A coleção de militaria em questão é uma das maiores e mais diversificadas do Brasil. Ela vem sendo formada há mais de 30 anos com dedicação e paixão. Há alguns anos, o colecionador passou a formar uma coleção dedicada à Revolução Constitucionalista de 1932 que possui diversos itens como documentos, fotografias, cartofilia, numismática e filatelia.

 

O Colecionador

O Colecionador nasceu em um hospital que pertenceu a Força Pública de São Paulo, atualmente sob responsabilidade da Polícia Militar do Estado. Um dos seus avós serviu à mesma Força tendo trabalhado por muito tempo no Palácio dos Campos Elíseos, sede do Governo Paulista até 1965. Desde pequeno, o Colecionador gostava de brincadeiras com temas militares e via a série de TV “Combat” estrelada por Vic Morrow, produzida nos Estados Unidos de 1962 a 1967 e exibida no Brasil pelas TVs Excelsior e Record. Em 1959, quando a Marinha Brasileira comprou o Porta-Aviões Minas Gerais (A-11), o Colecionador fez uma réplica inspirada na embarcação. Na juventude, um dos documentários que mais lhe marcou foi Memórias da Segunda Guerra Mundial de Winston Churchill, exibido na época pela TV Cultura de São Paulo.

Para o Colecionador, a história sempre teve uma dimensão diferenciada. Há muitos anos, ele  teve que organizar os documentos de sua família para obter o Passaporte da Comunidade Européia. O que para muitos seria um processo burocrático, para ele foi um processo de descobertas. O Colecionador precisava do documento de casamento do seu bisavô, que havia chegado ao Brasil ainda no tempo do Império. Primeiro, ele fez a busca na igreja onde seu bisavô teria casado, sem sucesso. Teve então que recorrer a Cúria para tentar encontrá-lo, o que de fato aconteceu. O Colecionador ficou emocionado quando pôde ver pela primeira vez o documento com as assinaturas do seu bisavô e de sua bisavó, além dos padrinhos. No decorrer desse processo, ele descobriu que uma tia havia guardado o diário do seu bisavô, escrito em português e na língua nativa, com as informações de que ele havia chegado ao Brasil em 1876 e que havia sido mascate de roupas no interior de São Paulo.

 

Os primeiros itens da coleção

O primeiro item de sua coleção foi dado por sua mãe. Tratava-se do broche com número de registro do Exército Brasileiro que havia pertencido ao seu pai.

Passaram-se alguns anos para que o Colecionador adquirisse o segundo item. Em meados da Década de 1980, após uma visita a Sociedade Veteranos de 32-MMDC, o Colecionador adquiriu um capacete da Revolução Constitucionalista de 1932.

 

Estados Unidos, o ambiente perfeito para o desenvolvimento de uma coleção de militaria

No começo da Década de 1990, o Colecionador se mudou para os Estados Unidos. Lá, ele se deparou com uma nova realidade. Além da valorização da história, os americanos possuem um mercado extremamente organizado e sofisticado. Ao contrário do Brasil, onde os eventos são genéricos, nos Estados Unidos os eventos são organizados por tema como Guerra Civil Americana, Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, Guerra da Coréia e Guerra do Vietnã.

Acompanhado de sua família, o Colecionador visitou museus e eventos onde se reencenavam batalhas e acampamentos. As pessoas se vestiam com uniformes de diversos países, inclusive dos que lutaram contra os Estados Unidos. Percebeu que as pessoas queriam apenas resgatar a história, sem haver brigas ou discussões inúteis. Deparou-se com feiras em que se vendia absolutamente tudo o que se podia imaginar. Em uma delas, viu o uniforme original de Erwin Rommel, um dos mais destacados Generais Alemães da Segunda Guerra Mundial.

Foi nos Estados Unidos que o Colecionador comprou o terceiro item de sua coleção: um capacete da Força Aérea Alemã, a Luftwaffe. A partir de então, não parou mais. Numa primeira fase, focou em capacetes pois a falsificação é mais difícil. Passou a diversificar sua coleção com a compra de quepes, bibicos, baionetas, bandeiras, botons e medalhas. Com relação as medalhas, o Colecionador foi extremamente cuidadoso por causa das falsificações. Buscava informações em livros, sendo um deles em japonês.

 

A Manion’s International Auction House

O Colecionador destaca a importância da empresa americana Manion’s International Auction House, Inc. Fundada no início da Década de 1970, a Manion’s organizava leilões de itens militares. Seus impecáveis catálogos eram referência de mercado. Mensalmente, a Manion’s fazia quatro catálogos: itens americanos, itens alemães, itens japoneses e itens de outros paises. Em um dos catálogos de itens alemães, o Colecionador viu uma máquina Enigma à venda. Se naquela época a máquina já era cara, hoje o preço é proibitivo. Ele fez uma coleção dos catálogos que recebeu. Cabe ressaltar que a Manion’s não existe mais.

