As origens do Monumento às Bandeiras

Tendo em vista as comemorações do primeiro centenário da independência em 1922, o Estado de São Paulo realizou dois concursos para a construção de monumentos históricos tendo como motivo a Independência.

O primeiro consurso resultou no Monumento à Independência do Brasil, localizado no Parque da Independência, de autoria do escultor Ettore Ximenes e do arquiteto Manfredo Manfredi. O segundo concurso resultou no Monumento aos Andradas, localizado em Santos, de autoria do escultor Antonio Sartori.

Foi nesse contexto que se promoveu a ideia de se construir um monumento aos bandeirantes que também ficaria pronto a tempo das comemorações de 1922. Coube a Victor Brecheret propor o modelo que foi apresentado em junho de 1920. Chegou-se a compor uma comissão provisória para realização do projeto, que não foi adiante naquele momento.

Em março de 1921, Brecheret ofereceu o modelo que havia feito ao Governo do Estado, e Washington Luiz, Presidente de São Paulo, decidiu colocá-lo na Pinacoteca.

 

Um conturbado contexto político

Passaram-se alguns anos e Washington Luiz foi eleito Presidente da República para o mandato de 1926 a 1930. Em vias de terminar seu mandato, Washington Luiz foi deposto pelo Golpe de 1930, sendo substituído por seu líder e chefe do novo Governo Provisório, Getúlio Vargas. Uma das primeiras medidas adotadas por Vargas foi a suspensão da Constituição de 1891.

Em 1932, foi iniciada a Revolução Constitucionalista liderada por São Paulo. O objetivo era a redemocratização do país e a elaboração de uma nova constituição. A Revolução durou três meses e foi rapidamente derrotada pelas forças federais. Dois anos depois, em 16/07/1934, foi promulgada uma nova Constituição, especificando, inclusive, a realização da eleição direta para Presidente em 1938.

No dia 20/07/1934, como estava previsto na nova Constituição, Vargas foi eleito Presidente da República pela Assembléia Nacional Constituinte.

Finalizado o período de exceção e retomada a normalidade constitucional, o Interventor de São Paulo, o paulista Armando de Salles Oliveira, nomeado por Vargas em 21/08/1933, foi eleito Governador pela Assembléia Constituinte de São Paulo no dia 11/04/1935.

 

A ideia da construção do Monumento às Bandeiras é retomada

Foi durante a gestão de Salles Oliveira, mais precisamente em 1934, que surgiu o movimento liderado por Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia, com o apoio do Prefeito Fábio Prado, que retomou a ideia da construção do Monumento às Bandeiras. Esse movimento fez com que Brecheret, que estava vivendo na Europa, retornasse ao Brasil para conduzir o projeto.

Foi também nesse momento que se promoveu a ideia de se construir um monumento à Revolução Constitucionalista de 1932, cujo concurso seria vencido por Galileu Emendabili com o Projeto “32”, que viria a ser o Mausoléu do Soldado Constitucionalista, localizado junto ao Parque do Ibirapuera.

Em dezembro de 1936, o Prefeito Fabio Prado sancionou a Lei 3.543 que especificava que o monumento às bandeiras ficaria localizado em frente a praça inicial da Avenida Brasil, atual Praça Armando de Salles Oliveira. Também nesse mês, no dia 21/12, o Estado e Brecheret assinaram o contrato para a construção do Monumento às Bandeiras. Esse contrato especificava que o Monumento deveria ficar pronto até o dia 31/07/1938.

 

O Estado Novo e a paralisação das obras

As obras avançavam e a base do Monumento já estava pronta, quando no dia 10/11/1937, Getúlio Vargas liderou um novo golpe de estado e instituíu o Estado Novo. No mesmo dia, foi decretada uma nova Constituição, e o Governador José Joaquim Cardoso de Melo Neto, que havia sido eleito pela Assembléia Legislativa no dia 30/12/1936, foi nomeado por Vargas como Interventor de São Paulo.

Sob a nova administração dos interventores, as verbas para a construção do Monumento às Bandeiras foram sendo reduzidas até a paralisação das obras. Esse Monumento não contava com a simpatia de Vargas que queria substituir as deferências locais pelas deferências nacionais, que melhor atendiam a ideologia do Estado Novo.

