Ricardo Tagliapietra

Formado em História, Ricardo se dedicou por 15 anos ao magistério, antes de iniciar seus estudos de restauração. No início dos anos 90, ele fez um curso de restauração de papéis na ABER, Associação Brasileira de Encadernação e Restauração. Em seguida, Ricardo foi para Belo Horizonte cursar a pós-graduação do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais, órgão ligado à Escola de Belas Artes da UFMG. Depois de dois anos de estudos, com uma forte ênfase em esculturas policromadas e pinturas de cavalete, Ricardo retornou a São Paulo. Depois de trabalhar no Arquivo Público do Estado, ele passou a se dedicar ao seu atelier especializado na restauração de pinturas e, principalmente, papéis.

 

Papéis de fibra de algodão e fibra de madeira

Ricardo ressalta que o papel se degrada naturalmente com o tempo. A perda da estrutura se deve a interação do suporte com as variações do meio ambiente em que ele está inserido, como umidade relativa, temperatura e luz.

Até meados do século XIX, os papéis eram feitos com fibra de algodão, o que fazia com que eles tivessem uma excelente qualidade. A partir de então, os papéis passaram a ser feitos com fibra de madeira, o que impactou diretamente na qualidade e fez com que eles passassem a enfraquecer mais rápido com o passar do tempo. É por isso que existem papéis do século XVII, por exemplo, em perfeito estado de conservação, apresentando maleabilidade e flexibilidade. Por sua vez, existem papéis do século XX que se degradam com mais facilidade.

O enfraquecimento do papel de fibra de madeira se deve a não extração, durante o processo de fabricação, da lignina presente nas fibras. Os papéis de fibra de algodão também apresentam problemas, mas não na mesma intensidade.

 

 

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O tratamento de conservação

O tratamento de conservação de obras que utilizam o papel como suporte (livros, documentos, desenhos, gravuras e pinturas), tem como objetivo garantir sua longevidade para que ele tenha plena condição de perpetuar as informações contidas em sua estrutura. Problemas como manchas d’água ou oxidações interferem na leitura da obra e comprometem sua completa apreciação.

O tratamento pode envolver uma simples higienização ou intervenções que abranjam reparos de rasgos, fissuras e perda de suporte (perda de um pedaço). Desacidificações (extração dos ácidos presentes na fibra do papel) são tratadas em meio aquoso, mas para isso é necessário testar a solubilidade do papel. Obras como aquarelas ou feitas com tinta gache e caneta hidrocor, não têm condições de serem tratadas dessa forma. Deve-se também tomar muito cuidado com obras feitas em papel vegetal e couche. É possível tratá-los, mas existe uma grande probabilidade de que a obra se modifique.

 

O objetivo do tratamento

O objetivo da conservação é dar uma sobrevida ao papel, melhorando a sua estrutura químico-física através da sua desacidificação. O tratamento visa a melhoria do pH e o estabelecimento de uma reserva alcalina que lhe dê mais tempo em contato com o oxigênio e a umidade. Cabe ressaltar que além desses dois fatores, a incidência de luz também enfraquece o papel. Ricardo esclarece que mesmo com o tratamento, o papel volta a acidificar devido às condições do ambiente. Os museus possuem locais apropriados para a guarda de papel, mas os colecionadores, em geral, não.

 

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Os problemas mais comuns

Segundo Ricardo, os problemas mais comuns são:

 

