O Torneio Municipal, também conhecido como Taça Prefeitura do Distrito Federal, foi disputado entre o final da Década de 30 e o ínicio da Década de 50. No total, houve 8 edições: 1938, 1943, 1944, 1945, 1946, 1947, 1948 e 1951.

O Torneio era disputado pelos mesmos clubes do campeonato carioca. Os dois campeonatos eram disputados por pontos corridos, sendo que o campeonato carioca tinha dois turnos e o Torneio Municipal apenas um. A exceção foi justamente o primeiro Torneio Municipal, vencido pelo Fluminense em 1938, que foi exatamente igual ao campeonato carioca: pontos corridos com turno e returno.

Seu grande vencedor foi o Vasco, tendo sido tetracampeão nos anos de 1944, 1945, 1946 e 1947. O Fluminense venceu as edições de 1938 e 1948, e o São Cristóvão e o Botafogo as edições de 1943 e 1951, respectivamente.

Em 1948, o Vasco lutaria pelo pentacampeonato do Torneio, mas antes disso teve que representar o Brasil na disputa da Copa dos Campeões em Santiago, Chile. O Vasco foi o representante brasileiro pois a CBD indicou o Campeão Estadual de 1947 do Estado vencedor do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais de 1946, que nesse caso era o Rio de Janeiro, Distrito Federal. Naquele momento, o Vasco vivia um dos seus mais vitoriosos momentos de sua história (1945 – 1952) e seu time era conhecido como “Expresso da Vitória”.

A Copa dos Campeões foi disputada no decorrer de um mês, tendo sido iniciada no dia 11/02/1948 e finalizada no dia 17/03/1948. Ela reuniu sete clubes: Colo Colo (Chile), Emelec (Equador), Lítoral (Bolivia), Municipal (Peru), Nacional (Uruguai), River Plate (Argentina) e o próprio Vasco. A Copa foi disputada por pontos corridos em turno único, tendo cada clube jogado seis partidas. Vasco e River jogaram pela última rodada no dia 14/03/1948. Esse jogo acabou sendo a decisão pois se o River Plate vencesse o Vasco, seria o campeão. Ao Vasco bastaria o empate, o que de fato aconteceu: 0x0. O Vasco conquistou o título de forma invicta tendo somado 10 pontos com 4 vitórias e dois empates. O River Plate terminou em segundo lugar com 9 pontos (quatro vitórias, um empate e uma derrota).

Enquanto isso, seguia no Rio de Janeiro a preparação dos clubes para a disputa do Torneio Municipal. O Torneio seria disputado em turno único por 11 clubes com 10 partidas para cada. O Torneio começou no dia 24/04/1948 com dois jogos: Fluminense 4×2 São Cristóvão e Olaria 4×2 Canto do Rio.

Terminada a fase dos pontos corridos, no dia 20/06/1948, Fluminense e Vasco estavam empatados com 16 pontos, tendo cada um conquistado 6 vitórias e 4 empates. A igualdade se refletia nos gols marcados: 25 para cada. A única diferença estava nos gols sofridos: Fluminense, 13, e Vasco, 15. Pelo Torneio, os dois clubes haviam empatado em 1×1 no dia 09/05/1948. Contudo, há um detalhe por detrás desses números. Enquanto o Fluminense havia jogado com a sua melhor formação, o Vasco jogou com o seu time reserva, o “Expressinho da Vitória”.

A decisão seria disputada em três jogos num ritmo frenético: 24/06/1948, 27/06/1948 e, se fosse necessário, 30/06/1948.

O primeiro jogo foi vencido pelo Fluminense por 4×0 no Estádio General Severiano. Diante de 6.991 pagantes, marcaram para o Fluminense Orlando “Pingo d’Ouro” (2), Simões e Rodrigues. Ao Fluminense bastaria uma nova vitória na segunda partida da decisão para que o Torneio fosse conquistado e o pentacampeonato do Vasco evitado.

Contudo, três dias após a primeira partida, o Vasco venceu o Fluminense por 2×1 no Estádio da Gávea. Diante de 11.016 pagantes, o Vasco abriu 2×0 com Dimas e Nestor. O Fluminense descontou com Orlando “Pingo d’Ouro”. Com a vitória vascaína, seria necessário disputar a terceira e última partida.

No dia 30/06/1948, o Fluminense já estava em campo esperando o “Expressinho”, quando, para supresa de todos, surgiu o time titular do Vasco, o “Expresso da Vitória”.

A decisão de levar a campo o time titular gerou desconforto entre o elenco vascaíno. Essa decisão, que pegou a todos de surpresa, tanto do “Expressinho” quanto do “Expresso”, foi comunicada pelo técnico vascaíno, Flávio Costa, quando os jogadores do “Expressinho”, que haviam representado tão bem o Vasco durante o Torneio, se preparavam no vestiário para entrar em campo.

