Carlos Frascari coleciona azulejos desde o final da Década de 1970, possuindo a maior coleção do Brasil em variedade de desenhos, e uma das maiores do mundo.

Quando tinha 18 anos, Frascari iniciou uma coleção de moedas por influência de um amigo. Chegou a ter o terceiro sistema monetário de prata completo. Segundo Frascari, uma coleção de moedas é finita, mas os itens que faltam acabam sendo muito caros, principalmente para um rapaz com quase 20 anos. Assim, dois anos depois de iniciada, ele vendeu a coleção. Enquanto colecionava moedas, Frascari teve uma rápida experiência com filatelia. Ele ajudou a um amigo a lavar selos, processo que consiste em colocar as correspondências com selos em um tanque de água morna para que eles possam ser retirados sem serem danificados. Essa curta experiência fez com que ele desistisse da filatelia.

Depois de sua experiência com a numismática, Frascari passou alguns anos sem ter uma coleção. Formou-se em administração de empresas e passou a trabalhar no mercado corporativo. No final da Década de 1970, começou a trabalhar na INCEPA, Indústria Cerâmica Paraná.

Na INCEPA, Frascari conheceu o suíço Urban Binz, Diretor Comercial da empresa que queria fabricar uma linha de azulejos inspirada em modelos antigos. A princípio, Frascari não quis se envolver nesse projeto. Contudo, o acaso acabou influenciando os acontecimentos. Binz fez uma viagem de negócios ao Rio de Janeiro. Chegando a cidade, ao invés de chamar alguém da filial para buscá-lo no aeroporto, ele alugou um carro. No trajeto, Binz escutou em uma rádio que haveria uma exposição de azulejos antigos no Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro. Chegando à Filial, ele incumbiu Frascari de ver a exposição.

No Museu, Frascari se deparou com a Coleção de Azulejos Portugueses e Franceses dos Séculos XVII ao XIX do antiquário Paulo Affonso de Carvalho Machado. O falecido Paulo Affonso foi um dos mais destacados antiquários do Rio de Janeiro, tendo escrito um livro que é referência de mercado até hoje: “Antiguidades do Brasil”.

Impressionado com as fotos da exposição, Binz foi com Frascari visitar Paulo Affonso em seu antiquário. No decorrer da conversa, Paulo Affonso ficou impressionado com o conhecimento de Binz sobre azulejos e lhe pediu ajuda para resolver um problema. Além de antiquário, Paulo Affonso foi um grande decorador e estava fazendo a redecoração da Fazenda Veneza a pedido de Lily Monteiro de Carvalho, que anos depois se casaria com Roberto Marinho e passaria a adotar o nome Lily de Carvalho Marinho. O problema de Paulo Affonso era que ele não tinha azulejos de Pas de Calais suficientes para azulejar os 12 banheiros da fazenda. Assim, ele estava pensando em fazer uma barra com azulejos de Pas de Calais em cada banheiro, azulejando o restante do espaço com azulejos brancos. O problema é que não havia azulejos brancos, ou de outra cor, na medida dos azulejos de Pas de Calais.  Nesse momento, Binz disse a Paulo Afonso que a INCEPA possuía uma linha de azulejos para exportação com essa medida (11×11), o que resolveria o seu problema. Dias depois, Frascari fez a venda diretamente para a senhora Lily de Carvalho.

Frascari começou então a comprar azulejos antigos para o projeto idealizado por Binz na INCEPA. Em uma dessas compras, Paulo Affonso lhe deu um pequeno azulejo de presente para que ele começasse a sua coleção. Segundo Frascari, Paulo Affonso era um grande incentivador de pequenas coleções como azulejos e bordados. Frascari agradeceu o presente, mas deixou claro que não colecionava azulejos. Ele ainda não sabia, mas aquele era o primeiro azulejo de sua coleção.

Posteriormente, Binz voltou para a Suíça. O projeto não teve continuidade e a empresa parou de comprar azulejos antigos. Depois de tantas compras feitas para a empresa, Frascari conhecia todos os comerciantes de azulejos antigos, antiquários, feiras e, por fim, cemitérios de azulejos e demolidoras. E o mais importante: ele passou a admirar os azulejos e decidiu iniciar sua coleção.

