A coleção de bonecas antigas em questão vem sendo formada com dedicação desde o final da década de 1950. Com o tempo, o olhar da Colecionadora foi sendo aprimorado. Com pouquíssimas exceções, a coleção é constituída por bonecas e objetos fabricados até 1930.

 

A Colecionadora

A Colecionadora nasceu após o fim da Segunda Guerra Mundial, na cidade polonesa de Kety, perto de Cracóvia, cidade que possui uma forte tradição em bonecas, refletida até mesmo no seu hino.

Ela cresceu em meio ao processo de reconstrução do país já sob influência soviética. O período era difícil, mas isso não a impediu de ver beleza nas coisas. Ainda criança, a Colecionadora costumava pedir a sua mãe para que comprasse os quadros que lhe chamavam a atenção. Ela também se lembra de um lindo espelho, enorme e com anjos dourados, que ocupava uma parede de um consultório médico. A Colecionadora se consultou com este médico até os 10 anos, quando partiu junto com seus pais em direção ao Brasil, e até o final, ela pediu para que sua mãe comprasse o espelho.

Sua mãe gostava de colecionar pequenos objetos como frascos de perfumes, lenços bordados e bolsas. Ela também gostava de levar sua filha nas visitas aos antiquários. Neles, as duas faziam um acordo: se a Colecionadora se comportasse, sua mãe lhe compraria um brinquedo do antiquário. Ela também costumava acompanhar seu pai, dentista, em atendimentos domiciliares. Algumas vezes, ela se deparou com belíssimos objetos em casas extremamente simples. Foi assim que ela aprendeu o que eram os espólios de guerra.

Na Polônia do Pós-Guerra, sua casa na verdade era um cômodo, situação comum naquele tempo. A Colecionadora não brincava com as suas bonecas. Elas eram guardadas de forma a serem apreciadas. As brincadeiras envolviam principalmente um urso, que muito lhe marcou a memória. Sua infância também foi marcada por uma casa de bonecas feita em madeira e pintada de rosa, chamada Villa Anne Elize, que ficava na cidade de Gogolin, onde ela e sua mãe passavam as férias.

 

A vinda para o Brasil e a importância do Rio de Janeiro

Em 1957, sua família partiu de Kety em direção a São Paulo. Durante uma parada em Bruxelas, a Colecionadora comprou uma boneca de US$ 1,00 que foi o início de sua coleção.

Em São Paulo, ela começou a comprar bonecas contemporâneas fabricadas pela Estrela. Na época, os antiquários de São Paulo não davam destaque às bonecas antigas. No final da década de 1970, a Colecionadora se mudou para o Rio de Janeiro. Desde o início, ela passou a frequentar a Feira de Antiguidades do Albamar, próximo a Praça XV. Na Feira, a Colecionadora começou a conhecer pessoas que trabalhavam e colecionavam bonecas antigas, passando a se interessar pelo assunto. Ela teve a oportunidade de comprar uma biblioteca específica sobre o tema de outra colecionadora. A partir desse momento, ela passou a aprimorar o seu olhar, focando na qualidade, e não na quantidade.

 

O Blue Book, a Bíblia das bonecas antigas

De todos os livros que leu, a Colecionadora considera o mais importante o Blue Book, Dolls & Values de Jan Foulke, publicado desde o início da década de 1970. O livro, que é referência de mercado, está no seu 16º volume e traz informações sobre centenas de bonecas, as quais a autora teve acesso, como marcas, qualidade, condições, partes, roupas, idade, tamanho, disponibilidade, popularidade, desejabilidade, apelo visual, originalidade e raridade. O livro também relaciona referências de valores que estão sendo praticados pelo mercado.

Esse livro foi a base para que a Colecionadora partisse em busca de bonecas exclusivas como as Bru, Jumeau e Steiner.

 

A Colecionadora não restaura suas bonecas

A Colecionadora não restaura e não compra bonecas restauradas. Ela esclarece que as restaurações desvalorizam a boneca, a não ser que seja uma preciosidade. É por isso que existe um mercado, nos Estados Unidos e na Europa, para partes de bonecas onde um colecionador pode comprar cabeças, perucas, troncos, braços e pernas. As partes podem ser utilizadas para formar uma nova boneca, uma vez que se tenha as partes correspondentes, ou para substituir uma parte danificada de uma boneca já montada.

Toda vez que a Colecionadora se depara com uma boneca que pode ser adquirida, ela tira a peruca para analisar o interior da cabeça para detectar danos ou restauros. Para uma pessoa sem a mesma experiência, ela sugere que se utilize uma luz de infravermelho para se certificar que a boneca não foi restaurada ou danificada.

A Colecionadora salienta que não se pode esquecer que as bonecas passaram pelas mãos de crianças.

 

Roupas e Sapatos

A Colecionadora ressalta que é muito difícil que roupas e sapatos sobrevivam a passagem do tempo, principalmente num país com o clima do Brasil. Ela recomenda que se mantenha as roupas originais de uma boneca, mesmo que elas não estejam em boas condições.

Como na maior parte dos casos as bonecas não possuem roupas ou sapatos, pode-se providenciar roupas novas, desde que coerentes com a boneca. No exterior, os colecionadores tentam comprar roupas originais em separado ou providenciam roupas iguais às originais. Da mesma forma que existe um mercado para as partes, existe um mercado para as roupas e sapatos, novamente, nos Estados e na Europa.

