Em março de 1938, o Brasil formalizou a compra de armamentos com diversos fornecedores alemães, entre eles a Fried Krupp. Foi através desse contrato que o Brasil comprou os temidos canhões de 88mm Flak 18.

Flak era a contração de Flugzeugabwehrkanone. Traduzindo para o português: canhão de defesa anti-aérea (aircraft-defense cannon).

Em meados da Década de 30, já havia uma enorme preocupação por parte do governo brasileiro e de seus militares com o reaparelhamento das Forças Armadas. Os equipamentos do Exércio e da Marinha estavam obsoletos e já não atendiam as necessidades de uma guerra moderna. Cabe ressaltar que a Força Aérea Brasileira ainda não existia, sendo os aviões operados pela Marinha e pelo Exército. A FAB seria criada em 1942 com a Segunda Guerra Mundial já em curso.

Foi nesse contexto que o Brasil formalizou com a Fried Krupp a compra de equipamentos militares. No final da década de 30, o comércio exterior entre os dois países era intenso, com o Brasil vendendo diversas matérias-primas e a Alemanha, o que o Brasil mais precisava: produtos tecnológicos, equipamentos industriais e militares.

O contrato previa o fornecimento de 1.180 peças de artilharia de diversos calibres; viaturas hipomóveis para tração, transporte de munição e da guarnição das respectivas peças; munição para combate, treinamento, direitos de produção e o maquinário necessário para a produção de munição.

O Flak 18 fazia parte da família de canhões anti-aéreos de 88mm desenvolvidos pela Krupp composta pelos Flak 18, 36, 37 e 41. No transcurso da Segunda Guerra Mundial, eles passaram a ser usados como canhões anti-tanque, revelando-se altamente eficientes. Posteriormente, a Krupp produziu os canhões de 105mm Flak 38 e 39, e de 128mm Flak 40. Eram os canhões Flak da Krupp que recebiam os bombardeiros aliados quando eles se dirigiam a objetivos alemães.

O fornecimento dos equipamentos militares Krupp

A Segunda Guerra Mundial começou no dia 01/09/1939 com a invasão alemã da Polônia. Após a invasão, a Inglaterra e a França, aliados poloneses, declararam guerra e o bloqueio naval à Alemanha. Até esse momento, a Krupp havia feito apenas uma remessa de equipamentos ao Brasil. No final de 1939, a segunda remessa estava pronta, mas a Alemanha ameaçava suspendê-la alegando que que não havia condições de transportar os equipamentos.

Os brasileiros iniciaram uma negociação diplomática com os ingleses de forma a que os equipamentos pudessem passar pelo bloqueio. O argumento era que o contrato havia sido assinado antes do início da guerra. Os ingleses acabaram liberando o transporte, deixando claro que não permitiriam uma nova liberação.

O Brasil mantinha uma posição de neutralidade no conflito. Em paralelo, negociava com a United States Steel Corporation, principal empresa americana do setor de siderurgia, a implantação de uma usina siderúrgica no Brasil, um dos grandes objetivos do Governo Vargas. O problema é que, inesperadamente, a empresa americana desistiu do negócio, o que fez com que o governo brasileiro se voltasse, mais uma vez, para a Krupp, interessada em desenvolver esse projeto.

Os Estados Unidos vinham acompanhando a questão do fornecimento de equipamentos militares alemães ao Brasil, mas o possível apoio da Krupp a instalação da usina siderúrgica fez com eles mudassem a postura quanto aos negócios brasileiros com os alemães. Outra questão que se tornava cada vez mais clara era necessidade dos Estados Unidos instalarem bases militares no nordeste brasileiro, principalmente no Rio Grande do Norte, ponto da costa brasileira mais próximo da África, para patrulhamento da parte sul do Oceano Atlântico.

No final de 1940, Brasil e Estado Unidos assinaram o acordo para a construção da usina siderúrgica brasileira com o financiamento americano. Com isso, os Estados Unidos atingiu dois objetivos: afastou a possibilidade de ajuda alemã para a construção da usina siderúrgica e pavimentou o caminho para a instalação das bases americanas no Nordeste do Brasil. Faltaria apenas o fornecimento dos equipamentos militares.