A coleção cresceu rapidamente. Para organizá-los, Frascari começou a fazer molduras para emoldurá-los e pendurá-los nas paredes de sua casa. Sua casa chegou a ter dois mil azulejos expostos. Depois de um acordo familiar, a quantidade foi reduzida para seiscentos.

Frascari se deu conta da dimensão de sua coleção em dois momentos. Quando leu o livro “Azulejos Portugueses em São Luís do Maranhão”, escrito pela arquiteta e urbanista Dora Alcântara, e viu que tinha muitos azulejos que eram mostrados no livro, e quando esteve na casa de Paulo Affonso e viu sua coleção particular, considerada na época a maior do Rio de Janeiro, e se deu conta de que estava em vias de superá-lo.

A Coleção de Carlos Frascari tem três mil e seiscentos azulejos produzidos em série, padronizados, industrializados e semi-industrializados. Seus exemplares são diferenciados pelo desenho, evitando variações de cor, apesar de registrá-las. Seus azulejos vieram de casas que desapareceram no Rio de Janeiro, São Luís, Recife e Belém, e foram fabricados em diversos países como Portugal, Holanda, França, Espanha, Inglaterra, Alemanha e Bélgica. Para aprimorar seu conhecimento sobre azulejaria, Frascari constituiu uma biblioteca dedicada ao tema com mais de 180 livros, alguns deles em alemão e russo, além dos recortes e das reportagens. Outra característica de sua coleção é que Frascari mantêm seus azulejos conforme sua colocação original. Ou seja, se um azulejo foi colocado inverso, Frascari o mantêm inverso.

Por mais que não haja um período específico, grande parte de seus azulejos foram feitos até a Década de 1930. Em sua coleção, Frascari possui azulejos persas do século XV. Muitas de suas peças foram compradas em Cemitérios de Azulejos e Demolidoras. Cemitérios de Azulejos são comércios que compram sobras de azulejos para revenda. Segundo Frascari, o primeiro Cemitério de Azulejos do Brasil foi aberto em Campinas no começo da Década de 1980. As Demolidoras são empresas responsáveis por demolir edificações como casas. Segundo Frascari, o Rio de Janeiro teve muitas Demolidoras nas Décadas de 1970, 1980 e 1990 por causa da construção do metrô e de prédios na Zona Sul, o que fez com que muitas casas antigas fossem demolidas para ceder espaço. Através desse trabalho, as Demolidoras obtêm ótimas peças como escadas, janelas, fachadas, portas e, inclusive, azulejos. Frascari ressalta que por causa da história do Rio de Janeiro, que foi capital do Reino Unido, Império e da República, as Demolidoras do Rio tinham materiais riquíssimos.

Em 1992, Frascari fez uma exposição de sua coleção no Museu Casa de Rui Barbosa com o título “1630 – 1930, Trezentos Anos de Azulejos Padrão no Brasil”. Ele cuidou pessoalmente da elaboração do catálogo da exposição.

 

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 02

Azulejos com motivos marinhos.

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 03

Parede decorada com barras e lambris

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 04

Azulejos de pessoas e paisagens

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 05

Azulejos coloniais de 1630 a 1890

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 06

Azulejos iranianos e espanhóis do Século XV ao Século XVII

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 07

Azulejo Inglês Pilkinton do final do Século XIX

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 08

Lambris usados originalmente como guardas de lareira

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 09

Lambris usados originalmente como guardas de lareira

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 10

Canto superior esquerdo: azulejos ingleses; Canto superior direito: azulejo alemão; parte inferior da foto: azulejo belga

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 11

Azulejos alemães “A Entrada do Fjord”

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 12

Parte superior da foto: azulejos alemães; Parte inferior da foto: azulejos belgas

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 13

Painel belga

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 14

Placa de gesso que ficava no alto de uma residência na Avenida Paulo de Frontin. O ano da placa marca a data de construção da antiga casa

Reliquiano Carlos Frascari Azulejos 15

Coleção de casinhas da KLM (Companhia Aérea Holandesa)