A Colecionadora destaca que as bonecas antigas passavam por duas ou três gerações de uma mesma família. Nesse processo, era comum que as crianças tirassem as roupas e sapatos, cabendo as mães guardá-los posteriormente. Muitos desses itens foram esquecidos em sótãos e somente descobertos décadas depois.

A Colecionadora esclarece que o fato de uma boneca ter as roupas e sapatos originais influencia no seu valor, mas o que vale mesmo é a boneca e seu estado.

 

As falsificações de bonecas antigas

A Colecionadora alerta para o perigo das falsificações de bonecas antigas. Como exemplo, ela cita que as bonecas que foram fabricas pela De Bruder Heubach sofreram uma desvalorização nos últimos anos devido a dificuldade de se conseguir distinguir uma boneca original de uma falsificada. Nesse caso, a colecionadora ressalta que diante de sofisticadas falsificações, somente há duas formas de detectá-las: pelo peso, que as falsificadas ainda não conseguiram igualar, ou pela textura. Mas para isso é necessário ter a experiência que somente se acumula com muitos anos de colecionismo.

 

Para colecionar é necessário conhecer uma boneca antiga

A Colecionadora ressalta que os principais fabricantes de bonecas foram os alemães e os franceses. Para colecionar, é necessário conhecer os detalhes das bonecas como as informações que vem na nuca referentes a tamanho, onde foi fabricada, para qual mercado foi fabricada e ano de fabricação; distinguir as articulações dos braços utilizadas nas bonecas alemãs e francesas; a abertura da cabeça para encaixe da peruca, tendo-se ciência de que, em geral, as bonecas-meninas eram abertas para o encaixe da peruca, havendo distinção na inclinação da abertura entre as bonecas francesas e alemãs, e que as bonecas-meninos, muitas vezes, eram fechadas pois o cabelo era moldado. Esses detalhes influenciam, por exemplo, na remontagem e na substituição de partes de uma boneca antiga.

 

As casas de bonecas

Desde a sua infância, a Colecionadora nutre um especial fascínio por casas de bonecas. Sua residência possui diversas casas e ambientes com diferentes temas.

Ela mantêm até hoje a primeira casa que comprou no final da década de 1950, após a chegada de sua família ao Brasil. Sua referência para o colecionismo de casa de bonecas foi o livro Mansions in Miniature, Four Centuries of Doll’s Houses, escrito por Leonie von Wilckens. Após ler o livro, a Colecionadora fez uma viagem à Europa apenas para ver casas de bonecas, visitando lugares como o Museu Rijks (Rijksmuseum) em Amsterdan, Holanda, e o Museu Nacional Germânico (Germanisches Nationalmuseum) em Nuremberg, Alemanha, entre outros.

Posteriormente, a Colecionadora encontrou dois livros sobre as casas de bonecas feitas pelo fabricante alemão Moritz Gottschlak. São eles: The Genius of Moritz Gottschlak e Moritz Gottschlak, 1892-1931. Através desses livros, ela pôde confirmar que duas de suas casas e alguns dos móveis que possuía, haviam sido feitos pelo fabricante alemão.

 

Uma bela coleção não precisa ser imensa e cara

A Colecionadora esclarece que uma bela coleção de bonecas antigas não precisa ser necessariamente imensa e cara. Ela menciona o caso de uma colecionadora que decidiu formar uma coleção de todos os tamanhos de determinados tipos de bonecas dos tradicionais fabricantes alemães Simon & Halbig e Kämmer & Reinhardt. Para isso, ela escolheu bonecas standard, um tipo de segunda linha dos fabricantes mencionados. A coleção completa ficou belíssima.

 

O colecionismo de bonecas antigas no Brasil

Segundo a Colecionadora, o colecionismo de bonecas no Brasil sempre foi restrito a um grupo pequeno de pessoas, ao contrário dos Estados Unidos e Europa. Ela se recorda de um movimento de enxugamento de mercado que aconteceu há muitos anos quando um estrangeiro veio ao Rio de Janeiro especificamente para comprar bonecas antigas, inclusive partes, para serem levadas ao exterior e revendidas.

 

O futuro da coleção

A Colecionadora não se preocupa com o futuro de sua coleção, formada com dedicação desde o final da década de 1950. Para ela, da mesma forma que as bonecas chegaram as suas mãos, as bonecas seguirão seus caminhos.

A Colecionadora se vê apenas como um elo entre o passado e o futuro.

 

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Três bonecas antigas francesas da coleção. Da esquerda para direita: Jumeau, Bru (Bebé Teteur) e Steiner. A Jumeau fabricou bonecas de 1842 a 1900. A Bru de 1878 a 1898. A Steiner de 1855 a 1908

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Bonecas alemãs com temas orientais. As bonecas foram feitas por diversos fabricantes

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Coleção de Figuras Pagoda/Noddig. Algumas dessas figuras foram feitos no século XVIII. Na última prateleira (de cima para baixo), as três figuras da esquerda para direita são de Porcelana Meissen. As figuras Pagoda/Noddig são caracterizadas por movimentarem a cabeça, as mãos e a língua.

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http://www.janfoulke.com/

https://www.rijksmuseum.nl/

https://www.gnm.de/