 

A coleção de capacetes depois do retorno ao Brasil

Quando retornou ao Brasil depois de alguns anos, o Colecionador tinha capacetes da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, da Guerra do Vietnã e da Guerra do Golfo, das nacionalidades americana, alemã, inglesa, italiana, soviética, japonesa, vietnamita e iraquiana. Com relação a Guerra do Golfo (1990/1991), o Colecionador possui um capacete americano e um capacete iraquiano. O capacete americano era o PASGT (Personnel Armor System for Ground Troops) cuja casca era feita de 19 camadas de Kevlar. Esse capacete substituiu o mítico capacete M1 que foi utilizado pelos americanos na Segunda Guerra Mundial, na Guerra da Coréia e na Guerra do Vietnã. Já o capacete iraquiano era feito de fibra (polietileno), o que mostra como o Exército do Iraque estava mal equipado para enfrentar a coalizão liderada pelos Estados Unidos.

 

Observações que só um colecionador pode fazer

Nos Estados Unidos, o Colecionador pôde ver como é difícil comprar itens japoneses. Segundo ele, por mais que o tempo tenha passado, os americanos ainda não assimilaram o ataque japonês a Pearl Harbor ocorrido em Dezembro de 1941. Por causa disso, os itens japoneses são extremamente procurados no mercado americano. Outro problema é que o material japonês não era de boa qualidade, o que comprometeu o estado de conservação de muitos itens. Ele cita, por exemplo, que um capacete japonês da Segunda Guerra Mundial tem qualidade inferior a um capacete alemão da Primeira Guerra Mundial. Além disso, a quantidade de itens disponíveis é pequena, pois a quantidade de combatentes japoneses era menor que a quantidade de combatentes alemães. Segundo o Colecionador, o mercado brasileiro demanda itens americanos e alemães, não havendo demanda por itens italianos e japoneses. Com relação aos itens soviéticos, o Colecionador salienta que muitos itens não saíram da União Soviética pois foram destruídos pelos próprios soviéticos. Além disso, após o fim da URSS em 1991, a Rússia seguiu proibindo escavações.

 

As peças passam a procurar o colecionador

Depois do seu retorno ao Brasil, o Colecionador diminuiu o ritmo de suas aquisições, mas continuou a manter contato com vendedores localizados nos Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. Aumentou também o círculo de conhecidos no Brasil. Sem se afastar do mercado, o Colecionador continuou a receber ofertas. Ele destaca que a partir de um momento, as peças passam a procurar um colecionador.

 

Negociação física x Negociação na Internet

No final da Década de 1990, o Colecionador voltou a adquirir itens para sua coleção. Naquele momento, a internet começava a ganhar força, o que potencializou os contatos. Ele destaca que por mais que a Internet tenha facilitado o acesso, a negociação através da rede é fria. O Colecionador prefere a negociação física onde se pode ver a peça, senti-la, analisá-la, poder conversar com o vendedor, principalmente se ele conhece de fato sua história. Como exemplo, ele cita quando esteve em Montevidéu há alguns anos. O Colecionador visitou um antiquário clássico que não parecia ter itens militares e perguntou se havia alguma coisa do couraçado alemão Graff Spee. Depois que o antiquário lhe mostrou duas moedas da cantina do navio, eles passaram horas conversando e o Colecionador adquiriu os dois itens. O couraçado Graff Spee foi afundado por sua própria tripulação em Dezembro de 1939, próximo a Montevidéu, após se envolver na Batalha do Rio da Prata contra os cruzadores ingleses Exeter e Ajax, e o cruzador neozelandes Achilles.

 

A diversificação da coleção ganha força

Com o tempo, o Colecionador começou a colecionar numismática de períodos de guerra. Seu primeiro item foi uma moeda americana de um cent feita de sucatas de guerra. Até então, as moedas eram feitas de cobre, mas devido a escassez de materiais durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos fizeram moedas com materiais alternativos. Foi nessa época que o Colecionador adquiriu um item extremamente diferenciado, mas cuja história também está relacionada à Segunda Guerra Mundial: um carro europeu, que teve a fabricação interrompida por causa da guerra, e que voltou a ser fabricado, no mesmo modelo, após o seu fim. O Colecionador também teve um carro muito associado à Resistência Francesa e uma viatura militar, além de uma carreta utilizada com a viatura militar.

 

O início da coleção da Revolução Constitucionalista de 1932

Alguns anos depois, o Colecionador esteve em um evento de aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. A partir de então, passou a se envolver com a Associação e a formar um círculo de amizades. Começou a ler e se interar mais detalhadamente sobre a Revolução, e tomou a decisão de iniciar uma coleção sobre o tema. A coleção possui diversos itens como documentos, fotos, itens de numismática e objetos de casa tão variados como porta-jóias ou cinzeiros, todos relacionados à Revolução de 1932. O Colecionador possui um especial fascínio pelos itens referentes às batalhas como documentos, braçadeiras, cintos, uma baioneta Mauser 1908 utilizada pela Força Pública, um facão produzido pelas indústrias paulistas para os soldados e uma Matraca, instrumento desenvolvido na época pelo Professor Otávio Teixeira Mendes, de Piracicaba, para simular o som de uma metralhadora. Estima-se que tenham sido produzidas de cem a cento e cinquenta matracas. O Colecionador destaca que os itens da Revolução de 1932 possuem como característica a despadronização. Por exemplo, com exceção da Força Pública, as tropas paulistas utilizaram vários tipos de fardamento. O colecionador lembra que morreram mais brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932 do que na Segunda Guerra Mundial.