  • Muitas obras feitas sobre papel foram emolduradas com placas de Duratex no seu verso, principalmente no decorrer das décadas de 1960 e 1970. Por serem extremamente ácidas, as placas fizeram com que as obras ficassem amareladas, acelerando sua acidificação e degradação. Atualmente, a maioria dos moldureiros não trabalha mais com placas de Duratex ou com cartões Paraná, outro tipo de material inapropriado que foi muito utilizado na montagem de obras feitas em papel;
  • A aplicação de fita Durex para o reparo de rasgos também é problemática. Com o passar do tempo, a cola da fita impregna o papel, deixando linhas escuras causadas pela acidificação. A fita Durex também era utilizada na montagem de gravuras, assim como fita crepe e cola de PVA, gerando prejuízos ao papel com o passar do tempo;
  • Um rasgo pode ser unido, mas não deixa de ser uma cicatriz. Quando a obra está muito rasgada, Ricardo opta por aderir um papel fino ao seu verso para que ela volte a ter sua estrutura (velatura) garantida;
  • Lacunas são áreas de perdas de papel ou de pigmento no conjunto da obra tratadas através da reintegração cromática;
  • Manchas d’água podem ser removidas, mas esse é um processo que causa grande estresse à fibra do papel;
  • Enxertos são preenchimentos com outro papel para complementar uma área faltante do suporte original. Eles podem ser feitos, mas ficam visíveis, passando a fazer parte da obra;
  • Vincos não têm como ser eliminados;
  • Certos tipos de deformações, como ondulações, nem sempre podem ser eliminados, mas podem ser suavizados. Um passe-partout (paspatur) pode amenizar o problema, mas não resolvê-lo. Ricardo já se deparou com obras de Manabu Mabe e Aldemir Martins que foram grudadas em placas de Duratex por terem ficado onduladas. Isso fez com que as obras ficassem amareladas. Ele teve que remover as placas e fazer o tratamento das obras para retirar a cor amarelada.

 

A guarda das obras feitas sobre papel

As obras feitas sobre papel devem ser guardadas em mapotecas. Ricardo recomenda fortemente que não se guarde obras de forma enrolada ou em sacos plásticos, que apesar da proteção contra o pó, criam microclimas apropriados para a proliferação de fungos.

As obras guardadas em mapotecas não devem ficar uma sobre a outra, pois a tinta de uma mancha o verso da outra. Como consequência, a acidez da tinta deixa a obra de cima amarelada. As obras podem ser guardadas dessa forma se for posto um papel de boa qualidade entre elas.

Outro ponto é a localização da mapoteca. Ela deve ficar num local sem muita oscilação de temperatura e com umidade controlada. Deve-se evitar que ela fique junto a paredes externas que recebem insolação e chuva, pois a parede carrega seus efeitos para dentro do cômodo. Não se deve esquecer que por ser hidroscópico, o papel absorve com muita facilidade a umidade.

 

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Montagem de obras de arte para apreciação (molduras)

Com relação a montagem de obras para apreciação, deve-se ter cuidado com o material posto no fundo, com o distanciamento da obra com relação ao vidro e com o material de fixação.

O fundo de obras emolduradas deve ser inerte e não pode carregar acidez. Caso não seja possível utilizar materiais de boa qualidade, deve-se interpor um papel de fibra de algodão entre a obra e a placa de duratex. Ricardo já recebeu em seu atelier aquarelas emolduradas que estavam separadas da placa de Duratex por jornais. A tinta do texto do jornal passou para o verso da obra, causando o amarelamento em decorrência da acidificação.

É importante que haja uma distância entre o vidro e a obra, não podendo haver contato entre os dois. A obra pode ser montada em uma moldura tipo caixa ou com um passe-partout (paspatur). Ricardo não recomenda a montagem em sanduíche de vidro, forma muito utilizada na década de 1970. Isso facilita a condensação da água e a consequente proliferação de fungos. Ele já recebeu uma obra de Frans Krajcberg que não pôde ser restaurada pois havia sido atacada por fungos. Coube a ele informar à cliente que a obra estava perdida, sem qualquer chance de ser restaurada.

A obra deve ser fixada com material reversível e que não seja ácido. Em alguns casos, a restauração também implica na troca dos componentes da moldura.

Ricardo já recebeu um par de gravuras de Mira Schendel com o mesmo tipo de moldura e com fundo de placa de Duratex, sendo que uma gravura estava mais amarelada que a outra. Ele teve que retirar a cor amarelada das gravuras (cada uma teve um tratamento) e colocar um cartão de pH neutro para separá-las das placas de Duratex, que tiveram que ser mantidas pois tinham etiquetas com importantes informações sobre as obras.

 

Obras feitas sobre os mais diversos tipos de papel

Ricardo recorda que artistas como Tarsilia do Amaral e Arcangelo Ianelli fizeram esboços de desenhos em papéis de baixa qualidade, como papel jornal. Com o tempo, até mesmo esses esboços passaram a ser valorizados e procurados por museus, instituições e colecionadores. Por causa da qualidade do papel nesses casos, a forma como eles são acondicionados ganha uma importância ainda maior.