Com um público de 14.381 pagantes, o Fluminense venceu o “Expresso da Vitória” com um gol de bicicleta de Orlando “Pingo d’Ouro” aos 8 minutos de jogo. Com esse resultado, o Fluminense conquistou seu segundo Torneio Municipal e evitou o pentacampeonato vascaíno.

Participaram da campanha 21 jogadores. Goleiros: Castilho (8 jogos), Tarzan (4) e José Paulo (1). Zagueiros: Pé de Valsa (13), Hélvio (9) e Aroldo (4). Meio-de-campo: Índio (13), Mirim (12), Bigode (9), Ismael (4) e Berascochea (1). Ataque: Rodrigues (13), Rubinho (11), Orlando (10), Simões (7), Emílio (6), Cento e nove (6), Careca (5), Juvenal (3), Pinhegas (2) e Zeca (2). O Técnico era o uruguaio Ondino Vieira. Os artilheiros da equipe foram Orlando, 9 gols, e Emílio, 3. Pé-de-Valsa, Índio e Rodrigues participaram de todos os 13 jogos da campanha.

Na foto principal desse artigo estão os dois últimos campeões do time do Fluminense do Torneio Municipal de 1948: Emílio, 91 anos, à esquerda, e Índio, 97 anos, à direita.

IMG_2540

O Torneio Municipal de 1948 não teve um troféu em disputa. Por essa razão, a foto de Emílio e Índio foi tirada com a Taça D.I.E., oferecida pelo Departamento de Imprensa Esportiva da A.B.I., quando o Fluminense derrotou o Racing, Argentina, por 3×2 no dia 27/10/1948.

Reliquiando…

O Expresso da Vitória – De 1945 a 1952, o Vasco conquistou o campeonato carioca de 1945, 1947, 1949, 1950 e 1952, sendo que os títulos de 1945, 1947 e 1949 foram invictos; o tetracampeonato do Torneio Municipal em 1944, 1945, 1946 e 1947; o Torneio Relâmpago de 1944 e 1946 e a Copa dos Campeões de 1948. O time titular do Vasco era o “Expresso da Vitória” e o reserva o “Expressinho”. Naquela época era comum o “Expresso da Vitória” viajar para disputar competições e amistosos fora do Rio de Janeiro, e deixar o “Expressinho” defendendo o clube nas competições locais.

Cabe ressaltar que o “Expresso” foi a base da Seleção Brasileira de 1950 que foi derrotada pela melhor seleção da época, o Uruguai. O Vasco tinha 8 jogadores na Seleção, sendo que 6 titulares (Barbosa, Augusto, Danilo, Maneca, Ademir e Chico) e dois reservas (Eli e Alfredo). A Seleção de 1950 ainda tinha dois jogadores que haviam passado pelo “Expresso”: Friaça e Jair. Em 1950, o Brasil ainda não havia conquistado uma Copa do Mundo. O Uruguai já havia conquistado a Copa de 1930, e viria a ser bicampeão em 1950.

Taça Cidade Maravilhosa – Em 1996, o Botafogo conquistou a Taça Cidade Maravilhosa. A Taça foi disputada por pontos corridos em turno único, com 8 clubes disputando 7 partidas. Participaram Botafogo, America, Bangu, Flamengo, Fluminense, Madureira, Olaria e Vasco. O Botafogo se sagrou campeão tendo somado 19 pontos com seis vitórias e apenas um empate. A Taça Cidade Maravilhosa foi equiparada aos Torneios Municipais pela Federação de Futebol do Rio de Janeiro.

Orlando “Pingo d’Ouro” – Orlando de Azevedo Viana nasceu em Recife-PE no dia 04/12/1923. Começou a jogar pelo Náutico. Foi comprado pelo Fluminense em 1945, onde atuou até 1954. Foi campeão carioca de 1946 e 1951, do Torneio Municipal de 1948 e da Copa Rio de 1952. Pela Seleção Brasileira, foi Campeão do Sul-Americano de 1949. O apelido que marcou sua carreira, “Pingo d’Ouro”, lhe foi dado pelo jornalista José Araújo após a goleada de 5×2 do Fluminense contra o Bonsucesso em que Orlando marcou quatro gols. Como havia chovido muito durante a partida, José Araújo escreveu que Orlando “parecia um pingo d’água presente em todo o gramado e brilhando como se fosse ouro”. É o segundo maior artilheiro da história do Fluminense com 184 gols, atrás apenas de Waldo com 319. Faleceu no dia 05/08/2004 no Rio de Janeiro.

