o mobiliário colonial brasileiro. Passou a ser nota de distinção cultural e ícone de status ter uma ou mais peças do período. Mas como bem pode imaginar o leitor, os séc. XVIII e XIX não produziram peças em número suficiente para a demanda que surgiu duzentos anos depois! Porém havia, e ainda há, uma indústria solícita a satisfazer esta demanda propondo desde monstruosos “mondrongos” ( falta palavra melhor ) realizados numa linha imaginária do que seria um móvel colonial, passando por peças de boa realização que à toda evidência não são de época porque simplesmente não existiam naquele formato ( Leandro Martins e Laubich Hirt, foram os mais produtivos ), até cópias muito bem feitas por hábeis marceneiros a partir de boas e antigas madeiras. Também existem adulterações, a partir de móveis antigos, cuja alteração consiste em “melhorias” tais como: acréscimos de talha, de marchetados, de puxadores em prata e etc. A tudo isto o interessado deve estar atento e preparado. E até que possa com autonomia  e segurança identificar estas trapaças o conselho é: consulte um especialista antes de comprar.”

 

O Colecionador enfatiza um cuidado especial que se deve ter com as cópias, principalmente as produzidas nas décadas de 1940 e 1950, feitas de forma a apresentar um desgaste supostamente natural causados por processos artificiais de envelhecimento. Os móveis recebiam banhos de soda e eram deixados expostos ao sol por algum tempo. Assim, se chega a grande pergunta: como distinguir um móvel colonial original produzido no século XVIII de uma cópia bem feita há 80, 70 anos atrás, de forma desgastada e envelhecida artificialmente?

 

A resposta do Colecionador é simples e complexa ao mesmo tempo: estudo, conhecimento, leitura especializada e Internet. Ele esclarece que o móvel colonial brasileiro não tinha um padrão 100% definido. Para poder adquirir uma peça com confiança é necessário fazer um diagnóstico com base na composição de elementos característicos; como técnicas de produção, proporções, talha e pátina. Segundo o Colecionador, um marceneiro típico dos séculos XVIII e XIX podia produzir móveis por 50 anos, alcançando um nível de especialização e um grau de excelência impossíveis de serem reproduzidos. Com relação à pátina, é preciso conhecê-la pois um tratamento químico bem feito consegue enganar 99% das pessoas.

 

O Colecionador destaca que existem outros problemas. O móvel D. Maria I tinha dois níveis de sofisticação: o D. Maria pobre, sem marchetados, e o D. Maria rica, exuberante no marchetado. Graças aos falsificadores, existem móveis D. Maria pobre que foram “convertidos” em D. Maria rica. E por mais que o móvel seja antigo, os detalhes de marchetaria não são originais.

 

Outro problema é a substituição de peças como os puxadores. Existem casos em que puxadores de bronze são propositalmente substituídos por outros puxadores, que mesmo sendo em prata, não pertencem ao móvel. O objetivo é valorizá-lo de forma artificial. Contudo, essa não é uma questão simples. Segundo o Colecionador, existem casos em que a substituição não foi feita com má fé. No final do século XVIII e início do XIX, os móveis coloniais brasileiros praticamente não tinham valor, mas os puxadores feitos em prata, sim. Assim, os puxadores eram retirados para serem vendidos, sendo substituídos pelos de bronze. Décadas depois, os puxadores de bronze foram novamente substituídos por cópias de prata que não pertenciam ao móvel. Nesse tipo de caso, as mudanças foram feitas com boa fé. O Colecionador lembra que os puxadores de prata originais são burilados, enquanto as cópias atualmente feitas são fundidas e quase sempre grosseiras.

 

O Colecionador chega a um nível de detalhe profundo. Por exemplo, ele esclarece que o jacarandá do litoral era mais claro que o jacarandá do interior. Na medida que o jacarandá do litoral ia sendo devastado, as pessoas tinham que seguir em direção ao interior para obter a madeira. É por isso que os móveis de jacarandá produzidos no século XIX são mais escuros que os produzidos no século XVIII.

