Floriano Camargos colecionou o que havia de mais requintado e sofisticado no mundo das antiguidades. Ele foi colecionador de porcelana chinesa dita “Companhias das Índias”, prataria, principalmente inglesa, e antigos tapetes persas e caucasianos.

 

O Colecionador

Floriano nasceu em Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais, em 1921. Formou-se em Engenharia pela Universidade de Minas Gerais em 1946. A Universidade, fundada em 1927, foi federalizada em 1949, dando origem a Universidade Federal de Minas Gerais como a conhecemos.

Um ano após se formar, em 1947, Floriano se mudou para São Paulo para trabalhar na Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, antiga São Paulo Railway. Em 1950, casou-se com Lucília Mascarenhas. A família de Lucília foi a pioneira da industrialização de Minas com a criação da indústria têxtil Companhia Cedro Cachoeira. Sua família também foi responsável pela construção da Usina Hidrelétrica de Marmelos, a primeira da América do Sul.

 

O industrial

Em 1971, enquanto trabalhava na Santos-Jundiaí, ele comprou uma pequena tecelagem que viria a ser a Companhia Fiação e Tecelagem Pará de Minas. Em 1975, soube que a Pirelli iria se desfazer de suas máquinas de fiação para focar exclusivamente na produção de pneus. Por envolver valores significativos, os pretendentes à compra das máquinas eram as Indústrias Matarazzo, o Moinho Santista, a Alpargatas e a Firestone, além de Floriano.

Correndo por fora, Floriano superou todos os concorrentes e fechou a compra das máquinas. Por saber da qualidade do maquinário, de imediato ele começou a vender as máquinas que não utilizaria, gerando assim recursos que ajudariam a pagar a compra de todo o lote. Com as máquinas que não foram vendidas, montou a Fibral, Fiação Brasileira de Algodão, em 1975. A Fibral cresceu rapidamente, tornando-se, inclusive, fornecedora de fiação para a própria Pirelli. Com o crescimento, Floriano deixou a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí para dedicar-se à empresa.

Floriano não ficou muito tempo com a empresa pois a vendeu no final da década de 1970. Depois de passar um período em Londres, ele voltou a São Paulo para dedicar-se ao seu primeiro negócio após a venda da Fibral: a construção de um edifício residencial de alto padrão. O edifício seria construído no terreno de sua casa, que seria demolida para esse fim. Pronto o edifício, Floriano moraria em um dos seus apartamentos.

Cabe destacar que nesse ponto de sua vida, na virada das décadas de 1970 para 1980, Floriano já se aproximava dos sessenta anos de idade e ainda não havia se iniciado no universo do colecionismo de antiguidades.

 

O início do colecionismo aos 60 anos de idade

Com o prédio pronto, Floriano passou a tratar da decoração do apartamento. Para isso, contratou um dos mais renomados decoradores da época: Germano Mariutti. Foi Germano que sugeriu a Floriano a utilização de porcelanas das Companhias das Índias na decoração. A ideia foi prontamente aceita pois Floriano já tinha como referência seu amigo Eldino da Fonseca Brancante, renomado colecionador de porcelanas e cerâmicas, profundo conhecedor e autor de livros que são referência de mercado até hoje como “O Brasil e a Louça da Índia” e “O Brasil e a cerâmica antiga”.

Encantado com a decoração do apartamento, Floriano decidiu iniciar sua coleção de Companhias das Índias. Naquele momento, havia um facilitador para o desenvolvimento desse tipo de coleção. Devido a Revolução dos Cravos ocorrida em Portugal em 1974, houve por muitos anos um movimento de oferta de ótimas peças trazidas pelos portugueses que vieram viver no Brasil.

 

O início das coleções de prataria e de tapetes orientais e a importância da Inglaterra

Posteriormente, Floriano iniciou suas coleções de prataria e tapetes orientais. Essas coleções se devem às suas viagens à Inglaterra e ao seu círculo de amizades. Em Londres, tornou-se cliente dos melhores antiquários de tapetes como a C. John. Para o desenvolvimento de sua coleção de prataria, passou a frequentar a Koopman Rare Art e a London Silver Vaults, que reúne as mais refinadas lojas de prataria inglesa e de outros lugares do mundo como a Rússia, China, Japão e Índia.

As coleções de Floriano cresceram. Seu foco era a qualidade das peças, e não a quantidade. É por isso que quando ele decidiu colecionar pratas, ele partiu em busca, principalmente, da inglesa. Para Floriano, nenhum país conseguiu produzir uma prataria que se compare à inglesa em termos de distinção, requinte e acabamento. Sua preferência era por itens produzidos até o fim da Era Georgiana, ocorrido em meados do século XIX. Com relação aos tapetes, sua preferência era pelos tapetes persas e caucasianos antigos com idade superior aos cem anos, sem defeitos ou falhas, preferencialmente os Shirvan. Segundo Floriano, abaixo dessa idade, esses tapetes são considerados novos. Existem algumas exceções em sua coleção como um tapete persa que foi produzido na década de 1980. Floriano abriu essa exceção pois ficou impressionado com a qualidade e a beleza do tapete.

 

Arte é lastro

Na segunda metade da década de 1990, a Companhia Fiação e Tecelagem Pará de Minas passou a enfrentar a concorrência das empresas têxteis chinesas. Para honrar os compromissos da empresa, Floriano vendeu grande parte de suas exclusivas coleções de Companhias das Índias e prataria, pois tinha claro que arte é lastro. O difícil momento foi debelado e Floriano conseguiu preservar a coleção de tapetes orientais, sua grande paixão.

Floriano manteve algumas peças de Companhias das Índias e prataria, optando por não refazer as duas coleções posteriormente. Ele segue com a coleção de tapetes orientais, namorando-a todos os dias.

 

Reliquiano Floriano Carmagos Porcelana Companhias das Índias, Prataria e Tapetes Orientais Persas e Caucasianos 02

Reliquiano Floriano Carmagos Porcelana Companhias das Índias, Prataria e Tapetes Orientais Persas e Caucasianos 03

Em destaque os quatro castiçais de prata do início do século XVIII

Reliquiano Floriano Carmagos Porcelana Companhias das Índias, Prataria e Tapetes Orientais Persas e Caucasianos 04

O Tapete Persa da década de 1980

Reliquiano Floriano Carmagos Porcelana Companhias das Índias, Prataria e Tapetes Orientais Persas e Caucasianos 05

Shirvan com idade estimada de 300 anos

Reliquiano Floriano Carmagos Porcelana Companhias das Índias, Prataria e Tapetes Orientais Persas e Caucasianos 06

Shirvan com idade estimada de 300 anos