No mesmo período, final de 1940, os ingleses interceptaram o navio Siqueira Campos que trazia o terceiro carregamento de equipamentos militares alemães para o Brasil. Frente ao argumento inglês de que os equipamentos não poderiam ser liberados como anteriormente, o governo brasileiro argumentou, novamente, que o contrato havia sido firmado antes do início da guerra e que os equipamentos já estavam pagos. Havia um agravante na situação. Além dos equipamentos militares, o Siqueira Campos transportava 400 passageiros.

Para liberação da segunda remessa de equipamentos alemães, as tratativas diplomáticas conduzidas pelo governo brasileiro não vieram a público. Contudo, para conseguir a liberação do Siqueira Campos, o governo brasileiro se viu obrigado a tornar o fato público de forma a pressionar os ingleses. O problema ganhou nova dimensão, e após a intervenção diplomática americana, o Siqueira Campos foi liberado.

Considerando todos os equipamentos contemplados no contrato assinado com a Fried Krupp, o Brasil recebeu apenas uma parte (três remessas). Restava agora esperar os equipamentos militares americanos que já não eram mais usados pelas forças armadas desse país.

No Museu Conde de Linhares, está em exposição um dos Flak 18 adquiridos pelo Brasil. Nele consta a informação de que apenas 24 unidades foram recebidas, tendo sido utilizadas até a Década de 50. Existem outras duas unidades no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, postadas na parte detrás do monumento, e uma unidade no Museu de Armas, Veículos e Máquinas Eduardo André Matarazzo em Bebedouro-SP.

É possível que ainda existam outros Flak 18 pelo Brasil.

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Reliquiando…

O Brasil e a Segunda Guerra Mundial – Em Julho de 1941, quase dois anos depois do início da guerra, o governo brasileiro autorizou os Estados Unidos a iniciarem discretamente o trabalho de instalação de bases aero-navais no Nordeste. No final do mesmo ano, no dia 07/12/1941, o Japão atacou de surpresa Pearl Habor. Um dia depois, 08/12/1941, os Estados Unidos declararam guerra ao Japão. Três dias depois, a Alemanha declarou guerra aos Estados Unidos. Devido ao seu alinhamento com os Estados Unidos, no dia 28/01/1942, o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Até então, apenas um navio brasileiro havia sido atacado pelos alemães quando navegava pelo Mediterrâneo. O ataque ocorreu no dia 22/03/1941 contra o cargueiro Taubaté, que apesar de avariado, não afundou.

Com o rompimento das relações, Alemanha e Itália atacaram vinte navios brasileiros, tendo afundado dezenove. O governo brasileiro declarou guerra aos dois países no dia 31/08/1942. O Brasil não declarou guerra ao Japão pois os ataques não foram feitos por submarinos japoneses.

No dia 30/06/1944, o Brasil enviou para a Europa a Força Expedicionária Brasileira (FEB). A Alemanha se rendeu formalmente no dia 08/05/1945, terminando assim a guerra na Europa. A guerra no Pacífico terminou três meses depois, no dia 15/08/1945, após os Estados Unidos lançarem uma bomba atômica em Hiroshima, 06/08/1945, e uma em Nagasaki, 09/08/1945.

A declaração de guerra do Brasil ao Japão – O Brasil declarou guerra ao Japão somente no dia 06/06/1945, um mês depois do término da guerra na Europa e dois meses antes do término da guerra no Pacífico;

Afundamento de navios brasileiros e de submarinos alemães e italianos – Durante a Segunda Guerra Mundial foram atacados 35 navios brasileiros sendo que 33 foram afundados. Dos 35 ataques, 32 foram feitos por submarinos alemãos, com 31 afundamentos, e 3 por submarinos italianos, com 2 afundamentos. Nas proximidades da costa brasileira, foram afundados 11 submarinos alemães (U-128, U-161, U-164, U-199, U-507, U-513, U-590, U-591, U-598, U-604 e U-662) e um submarino italiano (Archimede).

Referências:

Neto, Lira. Getúlio: Do Governo Provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945) / Lira Neto. – 1ª ed – São Paulo: Companhia das Letras, 2013.