 

 

Restaurações

O Colecionador não vê problemas na restauração de móveis coloniais. Ele considera que a vantagem é justamente a possibilidade de se colar uma peça que quebrou e de lixar e polir um arranhão. A questão é escolher um restaurador de confiança e que não provoque uma alteração substancial na peça. Com relação a recomposição de pedaços faltantes, o Colecionador possui duas observações. Caso falte um pedaço que tenha um correspondente no próprio móvel que sirva de parâmetro, ele não vê nenhum problema na confecção de um pedaço igual para recomposição. Exemplo: se faltar o pedaço de uma lateral, existe a outra lateral como referência. O problema passa a existir caso falte um pedaço que não tenha correspondente no móvel. Exemplo: uma voluta frontal. O Colecionador já deixou de comprar móveis originais devido a falta de pedaços significativos para os quais não havia referência no próprio móvel. Ele desaconselha esse tipo de recomposição, pois como não há parâmetro, a confecção do novo pedaço acaba caindo no campo da especulação.

 

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Mesa de encostar D. José I em jacarandá, duas gavetas com puxadores em prata. Rio de Janeiro, terceiro quartel do séc. XVIII

 

Um capítulo especial: as miniaturas do móvel colonial brasileiro

Se os móveis coloniais brasileiros do século XVIII são raros, as miniaturas então são raríssimas! O Colecionador explica que nos Século XVII e XVIII, não existiam fotografias, catálogos, material gráfico de propaganda. Então os ebanistas faziam miniaturas dos móveis que produziam para exibir aos potenciais compradores. Um ebanista montava em seu cavalo e puxava um burro com jacás de palhas onde estavam as miniaturas. Eles percorriam fazendas e seus entornos, mostrando as miniaturas dos móveis que produziam. Através das miniaturas, um ebanista mostrava seu grau de habilidade técnica e o nível do seu acabamento. Como eles precisavam fazer apenas uma miniatura de cada móvel, poucas foram feitas, e pouquíssimas chegaram aos dias atuais. Ele ressalta que antes de se descobrir que as miniaturas eram amostras, muito se especulou sobre a possibilidade delas serem brinquedos feitos para crianças.

 

 

Dentro desse universo, existem algumas miniaturas que foram concebidas para serem dessa forma, como as mini papeleiras que serviam como pequenos escritórios de viagem. Uma pessoa que trabalhasse com ouro ou pedras preciosas, por exemplo, viajava com a sua mini papeleira pelo interior de Minas Gerais, e em seus escaninhos guardava documentos, material de escrita, selos e tudo o mais que necessário ao registro de seus negócios. Assim como as miniaturas de mostruário, pouquíssimas mini papeleiras chegaram aos dias atuais, principalmente as de estilo D. José I.

 

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Mini papeleira ou escritório de viagem em cedro, tampo articulado de abrir, nove gavetinhas internas, sotopostas de três em três, e larga gaveta externa com puxadores torneados em carrapeta. Est. de Goiás, Pirenópolis ( antiga Meia-Ponte ) meados do séc. XVIII

 

O significado da coleção

O Colecionador vê sua coleção como um elemento de ligação com a história do Brasil, seus fatos econômicos e políticos. Ela o remete a uma série de reminiscências, de lembranças colhidas no decorrer de sua vida. Para ele, não há como ter uma coleção de antiguidades sem ter mobiliário, pois são os móveis que estruturam uma coleção, independente da cultura, e dão suporte físico e estético a outras coleções, v.g., imaginária, prataria, louça e etc.

 

Para o colecionador, sua coleção lhe possibilita a realização de sonhos, desejos e projetos. Ela o leva ao prazer da informação e do conhecimento. Ao prazer intelectual e visual. Ao momento de namoro, de admiração dos detalhes, de percepção da alma de cada um dos seus móveis. Sua coleção de móveis coloniais é uma forma de privilegiar o que é brasileiro, sua identidade e sua cultura.

 

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Grande oratório de salão D. José I, em cedro, laterais e porta vazadas e envidraçadas. Rio de janeiro, último quartel do séc. XVIII

 

 


A COLLECTION OF BRAZILIAN COLONIAL FURNITURE FROM THE 18TH CENTURY

This collection was carefully assembled giving priority to the quality, exclusivity and use of the furniture. It is a lesson about the history of Brazil. The text addresses several themes such as Brazil’s colonial furniture, styles, furniture so-called Mineiro-Goiano, copies and forgeries, restorations and the rare miniatures. In order to make this article viable, the Collector prepared a material telling a little of the history of the Brazilian colonial furniture, which was so refined, that was reproduced in full throughout the text. These parts are enclosed in quotation marks and in italics.

