No início da década de 80, a brasileira Engesa (Engenheiros Especializados S/A) desenvolveu pela primeira vez um MBT (Main Battle Tank) visando o mercado internacional. Tratava-se do EET1 Osorio. A Engesa era um fabricante de equipamentos militares terrestres que já havia desenvolvido e produzido blindados sobre rodas como o EE-11 Urutu, EE-9 Cascavel e o EE-3 Jararaca.

O Osorio foi desenvolvido com o acompanhamento dos engenheiros militares do Centro Tecnológico do Exército, tendo sido construídos dois protótipos: um com o canhão de 105 milímetros e o outro com o canhão de 120 milímetros.

O grande momento do Osorio foi a sua participação no processo de concorrência da Arábia Saudita realizado em julho de 1987 para escolha do MBT que substituiria o AMX-30. Participaram desse processo o Osorio (Brasil), o AMX-40 (França), o Challenger (Inglês) e o M-1 Abrams (EUA). O Abrams já era usado pelo Exército Americano desde 1980 e o Challenger pelo Exército Britânico desde 1983. Já o Osorio e o AMX-40 eram protótipos criados para o mercado internacional e não eram utilizados pelos Exércitos dos seus países.

Os testes foram realizados por tripulações sauditas e consistiram na execução de rodagem de 2.350km, sendo 1.750km em deserto; aceleração; frenagem; pivoteamento (giro de 180 graus); consumo de combustível na estrada e no deserto; permanência do veículo parado por 6 horas com motor ligado; execução de 6 km de marcha ré; reboque de um carro de combate de 35 toneladas por 10km; remoção e instalação de lagartas; superação de trincheiras de 3 metros de largura; dar partida no veículo em rampas de 65%; rodar em rampa lateral de 30%; execução de disparos com o veículo estacionado contra alvos estacionados e em movimento (distância máxima de 4km), e execução de disparos com o veículo em movimento contra alvos em movimento (distância máxima de 1,5km).

O Osorio se saiu muito bem em todos os testes.

Em fevereiro de 1988 o governo saudita anunciou que o Osorio e o Abrams haviam sido classificados como “passíveis de serem comprados”, enquanto o AMX-40 e o Challenger haviam sido eliminados do processo.

Depois de três anos, o governo saudita anunciou em novembro de 1990 a compra de 315 M-1A2 Abrams. A versão do Abrams comprada pela Arábia Saudita era superior a que havia participado dos testes.

Além da concorrência da Arábia Saudita, em 1988 o Osorio participou da concorrência dos Emirados Árabes Unidos juntamente com o C-1 Ariete (Itália) e, novamente, com o AMX-40 (França). Finalizados os testes, o governo dos EAU não emitiu qualquer comentário. Em 1993, os EAU anunciaram a escolha do AMX-56 Leclerc (França) e a aquisição de 436 tanques.

Foram as duas únicas concorrências do Osorio. Em 1993, a Engesa faliu.

O Exército Brasileiro recuperou os dois protótipos do EET1 Osorio que estavam na massa falida da Engesa. O Osorio fotografado para esse artigo é o que está no Museu Conde de Linhares no Rio de Janeiro. O outro protótipo está no Centro de Instruções de Blindados General Walter Pires, em Santa Maria-RS, e pode ser visto no site www.cibld.eb.mil.br/index.php/museu-blindado#ee-t1-osório.

 

Reliquiando…

O nome Osorio – O EET1 recebeu o nome Osorio em homenagem ao General Manuel Luís Osorio, herói brasileiro da Guerra do Paraguai (1864 – 1870). Osorio nasceu em Conceição do Arroio-RS no dia 10/05/1808 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ no dia 04/10/1879. Em 1934, Conceição do Arroio passou a se chamar Osorio;

M-1 Abrams – O Abrams foi desenvolvido pela Chrysler Defense, atual General Dynamics Land Systems, sendo utilizado pelos Exércitos dos Estados Unidos, Arábia Saudita, Egito, Kuwait, Iraque e Austrália. Seu nome é uma homenagem ao General Creighton Williams Abrams Jr (15/09/1914 – 04/09/1974) que participou da Segunda Guerra Mundial, da Guerra da Coréia e da Guerra do Vietnã.

Challenger 1 – O Challenger 1 foi desenvolvido pela Royal Ordnance Factory. Ele foi usado pelo Exército Britânico de 1983 até 2001, tendo sido substituído pelo Challenger 2, que entrou em operação em 1998. Ele segue sendo usado apenas pelo Exército da Jordânia;

AMX-56 Leclerc – O Leclerc foi desenvolvido pela GIAT, Groupement des Industries de l’Armée de Terre, atual Nexter, sendo utilizado pelos Exércitos da França e dos Emirados Árabes Unidos. Seu nome é uma homenagem ao General Philipe Leclerc de Hauteclocque (22/11/1902 – 28/11/1947) que participou da Ocupação do Ruhr, da Segunda Guerra Mundial, lutando pela França Livre, e da Guerra da Indochina.