Castilho – Carlos José Castilho nasceu no Rio de Janeiro-RJ no dia 27/11/1927. Foi goleiro do Fluminense de 1947 a 1964, tendo sido o jogador que mais atuou pelo clube: 696 jogos. Foi campeão do Torneio Início de 1954 e 1956; do campeonato carioca de 1951, 1959 e 1964; do Torneio Rio x São Paulo de 1957 e 1960 e da Copa Rio de 1952. Seu primeiro título foi o Torneio Municipal de 1948. Na terceira e última partida, Orlando fez o gol aos 8 minutos de jogo, o Vasco partiu para cima e a defesa do Fluminense, com Castilho no gol, segurou o resultado. Além da técnica, Castilho tinha uma sorte inexplicável. Ganhou o apelido de “Leiteira”, que na época era dado a pessoas com muita sorte. Foi goleiro da Seleção nas Copas de 1950, 1954 (titular), 1958 e 1962, tendo sido campeão das Copas de 1958 e 1962. Amputou parte do dedo mínimo para se recuperar mais rapidamente de uma lesão e retornar ao gol. Junto com Orlando “Pingo d’Ouro”, é considerando um dos maiores jogadores da história do Fluminense. Faleceu no dia 02/02/1987 no Rio de Janeiro-RJ.

Índio – Aloísio Soares Braga nasceu no Rio de Janeiro no dia 22/05/1920. Começou a jogar futebol profissionalmente no São Cristóvão. Foi lá que ganhou o apelido que marcaria a sua vida: Índio. Jogou pelo Fluminense em 1948 e 1949, compondo a defesa com “Pé de Valsa” e “Bigode”. Disputou 97 jogos e marcou 6 gols. Em 1950 foi para o Botafogo, onde fez dupla de zaga com Nilton Santos. Posteriormente, retornou ao São Cristóvão, foi para o Tupi de Juiz de Fora-MG, e retornou mais uma vez ao São Cristóvão para encerrar a carreira. Foi campeão do Torneio Municipal de 1943, pelo São Cristóvão, e de 1948, pelo Fluminense. Enfrentou jogadores como Domingos da Guia, Ademir Menezes, Didi e Zizinho. De todos os goleiros que protegeu, dois marcaram sua carreira: Louro do São Cristóvão e Castilho do Fluminense. Segundo Índio, quando Louro saía do gol, atropelava quem estivesse a sua frente, e Castilho era um craque debaixo da baliza que tinha o mais importante para um goleiro: sorte. Índio também foi um dos fundadores da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Está com 97 anos e vive na Ilha do Governador.

Em 2015, o jornalista José Rezende publicou uma entrevista que havia feito com Índio em 2007, quando ele estava com 87 anos:

http://albumdosesportes.blogspot.com.br/2015/01/indio-campeao-pelo-fluminense-em-1948.html

Emílio – Emílio Ibrahim nasceu em 20/10/1925 em Mariana-MG. Começou a jogar futebol pelo clube local, o Guarany Futebol Clube. Chegou ao Fluminense com 22 anos, tendo atuado nos anos de 1948 e 1949. Foi campeão do Torneio Municipal de 1948. Disputou 26 partidas e marcou 10 gols. O seu gol mais especial foi marcado no dia 06/01/1949, quando o Fluminense derrotou o Flamengo por 5×2 em Fortaleza-CE. Os outros quatro gols foram marcados por Simões. Em paralelo ao futebol, estudava engenharia. Ao final de 1949, teve que tomar a difícil decisão de deixar o futebol para dedicar-se a engenharia pois não conseguia mais conciliar as duas atividades. Na qualidade de Secretário de Obras Públicas do Estado da Guanabara e do Estado do Rio de Janeiro esteve a frente de importantes obras como o acabamento do Maracanã, a construção do emissário submarino de Ipanema; a duplicação do sistema Guandu e a construção de inúmeras subadutoras; a reconstrução do trecho do Elevado Paulo de Frontin que havia desabado em 1971, o reforço das bases de todo o elevado e sua extensão até São Cristóvão; a construção do Elevado da Perimetral; a urbanização das praias de Ipanema e do Leblon e a reurbanização da Lapa. Foi convidado para concorrer a presidência do Fluminense do triênio 1973, 1974 e 1975, mas optou por declinar. Está com 91 anos e vive no Rio de Janeiro.