 

A family of collectors

The Collector comes from a family fascinated by collecting. One of his grandparents had an immense collection of Brazilian and European pieces. In the Brazil of the early 20th century, the production of Brazilian art was of little importance. As an example, the Collector mentions a passage in which the Baron of Rio Branco in his letter, during a period in which he worked for the Brazilian government in England, was surprised after a team of English researchers, which was organizing an encyclopedia, asked him for help to obtain information about the artistic production in Brazil. Until the beginning of the 20th century, Brazilian intellectual elites thought that quality art was produced only abroad.

 

The Collector clarifies that this perception changed with the Week of Modern Art of 1922, São Paulo, when happened a wake up for the value of Brazilian artistic expressions such as sacred art and colonial furniture. It was discovered, for example, the value of the Brazilian Baroque, which had its own personality, despite its later arise.

 

When his grandfather died in the 1950s, he already had a large collection of Brazilian items. His father inherited part of the collection and gave it continuity. Owner of an eclectic taste, he developed a special fascination for furniture. His father went on to buy everything that called his attention, as long as it was of good quality and beautiful, like an Italian desk, a Dutch cabinet, or an American chair.

 

Another influence was his older uncle. He was a doctor and collector who suffered a serious accident in the 1960s that left deep sequels. Unable to practice medicine, his uncle became an antique dealer, restorer and collector. With it, the Collector was able to learn even more about antiques and preservation.

 

With the death of his father in 1988, it was up to him and his mother to continue the collection. Having a vast collection, they began to change the focus and sold various items, mostly Europeans. With his mother’s death in 2011, the Collector took care of finalizing the task. He sold everything that was European, except some very rare items, and acquired some other pieces of remarkable rarity.

 

This was the begining of a beautiful and exclusive collection of colonial furniture and few objects, where the quality and usefulness of the furniture in the house was privileged, respecting the space of conversation between the pieces.

 

The Brazil of colonial furniture

“The colonial furniture was basically produced in the lapse that includes the beginning of the colonization and the independence of Brazil, going through different evolutionary phases.

 

It is also necessary to realize that the colonial furniture, as a useful object to garnish the house, is fundamentally the result of the urban  core. The so-called “farm” items, manufactured in the rural area, are an exception. For this reason, there are two basic groups: the erudite urban furniture and the rustic furniture.

 

From the beginnings of the colonization, around 1560, until the end of the 17th century, the domestic necessities that involved the use of furniture were rarely satisfied with a piece that can be effectively called furniture. Reason why we will concentrate on the 18th century and early 19th. The houses were poor in the matter. Not only because the majority of the small population, composed of free men, was poor, but also because much of the indigenous culture was incorporated by the colonizer. It was the time in which the settler slept in the hammock called “carijó”, sat on mats, used a girau (bed), gamelas (plates) and clay pots. The luxury, when there was, basically resembled a rustic table that held an oratory, equally rustic, to house the image of the saint of domestic devotion. They could not and did not care about more than this. There were no resources for this, nor an established need, since social life was external, linked to religious and popular festivals. Almost everything was outside the door and no one was receiving anyone at home. Exceptions were rare and restricted to a small circle of highly successful farmers, high-ranking colonial and civilian government officials, and the clergy and religious orders, who, with more resources, had access to exquisite products from abroad, basically from Portugal. At this time, the imported furniture was basically from Portugal (wrongly called Manueline), whose unmistakable style is identified by the structures of thick turned in “crackers” and bulbs.

 

From the end of the 17th century until the arrival of the Portuguese court in Brazil, in 1808, colonial Brazil went through a demographic explosion. In a little over a hundred years, the population had increased by about ten times and the reason for this was the discovery of gold and diamonds. It is estimated that only from Portugal came from 500 to 800 thousand new settlers between 1700 and 1800. Almost 2 million new slaves were brought to work in the mines and crops, and as a result of this, the number of people estimated to be 300,000 inhabitants at the end of the 17th century jumped to more than 3 million at the turn of the 19th century! Brazil was still an immense virgin territory and today this number represents less than 2% of the current population. The urban core were mostly coastal, with some located in the interior, such as São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso and Goiás. With the accumulation of riches of the gold and diamond cycle and with the increase in population density, a power emerged, which made possible to satisfy domestic needs at another level of refinement, not only in the colony, but also in Portugal. And so much here, by craftsmen who came, and there, the furniture started to be manufactured in greater profusion, taking advantage of the noble woods that abounded in our forests, standing out among them the divine jacaranda in all its sub species and also the cedar, the oil red and others.”