Como exemplo, o pensamento do Estado Novo pode ser visto já no Artigo 2º da Constituição de 1937 que especificava:

A bandeira, o hino, o escudo e as armas nacionais são de uso obrigatório em todo o País. Não haverá outras bandeiras, hinos, escudos e armas. A lei regulará o uso dos símbolos nacionais.

Brecheret se manteve ativo esculpindo as esculturas “Depois do Banho” e “Fauno” para a Prefeitura, e as esculturas “Graça I” e “Graça II” para a Galeria Prestes Maia.

 

A campanha pelo Monumento ao Duque de Caxias

Em paralelo, em 1939 teve início a campanha para realização do projeto do Monumento ao Duque de Caxias. No dia 22/11/1940, foi instituída por Vargas a Comissão Central Pró-Monumento Duque de Caxias. Esse tipo de iniciativa contava com a simpatia do Presidente pois era uma reverência a uma figura forte e nacional, atendendo assim as expectativas da ideologia do Estado Novo.

 

Brecheret é escolhido para construir o Monumento ao Duque de Caixas

Um anos depois, no dia 21/11/1941, o Projeto “Itororó A” de Victor Brecheret foi escolhido pela Comissão.

O contrato para construção do Monumento foi assinado no dia 16/06/1942. No ano seguinte, 1943, a responsabilidade pelas obras dos dois monumentos foi transferida do Estado para o Município.

 

As obras do Monumento às Bandeiras são retomadas, enquanto o Monumento ao Duque de Caixas está longe de ser concluído

Em 1945, último ano da Presidência de Vargas, Brecheret e a Prefeitura assinaram o contrato para construção do Monumento às Bandeiras, sendo finalmente retomada a obra.

Em Junho do mesmo ano, Brecheret declarou que sua parte referente ao Monumento ao Duque de Caixas estava pronta, faltando a fundição da estátua e a instalação do Monumento.

Getúlio Vargas foi deposto no dia 29/10/1945 com o Monumento ao Duque de Caxias longe de ser concluído e com as obras do Monumento das Bandeiras retomadas.

 

Depois de tantos anos, a inauguração do Monumento às Bandeiras

O Monumento das Bandeiras foi inaugurado no dia 25/01/1953, no aniversário de 399 anos da cidade de São Paulo, um ano antes da celebração do quarto centenário de fundação da cidade.

 

Até o local de instalação do Monumento ao Duque de Caixas segue indefinido

Já a instalação do Monumento ao Duque de Caxias seguia sem ser iniciada. O Edital do Concurso de 1941, previa que o Monumento ficaria no Largo do Paissandu, mas para que isso acontecesse, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos teria que ser demolida. Por mais que estivesse no Edital, Brecheret não considerava esse o local ideal para instalação do Monumento, pois sua preferência era pela Praça das Bandeiras no Vale do Anhangabaú.

A Igreja não foi demolida devido a resistência de sua irmandade, o que impossibilitou a instalação do Monumento como estava previsto no Edital. Com o passar dos anos, passou-se a cogitar a instalação do Monumento na Praça Princesa Isabel.

 

Depois de tanta discussão, Ademar de Barros resolve o local de instalação com um Decreto

Essa alternativa também enfrentou uma série de questionamentos e dificuldades até que, em 1957, o Prefeito Ademar Pereira de Barros, no início de sua gestão, determinou a instalação do pedestal do Monumento na Praça Princesa Isabel. Cabe ressaltar que Ademar de Barros havia sido um dos Interventores do Estado de São Paulo, nomeado por Vargas, que dificultou a construção do Monumento às Bandeiras e trabalhou no impulso inicial do projeto do Monumento ao Duque de Caxias.

 

Brecheret morre antes da inauguração do Monumento ao Duque de Caixas

O Monumento ao Duque de Caxias foi inaugurado no dia 25/08/1960, Dia do Soldado e data do nascimento do Duque de Caxias.

Victor Brecheret faleceu no dia 17/12/1955, em São Paulo, dois anos após a entrega do Monumento às Bandeiras e 5 anos antes da inauguração do Monumento ao Duque de Caxias.