C1 Ariete – O Ariete foi desenvolvido pela OTO Melara e pela Fiat-Iveco. Ele é utilizado desde 1995 apenas pelo Exército Italiano.

AMX-30 – O AMX-30 foi desenvolvido pela GIAT, atual Nexter. Entrou em operação no Exército da França em 1967. Segue sendo usado pela Arábia Saudita, Bósnia e Herzegovina, Chipre, Espanha, Nigeria, Qatar, Tunísia e Venezuela. Já foi retirado de serviço na França, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Grécia e Chile. Na Arábia Saudita o AMX-30 foi substituído pelo Abrams como MBT, mas continua sendo utilizado nos postos de fronteira. Na Espanha, quase todos os AMX-30 foram retirados de serviço, com exceção da versão de bateria anti-aérea (AMX-30 Roland);

O uso de MBTs pelo Exército Brasileiro – O Exército passou a usar MBTs a partir de 1996 quando comprou o americano M60 (EUA) e o alemão Leopard (1A1 e 1A5). O M60 entrou em serviço no Exército dos Estados Unidos em 1960. O Leopard 1 entrou em serviço no Exército Alemão em 1965;

O Exército brasileiro segue usando dois blindados da Engesa – O EE-9 Cascavel e o EE-11 Urutu entraram em operação no Exército Brasileiro em 1974 e seguem sendo usados.

A Guerra do Golfo – O Governo Saudita informou a escolha do Abrams num momento extremamente tenso do Oriente Médio. No dia 02/08/1990, o Iraque havia invadido o Kuwait. No mesmo dia, o Conselho de Segurança da ONU emitiu a Resolução 660 através da qual condenava a invasão e solicitava a retirada imediata e incondicional das forças iraquianas, o que não aconteceu. No dia 29/11/1990, o Conselho de Segurança emitiu a Resolução 678 através da qual solicitava o cumprimento total da Resolução 660 bem como das Resoluções 661, 662, 664, 665, 666, 667, 669, 670, 674 e 677, e autorizava os países-membros a utilizar todos os meios necessários para fazer com que todas as Resoluções emitidas fossem cumpridas caso o Iraque não se retirasse do Kuwait até o dia 15/01/1991. No dia 17/01/1991, a coalização liderada pelos Estados Unidos iniciou a Operação Tempestade do Deserto. No dia 28/02/1991, os Estados Unidos anuniciaram o cesar-fogo e a liberação do Kuwait;

Legado – Por mais que o Osorio tenha se saído bem na concorrência da Arábia Saudita, ele era um protótipo de uma empresa que nunca havia feito um MBT antes. A expertise da Engesa era com blindados sobre rodas. O AMX-40 também era um protótipo, mas não havia dúvidas sobre a capacidade da GIAT de produzi-lo pois ela era o fabricante do próprio AMX-30, tanque que já era utilizado pela Arábia Saudita. Ou seja, a Engesa e o Osorio eram uma incógnita para os sauditas. Com relação a atuação americana na concorrência, é importante lembrar que o lobby e a atuação política são uma realidade em processos que envolvem o fornecimento de equipamentos tão caros e sofisticados. Sugiro a leitura atenta do artigo da “Forças Terrestres, Engesa EET1 Osorio”. Por parte dos brasileiros, o problema chegou a ser escalado ao Presidente Fernando Collor para que ele intercedesse em favor do fechamento do negócio.

Para que o Osorio realmente tivesse sido considerado o melhor do tanque do mundo daquela época, como ainda se diz em algumas oportunidades, acredito que ele deveria ter sido produzido, utilizado e testado em combate, o que não aconteceu. Ele participou de duas concorrências. Sabemos que ele se saiu bem na primeira, mas não sabemos como se saiu na segunda. Existem dois fatos a serem lamentados. A Engesa faliu em 1993, e três anos depois o Brasil começou a comprar MBTs desenvolvidos a partir da década de 60 para o seu Exército. Por mais que o M-60 e o Leopard tenham sido modernizados, eles são tanques da década de 60. O segundo fato é que o conhecimento acumulado no desenvolvimento do Osorio foi perdido pois ele não teve continuidade. Depois do Osorio, nenhum outro MBT foi desenvolvido no Brasil. Acredito que o Osorio deveria ser lembrado pela capacidade e competência dos engenheiros da Engesa e do Exército Brasileiro que do zero e sem experiência, construíram um tanque que impressionou os sauditas e deixou os americanos preocupados.

Referências

Forças Terrestres, Engesa EET1 Osorio, Começo, meio e fim de um bom projeto e um mau negócio (http://www.forte.jor.br/2015/12/27/engesa-ee-t1-osorio/);

Guia de Armas de Guerra, Tanques e Carros de Combate Modernos, Editora Nova Cultural;

Security Council Resolutions – 1990 (http://www.un.org/Docs/scres/1990/scres90.htm).

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Museu Conde de Linhares

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