 

The styles of the Brazilian colonial furniture

“This period to which we refer corresponds to the following reigns: D. João V, from 1706 to 1750; D. José I, from 1750 to 1777; D. Maria I, from 1777 to 1815, and D. João VI, from 1815 to 1822 (the final term of his reign in Brazil).

 

Each of these periods corresponds to a style that came into vogue in the reign of these sovereigns. And it will be by analyzing the furniture and identifying its authenticity and style that the observer will conclude to which it belongs.

 

The D. João V furniture has a strong English influence. It has unmistakable features such as: curved legs, sturdier structure, metal or silver heavy handles in drawers and dressers, claw and ball feet, symmetrical carved shells and scrolls, high backrests in chairs, two-sided tables (so-called presentation) and some turned solutions, such as on the legs of the cantilever table and benchs and in the gallery beds.

 

The furniture D. José I, considered the most emblematic representative of the Luso-Brazilian woodwork has strong French rococo influence. Its structure is generally less robust, also has turned legs (usually more elegant), its feet vary from the simplest “donkey feet” to the most elaborate with short or long acanthus foliage or curled like “papyrus”. Its handles are more delicate and also in metal or silver. The Josephine carving is sometimes asymmetrical. It leaves the shells and concentrates on the vegetal motifs, flowers (myosotis and daisies) and especially foliages that sometimes lean towards one side, sometimes for another, reaching a plastic result and some sensual movements.

 

The mobile D. Maria I represents a radical turn in the conception of the Portuguese-Brazilian trait. From Neo-classical language. It abandons the bents and inaugurates the sober straight lines, especially with legs of square section that thin towards the end. Leave the carving and inaugurate the built-in, said marquetries. Above all in Brazil, it assumes a light and cheerful conception. There are two basic types. The said D. Maria poor, marked by simplicity, and D. Maria rich, which presents its marquetry in fillets, leaves, flowers and sometimes more rarely birds. Its handles are predominantly of turned wood (said in carrapeta) with a central point in bone simulating ivory.

 

The furniture D. João VI is an unfolding of the D. Maria I furniture. From the structural point of view it has the same rectilinear characteristics and in colonial Brazil it developed a proper ornamental language that does not have parallel in Portuguese furniture. Generally drained in dark rosewood, it rarely presents marquetry, and when it has, they are usually designed in wide bands. Its most frequent decorative attributes are fan-shaped carvings, rosettes, “diamond tips” and twisted columns like roller fumes. Its handles, similar to those of the previous period, are wider.

 

An important alert. It is possible to find furniture that, from a structural point of view, is from a period, with decorative elements of the immediately previous or later. They are the so-called transitional furniture, rarer, that correspond to the intermediate lapse between abandoning a language and assimilating the one that is coming into vogue. So we can come across a D. João V table with typical D. José I feet or a D. José I table with marquetries! “

 

A chapter apart: the furniture so-called Mineiro-Goiano

“Chapter apart is the furniture so-called Mineiro-Goiano that has no relationship of style with those hitherto mentioned. A good part of the emigres during the 17th century came from the north of Portugal which was, as it is known, very poor and essentially rural. Basically miners, they went into the wilderness of the region in search of alluvial gold and precious gems. They did not miss the refinement but the basics to meet their needs. They reproduced with the existing means what they knew, which was the straightforward, simple and practical Portuguese rural furniture. So, in short, they designed boxes, easel tables of different sizes, long benches and stools with sole seats, cots, scissor chairs, cabinets, oratories and shelves. At first more rustic, they gradually reached some erudition. As the carving was very complex and the woods, especially the jacaranda, were scarcer, the painting appeared as a decorative resource, resulting therefrom some noteworthy specimens.”

 

The importance of the furniture D. Maria I for the “popularization” of furniture

The furniture D. Maria I popularized (where the term fits) the piece of furniture. Until then, ordering a furniture, a chair for example, was extremely expensive. Features as curves, against curves and carving, made the price reach values ​​inaccessible to those who were not rich. With its simple and straight lines, the production process got cheaper. The middle class began to acquire furniture easily to furnish their homes, meeting the new bourgeois social standards, opening a domestic environment closer to what we know today. What was previously not possible, with the furniture D. Joao V and D. José I, became with the D. Maria I style.