 

Reliquiando

Victor Brecheret – Nasceu em Farnese, Itália, no dia 15/12/1894. Escultor modernista, iniciou sua formação artística no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo em 1912, aprimorando seus conhecimentos na Europa de 1913 a 1919. Expôs 12 esculturas na Semana de Arte Moderna de 1922. Trabalhou ativamente no Brasil e na Europa, possuindo diversas obras em coleções particulares, museus e em espaços públicos, principalmente em São Paulo. Faleceu em São Paulo-SP, aos 61 anos, no dia 17/12/1955.

Duque de Caxias – Luís Alves de Lima e Silva nasceu em Porto da Estrela-RJ no dia 25/08/1803. Foi militar e político, estando ao lado de D. Pedro I e D. Pedro II. Defendeu o Império contra a Balaiada (Maranhão, 1838 – 1841), as Revoltas Liberais (São Paulo e Minas Gerais, 1842) e a Revolução Farroupilha (Rio Grande do Sul, 1835 – 1845). Participou da Guerra do Prata (1851 – 1852) e da Guerra do Paraguai (1864 – 1870). É considerado o maior oficial militar da história do Brasil. Faleceu em Valença-RJ, aos 76 anos, no dia 07/05/1880. Em 1925, foi instituído o Dia do Soldado no dia do seu nascimento. No dia 13/03/1962, se tornou o Patrono do Exército Brasileiro.

Armando de Salles de Oliveira – Nasceu em São Paulo-SP no dia 24/12/1897. Foi engenheiro e político, tendo sido o primeiro paulista nomeado por Vargas Interventor do Estado de São Paulo após a Revolução Constitucionalista de 1932. Foi Interventor de de 21/08/1933 a 11/04/1935, quando foi eleito Governador pela Assembléia Constituinte do Estado, cargo que exerceu de 11/04/1935 a 29/12/1936. Iria disputar a eleição para Presidente da República em 1938, quando o Golpe de 1937 foi dado e o Estado Novo instituído. Faleceu em São Paulo, aos 57 anos, no dia 14/05/1945.

Ademar Pereira de Barros – Nasceu em Piracicaba-SP no dia 22/04/1901. Homem de confiança de Vargas, foi Interventor do Estado de São Paulo de 27/04/1938 a 04/06/1941, durante o Estado Novo. Após a deposição de Vargas, foi eleito Governador, tendo exercido o cargo de 14/03/1947 a 31/01/1951; Prefeito de São Paulo de 08/04/1957 a 07/04/1961, e novamente Governador de 31/01/1963 a 06/06/1966. Faleceu em Paris, França, aos 67 anos, no dia 12/03/1969.

Tombamento – O Monumento às Bandeiras foi tombado pelo Estado de São Paulo em 1985 (Processo 23074/84, Resolução 31 de 07/05/1985, Diário Oficial de 08/05/1985). O Monumento ao Duque de Caxias não é tombado. Essas informações foram consultadas na Lista de Bens Tombados por Município da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo atualizada em Fevereiro de 2013.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos – a Igreja segue instalada no Largo do Paissandu.

 

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Monumento ao Duque de Caxias. Em cada lado da base, um momento de sua vida

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48 metros de altura. O Cristo Redentor mede 38 metros de altura com a base

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Duque de Caxias

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“Caxias em Bagé”. Frente da base

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“Batalha de Itororó”. Lado direito da base

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“Enterro de Caxias”. Parte detrás da base

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“Reconhecimento de Humayta”. Lado esquerdo da base

 

Referências:

Processo 23074/84 referente ao Tombamento do Monumento às Bandeiras. Disponível em:

http://www.arquicultura.fau.usp.br/index.php/encontre-o-bem-tombado/uso-original/evocacao/monumento-as-bandeiras.

Consultado em 21 de junho de 2017.

Ribeiro, A. C. F. Tradição, Nacionalismo e Modernismo: o Monumento Duque de Caxias. 2006. 258 f. Dissertação (Mestrado em História da Arquitetura e Urbanismo) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo. São Carlos. 2006.

Lista de Bens Tombados por Município do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura, CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado) e UPPH (Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico). Consultado em 21 de junho de 2017. Disponível em:

http://www.cultura.sp.gov.br/SEC/Condephaat/Bens%20Tombados/lista_fev.13_BensTombOrdMunicipios_Site.pdf.

Consultado em 21 de junho de 2017.

 

Agradecimento: Heriberto Rebouças.