 

Começa a coleção de documentos

O Colecionador também passou a colecionar documentos. O ponto de partida foi um fac-símile de um relatório de uma patrulha da Força Expedicionária Brasileira na Itália com informações como a quantidade de feridos e de prisioneiros alemães. Fac-símile era uma cópia de um documento original, nesse caso feita para ser entregue aos demais comandantes. O Colecionador também possui documentos de italianos e japoneses que foram confinados pelo Governo Brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Um documento único da Revolução Constitucionalista de 1932

Com relação à Revolução de 1932, o documento mais especial é o diário de um combatente onde a escrita se deteriora com o desenrolar da Revolução. O diário parou de ser escrito antes do final da Revolução, 2 de outubro de 1932, mas o Colecionador acredita que o combatente tenha sobrevivido pois o diário sobreviveu. No diário consta que o combatente estudou em um colégio no Bairro do Brás, fugiu no dia da partida para visitar sua mãe, se reapresentou e partiu para o front. Outro documento especial é um salvo-conduto para que uma pessoa que estava em São Paulo pudesse viajar para o Rio de Janeiro durante a Revolução.

 

O impacto da internet e a importância dos antiquários

O Colecionador destaca que por mais que a rede tenha facilitado o contato e a busca de peças, ao mesmo tempo ela fez com que muitas pessoas sem o devido conhecimento se tornassem vendedoras. Isso acabou por criar dificuldades pois alguns vendedores tomam como parâmetro preços que são colocados em sites de venda, muitas vezes sem qualquer critério ou sem considerar o estado de conservação da peça. Isso acabou por dificultar as negociações e encarecer o mercado. O Colecionador ressalta a importância dos antiquários que de fato conhecem as peças, o que dificulta, inclusive, a ação de falsificadores. Com relação a esse problema, é importante destacar que muitas vezes, um comprador e um vendedor, por não serem experts, podem negociar uma peça sem saber que ela é falsificada.

 

As reflexões depois de 30 anos construindo a coleção

Por mais que o Colecionador seja apaixonado por sua coleção, ele não diversificaria tanto se fosse começá-la novamente. Outro ponto que ele destaca é que com os preços atuais, não haveria condições de formar uma coleção tão vasta como a que ele vem construindo com dedicação há mais de 30 anos. Além disso, nos últimos anos o governo brasileiro passou a criar uma série de dificuldades como a proibição da importação de peças bélicas, como capacetes, ou de uniformes antigos do Eixo, que tem a importação proibida por questões de Lei Federal. Contudo, quando o mesmo governo vai promover um evento militar, ele busca o apoio de colecionadores para que peças sejam cedidas para exposições. O Colecionador salienta que nos eventos anuais em homanegam à FEB feitos em Montese, Itália, as pessoas podem comparecer com uniformes dos Aliados e dos Países que formaram o Eixo (Alemanha, Itália e Japão), não havendo qualquer tipo de restrição. No Brasil, país que não possui um único monumento à FEB em sua capital, Brasília, é proibido utilizar uniformes de países do Eixo. A simples utilização de um uniforme não é alusão a um regime que não existe mais (Nazismo Alemão, Fascismo Italiano e Imperialismo Japonês), e sim a lembrança e reflexão sobre um fato que aconteceu. Esquecer o passado é correr o risco de repetir os mesmos erros novamente.

 

O significado da coleção para o colecionador

Para o Colecionador, sua coleção é uma homenagem aos combatentes que lutaram pelo que acreditavam e pelos muitos que se sacrificaram para que suas famílias tivessem apenas mais um dia de paz.

 

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Ao centro, as espadas da coleção. Algumas delas foram utilizadas no período monárquico da história do Brasil (1822 – 1889)

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O emblema com um javali era parte da fuselagem de um avião da Força Aérea Alemã, Luftwaffe, abatido durante a Segunda Guerra Mundial

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Parte da coleção de capacetes

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Cartofilia – Cartões Postais da Revolução Constitucionalista de 1932

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Filatelia – Selos da Revolução Constitucionalista de 1932

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Numismática – Cédulas produzidas pelo Estado de São Paulo durante a Revolução Constitucionalista de 1932. As cédulas à direita foram invalidadas após o término da Revolução

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Coleção de maços de cigarro da Revolução Constitucionalista de 1932

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Fotos originais da Revolução Constitucionalista de 1932

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Coleção encadernada do Estado de São Paulo com as edições que tratavam da Revolução Constitucionalista de 1932. Esse item é composto pelos jornais de antes, durante e depois da Revolução

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Coleção encadernada do suplemento do Estado de São Paulo com edições que tratavam da Revolução Constitucionalista de 1932. Esse item é composto pelos suplementos de antes, durante e depois da Revolução