 

Monarchs established styles

Each Portuguese monarch was affected by economic and social factors that led him to create fads, among them, furniture. The furniture of this period is associated with the monarchs as they began and incited the fashion that was accompanied by the rest of the nobility. With the birth of a new standard, it was adopted by those who could afford this luxury, other nobles and bourgeoisie.

 

The exercise of the look

“Everything said so far is just a general idea, and it is essential to a better understanding that the interested person starts to exercise the look. Museums, collections and books will be essential to the formation of knowledge. Two books, although sold-out, are relatively easy to find in antique libraries and auctions, and should be consulted: The Furniture in Brazil, Origins, Evolution and Characteristics, by Tilde Canti and Colonial Art, Furniture by Luiz Seraphico.

 

Furniture made in Brazil by Portuguese or by people trained by Portuguese

The Collector points out that at that time, both Portugal and Brazil were focus of furniture production. Although most of the Brazilian furniture of the time was produced in Brazil, many furniture was brought from abroad.

 

The port of Rio de Janeiro was the crossroads of the world, because everything passed through it. Its contemporary equivalent would be Frankfurt Airport, in Germany. This movement increased even more after the Decree of Opening of the Ports to the Friendly Nations signed by the regent D. João in 1808.

 

With money circulating, the flow of people between the metropolis and the colony increased. Many Portuguese professionals such as wood sculptors, construction technicians, cabinetmakers and carpenters, came to the colony behind new opportunities. The Brazilian colonial furniture was made by Portuguese or by people trained by Portuguese as apprentices, children, nephews, clans and slaves.

 

After the Brazilian colonial furniture

After the independence, comes the imperial furniture. Between the reigns, in the regencial period, the Brazilian furniture begins to approach the American furniture Duncan Phyfe. It was the time of regency style furniture, very graceful and sometimes of great quality. From the second half of the second reign, the Brazilian furniture goes through a period of decay. The production was marked by a rescue of the previous styles, resulting in an eclectic style, heavy, often ugly, black varnished, generally of poor quality of workmanship and much interference of the mechanical tool.

 

The production of the Brazilian colonial furniture

The Collector highlights that there was not a great production of Brazilian colonial furniture. As already explained, the scarce production resources met the demand of the few who could afford it. The Collector cites, to illustrate, Debret’s drawings depicting the virtually empty houses of the time.

 

In addition to the small amount produced, at the turn of the 18th century to the 19th, Brazilian taste turned to European furniture, which made the Brazilian colonial furniture undergo a process of strong devaluation. Many of these exquisite furniture went into the kitchens or back of the houses, and had a fateful fate. Abandoned to the weather, they turned to firewood, were burned or simply dumped in the trash. The quantity, which was already small due to the limited production of the 18th century, declined further.

 

The rescue and the beginning of a problem that lasts until today

“A warning. As in the world of antiques and arts where all that has value has been forged, in the universe of furniture could not be different. From the Modern Art Week of 1922, we rescued our cultural identity, and with this rescue, also the Brazilian colonial furniture. It became cultural distinction and status icon to have one or more pieces of this kind of furniture. But as the reader can well imagine, the 18th and 19th centuries did not produce enough pieces for the demand that appeared two hundred years later! But there was, and still is, a skilled industry to satisfy this demand by proposing from monstrous furnitures, in an imaginary line of what would be a colonial furniture, passing through pieces of good performance that are evidently not of the period because they simply did not exist in that format (Leandro Martins and Laubich Hirt, were the most productive), to copies very well made by skilled woodworkers from good old woods. There are also adulterations of old furniture, whose alteration consists of “improvements” such as: carving additions, marquetry, silver handles and so on. To all this, the interested must be attentive and prepared. And until you can autonomously and safely identify these scams, the advice is: consult a specialist before buying. “

 

The Collector emphasizes a special care that must be taken with copies, especially those produced in the 1940s and 1950s, made in order to present a supposedly natural wear caused by artificial processes of aging. The furnishings were bathed in soda and left exposed for some time in the sun. So, the question arises: how to distinguish an original colonial furniture produced in the 18th century from a copy well made 80, 70 years ago, in a worn and artificially aged form?