Emílio fez questão de registrar sua lembrança quando ao Torneio Municipal de 1948:

Homenagem aos campeões do Torneio Municipal Carioca de 1948

Penso que não destoam da configuração do cenário acolhedor desta nossa comemoração os já embranquecidos e rarefeitos cabelos, que denunciam os meus 91 outonos de vida, a despeito de manter intactas as recordações e as emoções vividas no convívio com os excepcionais jogadores e dirigentes do Fluminense, à época que hoje, saudosos queremos evocar. Na realidade, devemos, Índio e eu, atuais sobreviventes, considerar-nos felizes por ainda determos hoje o privilégio de poder homenagear os companheiros que já celebraram suas bodas com a eternidade, mas que vivem em nossos corações pela saudade.

Permitam-se, pois, traçar um breve histórico dos feitos tricolores daquela época, reverenciando os protagonistas das vitórias do Fluminense, os quais inscreveram seus nomes, de modo indelével, nos anais esportivos de nossa cidade, heróis que cultuamos com desmedido orgulho e merecido acatamento.

Assim é que, com detaque, menciono a marcante conquista, pelo gloriodo tricolor, do Torneio Municipal de 1948, do qual, modestamente, participei. Um feito só equiparado à expressiva vitória do Campeonato Carioca de 1946, ocasião em que o Fluminense se sagrou, brilhantemente, supercampeão.

A vitória inequívoca deveu-se, indubitavelmente, a uma quase integral renovação do elenco, sob o comando do saudoso e competente técnico uruguaio Ondino Vieira, quando a equipe passou a contar com a participação de Castilho e seu reserva Veludo, substituindo Robertinho, como arqueiros; saindo Gualter e assumindo Píndaro, na posição de zagueiro; compondo-se a retaguarda com a entrada de Hélvio, no lugar de Haroldo, e, posteriormente, Pinheiro, e Índio sucedendo a Pascoal; Mirim ocupando a vaga ocorrida com a saída de Telesca, mas, permanecendo Bigode; e, no ataque, 109 vindo a preencher a posição de ponta direita, até então desempenhada por Pedro Amorim, e, depois, Santo Cristo; Ademir cedendo o lugar a Emílio e Didi, no ataque, também a participação de Rubinho e Juvenal, que juntaram a Simões, Orlando e Rodrigues, que já eram titulares.

Destaque-se, por oportuno, que a promoção ao time principal de jovens, egressos da divisão de base, deu-se com o aproveitamento de Telé, Tite, Robson, João Carlos, Joel e Quincas.

Época de ouro, grandiosa para o nosso querido Fluminense, time “tantas vezes campeão”, como registra o seu hino, clube que eu ainda jovem, aos 13 anos, interno do Colégio de Ouro Preto, histórica cidade de Minas Gerais, já o adotara, na qualidade de impernitente torcedor, com a acendrada paixão clubística, exacerbada anos a fora, pelo privilégio de haver integrado seu grande elenco, e tendo como dirigentes, tricolores eméritos, e altamente qualificados, da estirpe de Carlos Nascimento, Dilson Guedes, Hilton Gosling, os quais reverenciamos neste evento, que contou com o apoio da Diretoria do Fluminense, tendo à frente o seu operoso Presidente, Pedro Abad, a quem a gloriosa família tricolor deve um merecido reconhecimento pelos relevantíssimos serviços já prestados ao nosso clube, com a perspectiva de vir a brilhar na esfera da alta direção dos esportes nacionais. Merece significativo registro a contribuição valiosa à excelência do futebol brasileiro pela atuação de muitos daqueles jogadores tricolores, que se dedicam, com êxitos inegáveis, na obtenção de múltiplas e importantes vitórias no cenário mundial do futebol.

E como “tricolor de coração”, confraternizo, por fim, com todos aqui presentes, externando os meus mais ardentes desejos e esperançosos votos de que o Fluminense continue, anos a fora, multiplicando as suas intocáveis conquistas, para gráudio de todos os que amamos e enaltecemos as suas glórias passadas e presentes.

F 01 -1948 - elenco campeão TMunicipal

Referências:

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1948tm.htm

http://www.rsssf.com/sacups/copa48.html

http://www.rsssfbrasil.com/historicse.htm#rj

Agradecimentos: Dhaniel Cohen, Heitor D’Alincourt, José Rezende, João Cláudio Bolthauser, Matheus Alves, Paulo César Filho e Valterson Botelho.

Agradecimentos especiais: Emílio Ibrahim e Aloísio Soares Braga (Índio) e família.

A foto do time do Fluminense, campeão do Torneio Municipal de 1948, foi gentilmente cedida por José Rezende.

As entrevistas de Emílio e Índio foram gentilmente cedidas por Valterson Botelho.

As escalações do Fluminense no Torneio Municipal de 1948 foram gentilmente cedidas por Paulo César Filho, o que possibilitou relacionar todos os jogadores que participaram do Torneio e a quantidade de jogos disputados por cada um.