 

The Collector’s response is simple and complex at the same time: study, knowledge, specialized reading and the Internet. He clarifies that the Brazilian colonial furniture did not have a 100% definite standard. In order to be able to purchase a part with confidence it is necessary to make a diagnosis based on the composition of characteristic elements; such as production techniques, proportions, carving and patina. According to the Collector, a typical cabinet maker from the 18th and 19th centuries could produce furniture for 50 years, achieving a level of expertise and a degree of excellence impossible to reproduce. With regard to patina, it is necessary to know it because a well-done chemical treatment can deceive 99% of the people.

 

The Collector notes that there are other problems. The furniture D. Maria I had two levels of sophistication: D. Maria poor, without marquetry, and D. Maria rich, luxuriant in the marquetry. Thanks to the counterfeiters, there are furniture D. Maria poor that were “converted” into D. Maria Rich. And although the furniture is old, the details of marquetry are not original.

 

Another problem is the replacement of parts like the handles. There are cases where bronze handles are purposely replaced by other handles, which even being in silver, do not belong to the furniture. The goal is to value it artificially. However, this is not a simple matter. According to the Collector, there are cases where the substitution was not made in bad faith. In the late 18th and early 19th centuries, Brazilian colonial furniture was practically worthless, but the silver handles, not. Thus, the handles were withdrawn to be sold, being replaced by the bronze. Decades later, the bronze handles were again replaced with silver copies that did not belong to the furniture. In such cases, the changes were made in good faith. The Collector remembers that the original silver handles are carved, while the copies currently made are fused and almost always rude.

 

The Collector comes to a deep level of detail. For example, he clarifies that the jacaranda from the coast was lighter than the jacaranda from the interior. As the shoreline jacaranda was being devastated, people had to follow inland to get the wood. That is why jacaranda furniture produced in the 19th century is darker than those produced in the 18th century.

 

Restorations

The Collector sees no problems in restoring colonial furniture. He considers that the advantage is precisely the possibility of sticking a broken piece and sanding and polishing a scratch. The point is to choose a reliable restorer that does not cause a substantial change in the part. With respect to the recomposition of missing pieces, the Collector has two observations. If there is a missing piece that has a correspondent in the furniture, that serves as a parameter, he does not see any problem in the making of an equal piece for recomposition. Example: If the piece is missing from one side, there is the other side as a reference. The problem happens if there is a missing piece with no correspondent. Example: a front volute. The Collector has already avoided to buy an original furniture due to the lack of significant pieces for which there was no reference in the furniture itself. He advises against this kind of recomposition, because as there is no parameter, the confection of the new piece ends up falling in the field of speculation.

 

A special chapter: the miniatures of the Brazilian colonial furniture

If the Brazilian colonial furniture of the 18th century is rare, then the miniatures are very rare! The Collector explains that in the 17th and 18th centuries, there were no photographs, catalogs, propaganda graphic material. So the cabinetmakers would make miniatures of the furniture they produced to display to potential buyers. A cabinetmaker rode on his horse and pulled a donkey with jacas (baskets) of straw to carry the miniatures. They went through farms and their surroundings, showing the miniatures of the furniture they produced. Through the miniatures, a cabinetmaker showed his degree of technical skill and the level of his finish. Since they needed to make only one miniature of each piece of furniture, few were made, and very few have reached the present day. He points out that before it was discovered that the miniatures were samples, much was speculated about the possibility of them being toys made for children.

 

Within this universe, there are some miniatures that have been designed to be that way, like the mini desks that served as small travel offices. A person who worked with gold or precious stones, for example, traveled with his mini desk through the interior of Minas Gerais, and kept in his bins documents, writing material, stamps, and everything else that was necessary to register his business. Like the miniature samples, very few mini desks have reached to this day, especially those of D. José I style.

 

The meaning of the collection

The Collector sees his collection as an element of connection with the history of Brazil, its economic and political facts. It reminds him of a series of reminiscences, of recollections collected in the course of his life. For him, there is no way to have a collection of antiques without having furniture, since it is the furniture that structures a collection, independent of the culture, and give physical and aesthetic support to other collections, eg, imagery, silverware, crockery and so on.

 

For the collector, his collection enables him to achieve dreams, desires and projects. It takes you to the pleasure of information and knowledge. To intellectual and visual pleasure. At the moment of dating, admiration of details, perception of the soul of each of its furniture. His collection of colonial furniture is a way of giving priority to what is Brazilian, its identity and its culture.